domingo, 9 de dezembro de 2012

Sem Título




É o quarto dia seguido em que o céu desaba sobre o telhado velho, enfeitado com pequenos países de musgo verde agressivo. Tenho arrastado os chinelos de couro, aqueles que têm um cheiro agradável- insuportável de velharia pela casa como quem procura alguma coisa, alguém quem sabe? Joguei a TV pela janela do quarto de cima na ultima vez que tive uma recaída, talvez tenha sido uma coisa boa, ela sempre ficava gritando e querendo a todo custo me ensinar, preceitos e preconceitos que não cabem em mim, que enfeiuram minha testa, que já demonstra as linhas de tempo, cheias de imposição, marcando pensamentos que já se foram. Preciso falar das flores, tive um cuidado especial com elas, sabia que você se alegraria com a vivacidade delas, não fui muito feliz no meu posto de cuidador de pétalas, é com muito aperto no peito que digo que estão todas mortas, acho que devo ter colocado um adubo estragado, não sei se adubo se estraga, ou talvez tenham sido as chuvas, o frio, lembra elas eram tão sensíveis, eu as cuidei, até acordei cedo! Sei que você se decepcionou, mas o que se podia esperar de um velho que vive enfiado em um robe vermelho e com perolas falsas no pescoço? Tâmara foi a primeira a desfalecer, chorei a noite inteira era minha favorita, acho que gostava do fato de ela ter todas as folhas voltadas pra si própria como se recusasse a entregar alguma coisa, talvez entregar-se, eu o fiz... A casa tem permanecido escura e em silêncio que só é quebrado pelos já descritos ruídos das sandálias. Não consigo atingir as notas, os dedos parecem que se recusam e a garganta cansou, esmoreceu-se. Desculpe por lhe vomitar todos os meus problemas sem prévias, é que preciso dividir, já não consigo mais olhar para as janelas elas parecerem me apontar, me cobrar algo, mas o que ei de fazer, o que tenho eu a oferecer? Tenho sentido de novo aquelas tonturas, e não é por causa dos cigarros e do conhaque. Ah!! odeio você seu maldito! Sempre com essa merda de olhar de deus, sempre acima de tudo, sempre com essa roupa branca, limpa! Vá pro inferno!! Desculpe! Tenho sentido uma saturação de emoções contidas, as paredes são boas ouvintes, mas preciso de reações humanas. Sinto uma revolta absurda, revolta dos rostos que já vi, dos sorrisos que ouvi, do sentimentalismo de bosta que lançaram sobre mim! Onde estão vocês quando o que se resta são apenas olhos de maquiagem borrada? Promete que ninguém vai ocupar meu lugar? Promete! Promete! Quer uma xícara de chá? Lembrei da primeira vez que você deu o ar da graça em minha casa, eu estava sentado terminando uma de minhas composições, você entrou devagar pela porta entreaberta, me olhou atentamente, até que terminei, me assustei com tua presença não costumava receber visitas, mesmo assim fiquei intrigado com a sua presença magra e debochada que tomava todo o centro do meu tapete, como um perfeccionista que arruma cuidadoso os lápis da mesa. Sentei-me na poltrona com pequenas corujas bordadas assim como estou agora, e você quase como está ai, tenho certeza, previsível, você sorriu se apresentou, me entregou um papel meio amassado, um pouco sujo de café nas bordas, disse que tinha escrito uma musica de sucesso para mim, com um expressão, julguei audaciosa, peguei com um tanto de despeito, um certo nojo confesso, mas logo me empolguei com as estrofes rabiscadas ali, pedi que me mostrasse a melodia e você o fez sem grande espaço de tempo, e o resto você já sabe, subimos ao quarto decorado com detalhes exóticos, estive dentro de você, mesmo tendo a aparência mais feminina, isso até hoje ainda te atormenta não é mesmo? Não precisa mais me trazer a porra de sua caridade, não preciso que me mostre os cacos, eu os conheço perfeitamente. Eu só queria saber em que maldito espaço eu me escondi?! Eu costumava ser tão admirável, eu poderia culpar você, culpar a Deus, afinal sou humano também, e os humanos sempre culpam algo ou alguém pelos seus fracassos, prefiro me manter aqui, o ar quente das paredes às vezes me acalma. Deixe, deixe que eu mesmo recolha, era a ultima que faltava se despedaçar. Aquela tremedeira voltou, nos últimos dias não tenho mais nem conseguido tomar nada sem que derrame tudo. Sempre tive muito perto da linha do real e do imaginário, mas ultimamente acho que não tenho mais tanta noção do concreto e do abstrato, tenho tido sonhos estranhos, parei de ler antes de dormir, sonhava sempre com a história que lia assim que pegava no sono, fiquei meio atordoado, você acha mesmo que deveria procurar um medico? Acho melhor não, não suporto aquela arrogância por trás daquela roupa irritantemente branca. Eu só quero alguém que me ouça, eu quero ter a certeza de que existe alguém ai do lado de fora das janelas que saiba que eu estou aqui, que eu vivi alguma coisa nesse tempo, que talvez precise ser conhecida por alguém, só quero expor minhas ideias, tenho voz forte pra chamar atenção do mundo. Queimei todos os discos, só ouvia gritos, labaredas melódicas. Porque ainda tenho essas vontades? Já devia ter deixado de manchar meus olhos com sague. São deprimentes as gotas na janela, não acha? Só não queria sentir essa falta, falta de pensar maior, falta de ter dias que já foram, falta de dias que não passaram de ideias, de memorias irreais, falta de ter tirado sangue de alguém além de mim. Sempre me esforcei de certa forma, para estar no meio do grupo dos “estranhos” e agora que estou aqui, me sinto o estranho dos estranhos, não me encaixo, talvez não precise me encaixar, sou uma pedra solo. Lembra que eu já sofri por querer ter um talento que só eu tinha, só queria ser bom em alguma coisa que fizesse a diferença.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Meu Amor Solidão





Olá senhorita, estava esperando por você... Essa frase é meio esdruxula não acha? Me lembra uma daquelas mulheres metidas a cigana, mas que não sabem nem o que isso quer dizer, com aqueles brincos enormes nas orelhas e o seu velho e surrado baralho de tarô desgastado de tanto enganar pobres desesperados, não que eu já tenha visitado alguma delas, na verdade tenho até uma certa curiosidade, mas nunca fui, é que vejo na TV que por um acaso fica sempre ligada, assim não me sinto o tempo inteiro sobre a tua influencia. Há algum tempo não a vejo, e pelo que me lembro você não estava tão sorridente da ultima vez. Está toda enfeitada, fez isso tudo só para me ver? Que honra! Afinal de contas tu continuas a ser uma visita mais que ilustre. Conheço esse meio sorriso, sei que ficas feliz quando conjugo tão vivamente os verbos. Não agradeça isso não é muito do seu feitio. Não repare na bagunça. Sei que você até gosta desse lugar do jeito que está, cheio de restos de comida espalhados, cinzeiros cheios e com aquele ar meio pesado. Mas me fale de você. Aceita um pouco de chá é aquele com a mistura de ervas, não faz tanto tempo que você se foi... É verdade, que você foi expulsa, mas isso já passou, já somos adultos o bastante pra lidar com isso – essa é outra daquelas frases, até parece que porque deixamos de crescer fisicamente nos tornamos soberanos, porem você entendeu o que eu quis dizer – então continuaremos, certo? Esse perfume é francês? Creio que sim, tu continuas a ser muito elegante, vi quando você entrou com todos esses rubis enormes nas orelhas e no pescoço, são rubis não são? Ou é alguma daquelas pedras raríssimas de que nunca ouvi falar? Porque estou rindo? É que quando nunca a tinha visto, apenas havia ouvido falar de ti, ou então lido em um livro como você tratava as pessoas, imaginava tuas faces de outra forma, perdoe pelo que vou dizer, mas te imaginava feia e decrepita, me enganei absurdamente, se eu fosse uma mulher queria ser assim como você, queria ter esse olhar meio felino que tu tens, e essa voz, meio estalada, e claro todas essas joias que tilintam quando você anda, como agora. Acho muito engraçado o jeito como você se senta, não sei se já percebeu, mas sempre passa a mão na parte detrás das saias em seguida inclina levemente a cabeça para traz e olha quem está sentado, de cima, num gesto meio soberano, depois se senta calmamente, e por fim cruza as pernas ainda muito bonitas para sua idade. Não, não vá, desculpe não queria te analisar novamente e nem tão pouco te chamar de velha, por favor, fique, estava sentindo sua falta. Temos muito que conversar, parece que nos distanciamos nesse tempo que passamos separados, estou me sentindo um pouco desconfortável contigo, como se nos conhecêssemos agora, estranhos que se apresentam, quero reavivar nossa amizade, nossa cumplicidade, você voltou a ser tudo o que eu tenho. Não me olhe com esse maldito olhar de piedade, você sabe que eu odeio! Tudo bem eu me acalmo. Senti tanta falta do teu abraço, das nossas conversas até tarde da noite, das nossas risadas do mundo lá fora, de você me dizendo que eu seria mais feliz aqui contigo, você estava certa... Deixe que eu chore, eu só quero chorar agora jogado no chão. Levante-se você está acima de mais para sentar-se ao chão além do mais irá sujar seu lindo vestido. Por que não acreditei em você? Olha só o que fiz quebrei meu ultimo aparelho de chá, odeio ser um maldito desastrado, será que nunca vou conseguir manter nada? Até você que eu pensei que nunca fosse embora eu consegui expulsar, continuo assim expelindo as pessoas da minha vida, fazendo caminhos para longe de mim. Eu me acostumei a viver sem tua presença, me habituei a viver seu seus conselhos, agora me sinto o maior dos idiotas em te pedir que volte que me ajude a voltar a ter somente a ti. Eu sei, eu sei de tudo que eu fiz! Acreditei nele... Era tão convincente, dizia tantas coisas bonitas, eu queria ser feliz. Eu sei o que você me disse sobre ela, que ela não é confiável, mas todo mundo fala tão bem dela, queria vê-la com meus próprios olhos, como será a Dona Felicidade? Na certa uma daquelas velhas donas de cabaré. Vamos esquecê-los por um instante, vamos para a sacada, é o meu lugar favorito, e o mais limpo também. Espere só um instante enquanto preparo um copo com conhaque, aceita? Você fica muito mais linda com a luminosidade da lua, eu já havia dito isto a ti, não? Deixe que te olhe novamente, sempre me perdi nos teus cabelos escuros que escorrem ligeiros sobre os ombros e na tua boca de imensa delicadeza e nesse corpo de mulher madura que já possuiu tantos como eu. Sei que você gosta desse silêncio que se instala quando nos faltam as palavras, mas eu queria ouvir um pouco de musica se não se importa. É um daqueles Blues antigos que te fazem tão bem, lembro que uma vez você me disse que gostava por que te lembrava das vidas que são suas. O dia está calmo é nesses dias que te vejo brilhar. Às vezes queria ver pelos teus olhos, ver todo mundo que já foi teu, como viveram, queria saber de quantos rostos você já teve. Eu olhando para o telefone? Claro que eu não estou olhando para ele. Não eu não estou esperando nenhuma ligação! Sei, sei tenho que ouvir somente você, sei que você é minha melhor companhia, nunca mais vou deixar-te, eu prometo, sei que você é a mulher da minha vida. Posso dançar um pouco contigo? Essa é aquela musica que ouvíamos juntos, sempre, você gostava porque ela grita a plenos pulmões que o amor é um jogo de azar, e você dizia para que eu me afastasse dele, por que o conhecia muito bem. Como fui tolo! Eu já te contei como foi que tudo aconteceu? Pois bem, era um dia daqueles que acordava de mau humor por te encontrar sempre por aqui, você lembra? Disse que não a queria vê-la aquele dia, me arrumei e coloquei meu melhor sorriso no rosto e comecei a andar sem saber ao certo para onde ia, e em uma daquelas esquinas em que as calçadas são cheias daquelas árvores de flores muito coloridas que nessa época do ano desabrocham e enchem a rua de perfume, eu andava e olhava para o céu que estava muito azul e sem nem uma nuvem o que é raro onde vivemos, quando atravessei a rua lá estava ele, com aquele maldito sorriso perfeito, tinha até covinhas nas bochechas que eu devo confessar achava muito brega, mas nele estavam lindas, ele fez um gesto com as mãos me convidando a sentar na mesa de um barzinho daqueles que as cadeiras são de madeira e eles sempre põem uma flor em um pequeno jarro de vidro com uma fina cintura, desta vez era uma margarida. Sabe uma vez li em um livro de Caio Fernando Abreu que ele dizia assim: “E de repente olhaste uma flor sobre uma sepultura e disseste que gostava tanto de amarelo e eu disse que amarelo era tão vida e sorriste compreendendo e eu sorri conseguindo e vimos uma margarida e nem sequer era primavera e disseste que margarida era amarelo e branco e eu disse que branco era paz e disseste que amarelo era desespero e dissemos quase juntos que margarida era então desespero cercado de paz por todos os lados”. Pensei em citar essa parte que sabia decorado, quando ele gentilmente tirou a flor delicada do vasinho e me entregou embalada em um outro sufocante sorriso, mas me contive não queria parecer abusado, ou dá uma de intelectual, acho que me deu aquela velha vontade de agradar, sabe? Conversamos por muito tempo e nem vi o tempo passar, eu o olhava fazendo uma linha com os olhos sempre saindo do olho esquerdo em direção ao direito depois a boca, depois os olhos novamente e ficava gulosamente tentando ver tudo de uma vez só, acho que até me atrapalhei algumas vezes. Depois de alguns cafés ele parou de falar e me olhava como se eu estivesse coberto por um código que ele tinha o dever de decifrar, e para ser sincero eu acho que ele o fez, então ele respirou fundo e isso me assustou um pouco, as pessoas sempre respiram fundo antes de fazer comunicados importantes, em seguida perguntou delicadamente se podia tocar na minha mão, fiquei um pouco surpreso e quis perguntar o porque daquilo, mas logo desisti, porque tive medo que ele voltasse atrás no pedido, e com um gesto de cabeça dei o aval, ele aproximou sua mão grande da minha que pareceu tão insignificante em comparação com a dele, me deu aquele frio na barriga de quando andávamos eu e você, juntos na roda gigante daquele velho parque, lembra? Eu senti uma modificação interna instantânea e não sabia o que era, mas sabia que era bom, trocamos telefones e voltei para casa, como nunca havia me sentido na vida. Você ainda estava aqui a minha espera, pensei em contar-te, mas achei que você não receberia bem, então me contive. Fizemos as pazes ainda aquela noite e dormimos abraçados como costumávamos fazer todas as noites  mas ele não saia da minha cabeça. Encontramo-nos outras vezes sempre no mesmo barzinho. Um dia ele me disse que queria me mostrar um lugar, andamos um pouco numa trilha até chegar a um lugar onde tinha uma pedra em forma de coração, achei essa parte um tanto quando adocicada de mais, mas estava tudo bem, acho que já tinha absorvido muito de você, assistimos ao despedir do sol abraçados e eis que acontece o primeiro beijo, na medida certa, senti até o elevar-se dos pelos. Quando voltei ainda acordada como sempre a minha espera, gritou comigo me impôs autoridade, eu já estava farto então falei com toda convicção que a queria fora da minha vida. Joguei-te para fora dela, expulsa como um cão  sarnento, estava errado... Depois nos desentendemos, ele queria que eu mudasse alguma coisa em mim, porque se não ele não conseguiria viver comigo daquele jeito, eu recusei, fiquei furioso e resolvi te trazer de volta, estou envergonhado. Eu não estou esperando ligação alguma! Você está ficando obsessiva com isso! Bom! Não falaremos mais nele combinado? Vamos falar de nós. Lembra quando eu era criança? Costumávamos brincar juntos embaixo daquela goiabeira, fazíamos desenhos no chão, lembra? Você sempre tomava banho de rio comigo quando ninguém mais me queria por perto, me dava conselhos de como lidar com as pessoas, bons concelhos, eu te falava das minhas esperanças e você dizia que ela não iria fazer nada por mim. Eu já te falei que gosto de ouvir o barulho dos bichos á noite? Eu sei que você detesta, mas eu acho inspirador. Eu sei que não posso entender, mas deixa só dessa vez, não eu não vou te mandar embora outra vez, só que eu preciso falar com ele, por favor! Não fica chateada comigo... Ouviu o que ele disse? Disse que quer me ver. Desculpa, mas eu tenho que ir. Quando chegar, te conto como foi.
Ainda está acordada? Quando sai daqui me senti tão inseguro, ainda tentei voltar por duas vezes, mas não podia, precisava vê-lo, meu coração palpitava de tanta ansiedade, e quando dobrei a esquina lá estava ele de novo vestido com um belo sorriso e mais uma margarida na mão, desta vez eu recitei aquele trecho do livro, lembra? Que fala sobre as margaridas? Senti-me feliz, talvez ela não seja tão feia assim, eu sei o que você pensa dela, mas eu permiti. Queria que você me entendesse! Queria dividir minha vida entre vocês e me livrar finalmente desses velhos penduricalhos que adquiri de forma meio invasiva ao longo da vida. Você  que também sou eu e ele que é o meu Amor. Sei que quando alguém me quebrar ou fizer com que me perca, só você minha querida solidão vai fazer com que me reconstrua e me erga novamente.

terça-feira, 5 de junho de 2012

O Menino da Calçada





Ele não sentiu mais nada aquela manhã, a não ser o chão frio do quarto vazio e o cheiro comum dos cigarros esquecidos pelos cantos da casa. No rádio relógio tocava uma velha canção que costumava ouvir no colo da avó, ela adorava essa música um blues bem deprimente com uma gaita na introdução; por um momento imaginou sentir até a fragrância do perfume dela que era levada pelo vento e chegavam às narinas misturado ao cheiro das rosas do jardim e do cachimbo que ela por insistência não tirava da boca, ele a contemplava como uma rainha no seu trono de ouro, intrigava aquela figura de cabelos brancos, sentada na cadeira de balanço que rangia ameaçando desabar, mas nunca o fez. "Eu devo ter emagrecido me sinto mais frágil, mais vulnerável" o pensamento surge em sua cabeça subitamente após se deparar com o espelho sujo no canto do quarto, "e as calças não as encontro, odeio sair despido pela casa mesmo sabendo que não existem olhos aqui há não serem os meus", olhos esses que continuavam avermelhados, devido o baseando que perigosamente inventou de fumar como forma de resgatar um velho desejo de adolescente. Os domingos são todos assim, embrulhados com grossas camadas de tédio e apatia. É constrangedor que a única distração de um homem de trinta e poucos anos seja, o observar dos raios de sol que entram sorrateiros pela janela entreaberta do quarto. Ele em um gesto um tanto quanto infantil balança o tapete para que as partículas de poeira se agitem, e sendo iluminadas pelo sol se tornem brilhantes e então vem à ilusão de não serem mais apenas grãos de poeira, serem estrelas reluzentes, mas se bem que um dia deva ter ouvindo alguém falar que as estrelas são formadas também por poeira, poeira cósmica o que ele a principio achou um dos maiores absurdos. Aquele Domingo parecia não mais acabar, era nos fins de semana que mais sentia falta de alguém para conversar, contar histórias idiotas, e pensamentos absurdos, e manias estranhas, mas que de um jeito ou de outro o transformavam em alguém único, estranhamente único. Desde que levantou da cama - muito cedo por sinal para um dia de domingo - havia pronunciado apenas algumas palavras estava em um daqueles dias que tinha enjoado o timbre da sua voz áspera e estridente, queria dar descanso aos ouvidos, e tentava mudar a voz até mesmo quando pensava algo e ouvia sua voz irritante e presunçosa em sua própria cabeça. Sentiu vontade de beber, e rapidamente se levantou do chão ainda frio e correu até um baú de madeira onde lembrava ter escondido uma garrafa de vodka, se perguntava duas coisas enquanto procurava a chave do cadeado que abria o baú: uma era o porquê dos olhos cortados de revistas e colados sem capricho em todo o baú até na parte de baixo, outra é que não fazia sentido que ele escondesse a bebida afinal ele morava sozinho e ninguém nunca ia visita-lo, ele sentou no chão em frente o baú e com a chave na mão procurou um pensamento que abrisse essas questões levantadas sem explicação aparente, se esforçou por alguns segundos mudando o máximo que podia a voz que era dele, mas que ele não queria que fosse, a voz da sua cabeça. Roeu um pouco as unhas e logo fez expressão de alivio, havia ele colado os olhos no baú, para que alguém vigiasse assim como as borboletas com a arte do mimetismo? Talvez houvesse escondido a bebida dele próprio? Seria uma remota vontade de parar de beber? A chave do baú tinha desenhos de flores em relevo, e ele logo abriu o baú com certa "fome", encontrou algumas fotos antigas, uma aquela velhinha da cadeira de balanço, outras com roupas de bicho, fotos constrangedoras, ridículas, alguns textos velhos em folhas já amareladas e roídas por traças, uma em especial, um plano que ele redigiu que se chamava: como destruir o mundo, ele ri um riso meio solitário e cheio de nostalgia, devolve todos os pertences ao baú e só encontra uma garrafa vazia, decide então sair para comprar uma nova. As nuvens encobriam rapidamente o sol e ele pega o guarda-chuva que odiava carregar, caminha vestido em um sobretudo caqui como aqueles dos filmes de agentes secretos,  tenta não ser visto pelas poucas pessoas que caminham na calçada. Ele anda devagar e esconde o rosto com enormes olheiras com guarda-chuva que ainda não foi aberto, anda desengonçado pondo a ponta dos pés nos paralelepípedos que formam a rua, um dia ouviu falar que pisar no encontro de dois calçamentos trazia má sorte, então ele toma todo o cuidado em cada passo que dá. A música novamente volta a sua mente, mas agora sem ser tocada em lugar algum só na sua cabeça como se a música pertencesse apenas a ele, como se ela fosse dele, como se ela fosse ele. Mais a frente, observando os carros que passam cortando a chuva que ainda é fina, mas que ameaça fortalecer-se e logo se fortalece. Perde-se em pensamentos tolos como: o que faria se encontrasse um diamante agora, ou o que diria se esbarrasse com alguém que há bastante tempo não via, a sua linha de pensamento e cortada quando ele ainda um pouco longe vê uma pessoa sentada no canto da calçada suja e molhada, uma pessoa que aparenta ser uma criança, com o rosto enterrado nos joelhos, ele caminha rapidamente sem perceber que está pisando nas divisórias da calçada, chega bem perto e ouve o soluçar dramático, ele já ouviu aquele soluçar antes, estende a mão para tocar seu ombro, mas logo a recolhe, antes que a sua pele toque a pele do outro, talvez tenha sentido que não deve interferir, mesmo assim retoma o ato e toca o ombro da criança. O menino continua chorando agora mais freneticamente, ele se ajoelha e pergunta o nome, a criança continua apenas a dispersar sons de choro, ele então com toda a delicadeza de quem sabe o que é sofrer levanta a cabeça do menino devagar, o poste acima refrete a sua luz indiscreta sobre eles, as gotas da chuva parecem estar em câmera lenta quando atingidas pelos raios da iluminação, e caem também tristes sobre os dois corações que aparentemente padecem do mesmo mal, ele não consegue desfaçar a surpresa quando fixa o olhos no rosto de pele infantil, olhos marcados de maquiagem borrada pela chuva, batom espalhado pelo rosto inteiro, e as lágrimas que tornam se gotas únicas saídas do rosto e misturadas à chuva que insiste em se tornar mais forte, ele por um instante procura palavras que se embaralham na garganta querendo sair todas de uma vez, e não se ouve mais nada além dos soluços finais do choro cessante do garoto e as gotas de chuva que tocam uma sinfonia natural ao tocarem o asfalto quente. Ele pergunta preocupado e curioso o que um garoto tão novo faz na rua sozinho, e ainda por cima maquiado e desolado? O pequeno abre a boca devagar e com uma voz tremula assim como as mãos, explica que fugiu de casa porque não gosta de ser quem ele é. O homem sente no peito o coração se desintegrar e se sente a frente de um espelho e logo imagina uma vida ao qual não teve coragem de ter. Por instinto pega o menino no colo e leva para casa, sem se importar novamente com os paralelepípedos da calçada. Cuida do garoto como se cuidasse dele mesmo, e observa os movimentos femininos da criança, tanta delicadeza em segurar a xicara de chocolate quente, o jeito que cruza as pernas no sofá. Os dois não pronunciam muitas palavras. Depois de algum tempo de um na presença do outro sem que nem um nem o outro trocassem grandes frases, o homem se levanta e vai até a janela e vê que a chuva já tinha cessado e então conduz o garoto até sua casa, sem que antes dissesse o que sua alma gritava que ele dissesse, viva! Viva enquanto há tempo. O homem vê o menino se afastar lentamente pelo caminho de pedras de um jardim florido, de uma casa modesta pintada de verde bem claro, e deseja por tudo que ele tem, deseja ser aquele menino e talvez seja, talvez os dois sejam um, passado e futuro em conjunto, um querendo ter poder supremo na vida do outro. Ele só queria uma nova chance de fazer o que sempre quis.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Espelhos Internos




Imaginar... Foi sempre o que eu fiz de melhor - se é que fiz alguma coisa em minha vida - sempre criava na mente outras vidas, via cada detalhe; como eu seria se fosse outra pessoa, em outra época, via a mim como um mendigo morando em um beco úmido, logo em seguida me idealizava  como um faraó vivendo em um grande palácio no antigo Egito. Talvez até pareça um pouco monótono, solitário, frio e desesperado e de certa forma é. Apesar de querer me mostrar para o mundo à solidão era a minha maior companhia, sempre me deixava à vontade, ria e conversava sozinho. Sentia como se eu pudesse fazer tudo; sem conseqüências, tinha o que eu conhecia como “síndrome de Deus” e para a surpresa de todos, eu adorava. Uma coisa que me fazia muito bem era desprezar as pessoas, sentia o poder pulsar em minhas veias, para mim os outros eram apenas vaginas e bundas ambulantes, eu vivia em um mundo paralelo onde eu me sustentava; as ruas e cidades do meu mundo eram repletas de pessoas como eu, o surfista na praia era eu, o balconista da loja era eu, as pessoas que faziam sexo ali, na rua, eram eu também, o rei que estava sendo no trono, o deus a quem todos esses “eu” rezavam a noite, todos eram eu. Fantasiei muito e acho que um dos meus maiores devaneios sem dúvida era o desejo que sentia de fazer sexo comigo mesmo, assim como se eu pudesse de repente me transformar em dois e sentir minha pele a tocar ela mesma, meus lábios sentindo seu próprio sabor; meu próprio calor. Admito que isso de fato é muito estranho, porém não me envergonho. Creio que seja uma coisa minha. Como se fosse uma digital?
 Sabe uma coisa eu sempre quis muito? Queria entrar na cabeça das pessoas saber tudo aquilo que elas escondem de todo mundo; e às vezes até delas mesmas, suas luxurias e medos. Em falar em medo tenho pra mim que esse é o sentimento mais humano; e tendo a não gostar de ser humano pelo fato do tal medo existir. Fragiliza, concordas? Às vezes te olho assim profundamente e sei que te assusto, logo por que minha figura não é das mais agradáveis. Acredita que virei todos os espelhos de minha casa em direção à parede porque não quero ver meu rosto, o meu corpo? Por quê? Ainda pergunta? Veja só este homem, não sou mais eu, bom talvez eu nunca tenha sido quem sonhei ser. Pode parecer audácia minha, mas fui o jovem mais belo que conheci.Você sabe, não sabe? Então; tinha olhos lindos cheios de magia e talvez tenha me apaixonado por eles, passava horas os olhando e parecia que a minha imagem refletida no espelho tomava vida própria e me manipulava. Sei, sei estou voltando com essa psicose, mas é que não consigo evitar, não consigo parar de pensar no que eu fui. Maldita nostalgia. Quero mais um copo de uísque! Sim; como eu estava te falando antes de entrar de novo nessa viagem. Tinha olhos lindos que cintilavam a luz do sol, um cabelo de toque aveludado, minha boca tinha traços delicados como um pêssego maduro, minha pele era rosada, tinha cheiro agradável. Alegro-me em saber que todos e todas me desejavam desesperadamente. Linda juventude! Minha voz tinha um tom solene. Porém o tempo veio até mim como vai a todo mundo, foi cruel tirou de mim o único amor que tive a vida toda, entende? Creio que não. Frustrei-me de uma forma insana, pensava que eu tinha algum tipo de privilégio, que podia burlar o tempo, fantasiei que se negasse para todo mundo -inclusive para mim - nunca iria envelhecer. Tornar-se-ia verdade.
Não sonho mais, findei minha imaginação, não a uso, ela não me traz coisas boas, agora só consigo pensar na morte. Depressivo não achas? Não se podia esperar muita coisa de um velho ferido pela perda do próprio narcisismo. O lago voltou-se contra mim... Olha só essa face cheia de marcas, linhas malditas! Minha voz; sei que está seca não é mais melodiosa, é triste, decrépita. Eu não deveria sofrer tanto porque sei que meu coração morreu quando percebi que não era mais atraente. As pessoas começaram a me tratar com desprezo, tinham nojo de mim. Os meus subordinados riam de mim, virei alvo da ponta dos dedos. Talvez eu tenha um grande defeito, meu corpo sofre a ação dos dias e noites porem meu espirito é jovem, sou um jovem aprisionado pelo tempo em um corpo que se decompõe em vida. Os meus pés e costas doem fiz muito esforço para estar aqui, mas eu precisava vir. O sol está lindo nessa tarde não acha? Adoro essa brisa constante que só posso sentir aqui em cima, as pessoas parecem tão pequenas daqui, e na verdade são, almas anãs em corpos de gigante. São um monte de cabecinhas andando em cima de pontinhos coloridos, umas vão outras vem, sempre procurando alguma coisa que nunca vão achar. Sempre admirei os pássaros e quando criança pedia a Deus todos os dias para que me desse um belo par de asas negras, queria desfilar a minha beleza pelo céu e brilhar mais que o próprio sol. Olhando daqui, com o vento nos meus ralos cabelos brancos, me deu aquela vontade de pular, talvez eu ainda escute o barulho dos ossos se quebrando no asfalto ainda quente, gosto do barulho das coisas. Mas agora nada disso importa, estou condenado a perecer aqui sozinho, naquela  casa escura tendo que me deparar com essa cara, fétida, suja cheia de deformidades e delirar constantemente contando a ti repetidamente essa mesma historia, e me martirizando ainda mais vendo a tuas faces perfeitas, de certa forma me alegro por saber que tu sou eu, ou melhor, que já fui você.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Confronto



E de repente quando me vi estava no meio do campo verde e corria desesperado, sentia o medo impor seu sabor ao meu coração que batia descontroladamente suplicando pela ausência daquele sentimento. Minhas pernas davam passadas largas e tremiam freneticamente, minhas vestimentas escuras se confundiam com o negro da noite, que parecia rir do meu pavor. E quanto mais corria mais se aproximava de mim e meus pelos se ouriçavam de pavor enquanto gritos abafados saiam estridentes de minha garganta, que doía. Continuava correndo pelos campos que não eram mais verdes, agora estavam completamente em meio às trevas, minhas pupilas se esforçavam para encontrar o mínimo de luz possível, mas parecia inútil. A terra começou a tremer e eu parei e observei, uma luz avermelhada começava sair das fendas criadas no solo, só então eu pude ver que minhas roupas estavam rasgadas e minha pele embebida em sangue, ele era atraente e tinha cheiro bom, um vermelho vívido. Desviei minha atenção de volta as fendas que formavam desenhos no chão, e por elas saíram dedos e depois mãos e pés, muitos pés e mãos, em seguidas braços e olhos, bocas e cabelos, asas de morcego. Pareciam pessoas só que de uma beleza sobrenatural, altos e de olhos grandes, tinham todas as variantes de cores humanas, uns riam com a boca fechada, outros apenas olhavam com ternura, se aproximaram de mim sem tocar o chão usando suas enormes asas de morcego, o meu pavor aumentava gradativamente enquanto eles se aproximavam de mim, até que o maior deles voou rápido e se pôs a minha frente, o vento do movimento de suas asas me derrubou ao chão, homens e mulheres me olhavam. Ele se aproximou e me estendeu a mão e eu em um impulso aceitei o convite velado, levantei-me com sua ajuda, e ele apontou com o dedo indicador da mão esquerda que tinha um anel enorme com uma pedra azul, ele apontava para onde anteriormente estariam as fendas, elas agora não mais existiam o campo votou a ser verde agora iluminado pela lua cheia, os homens e mulheres, que juntamente com ele saíram da fenda, se entrelaçavam fundidos pelo sexo, rolavam e gemiam na grama e pareciam serem células de um só corpo gigantesco que se espalhava pelo campo inteiro, formava uma figura conhecida, porem não consegui identificar qual era. Ele me olhava enquanto continuava a apontar, voltei minha atenção as minhas roupas e aos cortes de minha pele e eles continuavam a sangrar e a ter cheiro bom. Eu observava com um temor sorridente, comecei a ri descontrolado, e minha gargalhada era seca e tenebrosa, tive medo de mim mesmo. Eu o olhava e esperava que ele falasse alguma coisa, mas ele mantia-se mudo e isso me deixava a cada momento mais irritado, meus olhos doíam, pareciam estar em chamas, queria entender o que acontecia, o porquê daquilo tudo, o porquê de eu estar ali. Voltei minha atenção mais uma vez para meu corpo que continuava a sangrar, e quando olhei de novo para a orgia, não estava mais lá, nem mesmo ele estava lá. Tudo tornou-se escuro novamente e o pavor mais uma vez persegue meu coração, tentei correr e não consegui, estava preso ao chão, teve novamente a sensação de que algo me perseguia e me assombrava, ouvi gargalhadas secas e tenebrosas e percebi que elas eram minhas, porem eu não tinha rido, parecia estarem dentro de minha cabeça. De repente a lua novamente sai dentre as nuvens e meus olhos conseguem detectar pequenos focos de luzes ao meu redor, parecia luz refletida em espelho, e era. Com a luz do luar pude ver que eu estava preso em uma redoma de espelhos que tinham apenas uma abertura por cima, fiquei sufocado por um instante, logo me acalmei e olhei fixamente nos espelhos e em vez de refletirem a minha imagem refletiam a imagem dos homens e mulheres que saíram da fenda, olhavam para mim com fome de poder, fui virando formando um circulo perfeito prestando atenção em cada imagem, cada figura, eles pareciam-se comigo, e cada um parecia-se com o próximo e assim sucessivamente fiquei meio assustado e logo me deparei com o maior de todos os espelhos e ele estava lá, imóvel fitando-me com seus olhos gélidos, olhei com surpresa e o confrontei com um olhar, senti vontade de fugir e parecia não ter como, senti o vento que vinha de cima da redoma e esfriava a minha pele, então tive um louco pensamento e comecei a tentar voar com asas que não tinha, batia os braços loucamente, meus pés se desligavam do solo vagarosamente e eu sentia uma ânsia que nunca na vida havia sentido, a altura foi aumentando  e eu batia os braços mais rápido, sentia o cheiro do vento entrar pelas minhas narinas sentia uma felicidade incontrolável, na verdade não queria controlá-la, voava mais auto a esperança traspassava meu coração como uma flecha, parecia que eu enfim deixaria para traz todos os meus demônios. Logo toda minha esperança torna se pó quando sinto uma força puxar-me para baixo, bato os braços mais rápido ainda mesmo assim continuo a descer me sinto desesperado como se tivesse morrendo afogado; eles voltam a me puxar, e quando enfim caio ao chão bato com violência a cabeça no espelho em que ele está reduzindo-o a minúsculos cacos, os outros se quebrando um a um. Minha vista vai ficando turva e logo não enxergo nada, apenas ouço o barulho dos espelhos se espatifando. O que me lembro depois é de ter acordado sendo apenas eu, sem espelhos, ou demônios, cortes ou sangue.

sábado, 28 de abril de 2012

Ser Alexandra




Tenho acompanhado Alexandra há muito tempo, sempre observando, sempre escondido. Ainda me lembro a primeira vez que a vi, estava sentando na calçada de minha casa; o dia estava frio, tinha acabado de chover e o sol ainda estava entre as nuvens; pequenos raios escapavam e pareciam ser atraídos pela sua pele morena, eles a iluminavam assim como um holofote de teatro, e ela lógico, era a estrela principal. Alexandra passou por mim com um pequeno sorriso que esticava os lábios carnudos, me senti como se tivesse encontrado a minha vida naquela tarde fria de domingo.  A cada dia vivido me sentia mais ligado a ela sempre a observando, acompanhando suas peripécias de menina moça, sempre a procura de experiências, a busca incessante do novo, do desconhecido. Não consigo contar às vezes que de longe, a vi debruçada sobre os joelhos e podia ouvir o seu choro baixinho, ali ela parecia ser tão frágil, tão humana, tão menina... A complexa moçoila logo se transformou em uma linda mulher. Ao oposto do choro interno, ela tinha também uma belíssima gargalhada, alta e espalhafatosa, tão dela parece que foi composta como uma música unicamente para ela. Alexandra sempre foi cercada de gente, alguns ela considerou importantes, por um tempo, outros talvez para a vida toda. Contorcia-me de vontade de tocá-la, de conversar com ela, aquelas pessoas não sabia o privilégio que tinham de conviver com ela. Cada lágrima de Alexandra também era minha lágrima, chorávamos juntos a distancia, pelas perdas que passaram por sua vida e creio que não foram poucas, entretanto sei que a ajudaram de alguma forma. A juventude parece ser material construtor de sua vida, bem sei que quando o tempo esvoaçar sobre seu corpo não tocará seu espírito, ela sempre será jovem de coração, sempre será aquela menina esguia que vi descer a rua. Uma coisa que me chama muito minha atenção em relação a ela é a sua sensualidade, o jeito que meche as mãos, o jeito que fala às vezes desajeitada, o pouquinho de cada um que ela absorve. Gosto do rosto dela. Gosto quando ela se veste toda invocada por que vai conhecer mais um que será seu amor por mais essa noite, costumo ficar esperando ela sair de casa e fotografo com meu olhar cada segundo enquanto o vento esvoaça seus cabelos tingidos na tentativa de obter um vermelho; gosto quando ela se pinta, pinta a boca bem marcada de batom escarlate; emana libertinagem de mulher. Lembrei-me de vê-la a beira mar vendo as ondas lamberem a praia e ela parecia se comunicar com as águas por telepatia, estava ela imóvel observando o sol descendo lentamente até tocar o mar e por um segundo acredito ter ouvido Alexandra sussurrar sozinha – Há algo de maior no sol e no mar... Deus se faz presente aqui - Alexandra usufruiu de varias paixões ou talvez as paixões tenham usufruído do seu espírito para se tornarem concretas. Essa ânsia de se sentir amada, desejada, feliz; deu a vida dela vários amores; amores casuais, amores de uma noite, amores de olhares e alguns deles amores para a vida toda. Estes sentimentos que em um dia pareciam ser tão maravilhosos, tão lindos, mágicos e no outro faziam descer dos olhos grandes de Alexandra lágrimas quentes que formavam caminho pelo seu rosto e chegavam à boca forçando-a sentir o sabor da desilusão. Apesar de tudo ela sempre tinha alguém, desde aquele homem interessantíssimo, inteligente que conheceu na balada e logo se entrelaçaram ferozmente nos lençóis de uma cama de motel, até aquele cara carinhoso e cheio de expectativa a quem ela jurou amor eterno, ela sempre jurava achando que essa seria a ultima vez. Sempre havia alguém por quem, no momento, valia à pena se arriscar. Recordei-me repentinamente de Alexandra brincando com suas bonecas, doce meninice. Logo aquele ato tão infantil daria espaço às descobertas da puberdade. Logo estaria ela com seus lábios colados a de um garoto, e mais tarde certa do que queria, aos celebres 16 anos, perderia em forma de sangue o que restava de sua inocência sexual. As amizades de Alexandra como todo o resto de sua vida foram cheias de idas e vindas, tivera muitos amigos uns a traíram por seus próprios prazeres, porém os outros, muitos, varreram qualquer vestígio dessa poeira podre para o esquecimento. O despertar do frágil coração de Alexandra para o amor foi mais que importante para definir a Alexandra que conheço hoje, me arrisco em dizer que esse talvez tenha sido o único, e sempre esperado por todos, amor verdadeiro. Eu a observava sempre alegre e sorridente embriagada no mais saboroso dos vinhos; parecia ter transcendido para outra dimensão. Eu apesar de saber que de onde vinha toda aquela alegria, que era como um rio que brotava daquele rapaz e banhava todo o coração de Alexandra, me sentia feliz por que ela estava feliz, esse foi o primeiro, não soube lidar com a fragilidade de cristal de Alexandra; desperdiçou o seu puro amor. Ela então prometeu a se mesma, para sempre estar longe dos dolorosos sentimentos humanos, mas felizmente ela é humana demais pra resistir a sua própria humanidade. E eu continuo aqui a observar a menina que hoje como mulher continua a descer a rua e passar por mim todos os dias sem saber que, aqui em mim, reside a sua única e verdadeira felicidade. Eu sei que Alexandra pensa que nunca encontrará o homem da sua vida, mas ele está aqui, esperando ansioso o dia de se apresentar a ela, e viverem o que a própria vida guardou pra nós o tempo todo. O tempo... Ele nos fará feliz eu prometo a ti Alexandra.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A Senhorinha





          Mais uma vez senti a necessidade da minha própria presença, me sentia sozinha, chorosa. Angustia sem explicação aparente. Decide andar no bosque que abraçava a antiga casa de meu pai; sai sem saber para onde ao certo iria. Enquanto andava ouvia, e sentia, as folhas secas das arvores se despedaçarem sobe meus pés, por um instante pisei de forma leve, elas estavam espalhadas por toda parte, imagino que inconscientemente queria preservá-las ou apenas respeitar a morte das mesmas. O vento estava frio e a floresta úmida, um pouco mais cedo havia chovido gotas pequenas e gélidas, eu as observava da janela do meu velho quarto. A chuva sempre me trazia sentimentos bons, tão meus; neste caso especificamente senti vontade de correr pela terra molhada e amar a todos sem amar ninguém, me contive a minha própria insignificância. Depois de caminhar por um bom tempo perdida em minha própria mente, percebi que havia me afastado muito da casa de meu pai, tive medo de não saber o caminho de volta, logo em seguida cheguei a uma casinha de madeira com rosas que decoravam a entrada, rosas estranhas, nunca as tinha visto com aquelas cores  e com espinhos tão grandes que pareciam ameaçar quem as quisesse tocar, aproximei-me apreensiva, a porta da cabana estava aberta, cheguei bem perto observava intrigada parte da casa era muito bem limpa e cuidada porem outra parte era muito empoeirada, parecia abandonada a anos, alguns objetos obedeciam o mesmo padrão. Entrei vagarosamente, o ar era perfumado pelas rosas, era tudo muito simples mais ao mesmo tempo tudo tão encantador, me senti bem naquele lugar inóspito. Haviam alguns porta-retratos em cima de uma lareira velha de pedra, me aproximei curiosa queria ver as pessoas das fotografias em tom sépia parecendo ser antigas, a principio pude perceber que eram duas mulheres, porem quando me aproximei para ter a nítida visão fui surpreendida por uma voz rouca e cansada.
- Quem é você?
Minha espinha gelou, me dei conta que tinha invadido a casa de alguém. Virei-me rapidamente e vi a silhueta de uma mulher sentada em uma poltrona velha de frente para a lareira. Respondi gaguejando a pergunta feita.
- Me chamo Izabel... Meu pai mora na casa grande, vim da cidade passar uns dias com ele, andei pelo bosque e quando me dei conta já estava aqui em sua casa. Desculpe-me a intromissão não deveria ter entrado em sua casa sem ser convidada...
Fui interrompida pela mesma voz trêmula da mulher.
-Não fique tão nervosa minha querida, tudo bem. Sente- se.
A mulher continuava sentada agora fumando um cigarro, podia ver a fumaça sair do canto escuro em que ela estava, sentia-me ansiosa para ver o seu rosto, mas não conseguia. Ficamos caladas por alguns minutos então quebrei o silencio:
- A senhora mora aqui no meio do nada, sozinha? O silencio ainda reinava na sala rústica, depois de uma longa tragada no cigarro ela responde.
-Sim moro.
Sentia uma vontade enorme de perguntar uma serie de coisas aquela mulher, porem meus lábios pareciam selados, fiquei inaudível. Ela me trazia um punhado de sentimentos, medo, encantamento, fascinação, mistério. Estranho porque não a conhecia. De repente ela me pergunta:
- Aceita um pouco de chá? Respondi positivamente com um aceno de cabeça.
Ela levantou-se devagar com certa dificuldade, quando a luz entrou em contato com o seu rosto assustei-me e não consegui disfarçar, era uma senhora com cabelos bem alvos. Uma parte do seu rosto era bem bonita cabelos bem alinhados, pele de textura aparentemente leve, lábios finos de grande delicadeza, a outra parte de sua face era muito enrugada, cabelos emaranhados um olho morto esbranquiçado em demasia, trajava um vestido longo colado no tronco que se harmonizava com o corpo esguio. Meu coração batia acelerado e ela vendo o espanto estampado nos meus olhos disse para que eu não me envergonhasse porque todos se assustavam com a figura dela. Ela saiu e logo em seguida retornou com um lindo jogo de chá, um igualzinho a que tínhamos lá em casa, meu pai dizia ter sido da minha avó. Logo depois de mostrar-se a mim ela mudou de aspecto e mesmo ainda com a figura de grande estranheza passou a me tratar de forma mais comunicativa e cordial. Uma coisa que me chamava muito atenção, o seu linguajar era muito sofisticado com algumas palavras que devo confessar não saber o significado de muitas delas. A curiosidade crescia de uma forma assombrosa em mim, não me contive e a perguntei o seu nome ela me respondeu baixinho: Ametista enquanto tomava um gole de chá de folha de laranjeira. Aquela palavra pareceu ter um impacto muito grande em mim. Conversamos por muito tempo e quando dei por mim a noite já havia roubado o espaço do dia, então D. Ametista me mostrou o caminho de volta a casa de meu pai e com toda a gentileza me convidou que voltasse a sua casa, concordei com um sorriso e logo fui me afastando da velha cabana. Ao chegar ao jardim de casa me parecia que o ambiente não era mais o mesmo, por que aquela mulher esquisita havia mexido tanto comigo? Quando me recolhi na minha antiga cama de lençóis brancos, a imagem da mulher vinha invadir meu pensamento resolvi então não voltar a sua casa, estava ficando transtornada com toda aquela situação. No dia seguinte enquanto tomava meu café da manha observei que o jogo de chá era igualzinho ao que eu havia visto na casa de D. Ametista, chamei a governanta da casa, a empregada mais antiga, perguntei-lhe sobre o jogo de chá e ela me respondeu, que ele havia sido da minha avó, e que era o objeto que ela mais amava que ela o havia recebido como presente de alguém só não sabia de quem. Após essa conversa, aguçada a minha curiosidade eu me dirigi até um quarto onde meu pai costumava guardar coisas antigas, encontrei uma caixa com os pertences de minha falecida avó, havia fotos dela bem jovem, fitas enfeitavam seus cabelos longos, aparecia sempre na companhia de outra garota que me parecia familiar. Fiquei intrigada peguei algumas das fotos e voltei ao jardim, coloquei as fotos sobre a mezinha do jardim e um vento forte as levou para perto da entrada do bosque, o caminho que tinha feito no dia em que encontrei a casa de Ametista, tinha prometido a mim mesma que não voltaria lá mais não me contive trilhei novamente o caminho pelo mato e mais rápido que da primeira vez cheguei ao velho casebre, a porta continuava aberta como da primeira vez ela me estava desta vez de pé em frente às fotografias depositadas em cima da lareira, cheguei devagar sem que ela soubesse que eu estava lá, ela parecia triste. Chamei sua atenção e ela se voltou a mim, uma lágrima estava depositada em sua maça do rosto, escorria pelo olho vivido de um castanho amêndoa. A questionei sobre a lágrima, não obtive resposta, o silencio misturado a ânsia doía em meus ouvidos.
-Essas pessoas nas fotografias parecem ter sido muito importantes para a senhora, não é mesmo?
-Sim, uma delas em especial...
-Quem?
-A moça que aparece comigo em muitas delas, veja.
Ela se aproximou de mim segurando um porta-retratos de prata e com o dedo apontou:
-Esta sou eu, e esta outra...
Eu a interrompi antes que terminasse a frase.
-Minha avó!
D. Ametista não parecia surpresa, então lhe perguntei:
-Você sabia que eu era neta dela?
-Sim, você se parece muito com ela, exceto pelo cabelo, o seu é louro e cacheado e o dela era preto e liso, mas são os mesmos olhos, os mesmos lábios, até mesmo o jeito de falar. Quando vi você entrar aqui logo imaginei que se tratava de alguém muito próximo dela.
Sentei-me surpresa por saber que aquela mulher conhecia minha vó, e mais por parecerem ser tão próximas. Com um tom seco eu perguntei a ela como elas haviam se conhecido, D. Ametista se ajeitou, sentou em sua velha poltrona e mais uma vez ascendeu um cigarro enquanto começava a falar: sua avó e eu nos conhecemos no jardim da casa que hoje é do seu pai, eu morava perto daqui numa casa também grande, meus pais eram ricos, papai dono de uma grande produção de açúcar, um dia em uma de minhas andanças acabei saindo no jardim da casa dela, lembro-me que ela estava de costas, sentada em uma mesa no jardim, sozinha, tinha uma fita vermelha no cabelo que ela adorava usar, estava sempre com ela, parecia pensar em alguma coisa, o olhar estava distante, me aproximei lentamente e disse “oi” ela se virou e com um lido sorriso me respondeu, eu senti uma estranha felicidade, trocamos nomes e logo esta eu confabulando de minha vida com ela. Passamos um bom tempo juntas e a tardinha voltei pra casa, minha mãe já estava preocupada, não consegui deixar de pensar nela. No dia seguinte voltei, e no outro e no outro. Passamos a ser melhores amigas combinávamos em tudo, desde os gostos até os desgostos, ela era uma garota cheia de sonhos, sonhos dela mesmo, não sonhos dados a ela invejava isso nela, os meus sonhos eram os sonhos dos meus pais, era ousada independente, naquela época as mulheres não era permitido nada que não fosse um bom casamento, cuidar da casa e dos filhos, eu mesma já havia “aceitado meu destino”. Passei a pensar muito nisso eu já tinha quase 18 anos e não tinha nem um pensamento meu. Ela toda envolvida com suas aulas de balé, era leve como o vento. A cada dia nos tornávamos mais próximas, mais unidas. Costumava dormir na casa dela pelo menos uma vez na semana, e sempre antes de dormir ela pedia que eu escovasse seu cabelo, eu adorava, num desses dias, depois de fazê-lo, ficamos em silencio as palavras não eram mais necessárias, algo diferente estava acontecendo, sua avó se levantou da cadeira de veludo vermelho da penteadeira e se aproximou de mim, me olhava fixamente, meu coração disparou; minhas mãos gélidas, senti a respiração quente chegando perto, e vi seus olhos se fecharam e os lábios abrirem-se devagar, eu tomada pela emoção me entreguei aquele momento proibido, não me sentia culpada, pelo contrario já algum tempo lá no fundo queria coragem para provocar este beijo, sentia os lábios vermelhos dela roubarem o calor dos meus. Passamos a noite inteira trocando beijos ardentes, beijos de mulher, delicadeza de um beija-flor, ela então deu mel aos meus ouvidos dizendo com força: Eu te amo Ametista minha pedra preciosa. Daquele dia em diante nos tornamos mais que amigas e passamos a cultivar um amor puro e verdadeiro. Até que poucos dias depois nos descobriram, minha mãe encontrou uma carta que eu havia escrito a ela, ela exigiu que eu a deixasse se não, perderia tudo que tinha direito, eu sem pensar muito disse que jamais me separaria dela, que ficaríamos juntas para sempre e que se ela se fosse, parte de mim morreria. Encontrei um jeito de nos encontrarmos nessa cabana e aqui selamos um pacto, fugiríamos no dia seguinte, não tínhamos como viver ou pra onde ir, só queríamos ficar juntas então quando voltei aqui no dia combinado ela não estava esperei por 2 dias sem comer nada sentada na porta. Depois soube que o pai dela havia a levado a força para outro país e que casaria com o homem que veio a ser seu avô. Da nossa historia além das lembranças só deu para ela levar o jogo de chá que eu dei a ela, depois comprei igual para mim, e ela algum tempo após o casamento engravidou e o parto ceifou sua vida, eu ainda a vi uma vez depois dela ter ido embora, mas não falei com ela. Então dede de que tudo aconteceu mudei-me para cá e deixei as coisas que tinha dela aqui espalhadas, essas que estão empoeiradas são as dela, ela não gostava que mexessem no que era dela. Sinto saudade. Coincidência ou não depois que ela morreu a parte esquerda do meu corpo começou a se deteriorar como você vê agora, essa era a parte que era ela ou talvez fosse eu, e a parte viva seria ela, sempre tão cheia de vida.
Quando D. Ametista terminou de falar lágrimas grossas rolavam dos seus dois olhos, ela ainda me disse que nunca tinha contado a ninguém sua historia, não porque tivesse vergonha, mas por ter se desligado do mundo. Mesmo assim ela me pareceu um pouco envergonhada após sua revelação afinal de contas a outra garota era minha vó. Eu já havia ouvido grandes historias sobre ela, mas essa sem duvida foi a mais impactante. Abracei Ametista e mais tarde me despedi. O amor de fato não é ditado pelo sexo.

sábado, 24 de março de 2012

Dente-de-Leão



   Acordei outra vez com aquela maldita dor de cabeça bebi muito ontem e fiz outras coisas que se você estive aqui tenho certeza não aprovaria. O velho relógio do quarto marca três horas da tarde eu ainda não levantei da cama não sei se por não conseguir ou por não querer, não ter para onde ir, também não quero tentar, só quero ficar aqui sentindo o pouco que sobrou do teu perfume nos lenções da cama; achei um frasco atrás daquela velha penteadeira, ponho algumas gotas no travesseiro todas as noites antes de pegar no sono. Eu adorava te observar enquanto escovava os teus longos cabelos louros, meus olhos brilhavam, sentia como se admirasse uma obra de arte e de certa forma era, uma obra divina. Sabia que depois que você foi embora eu coloquei em todas as paredes a tua fotografia, não tenho feito nada mais além te ver; a tua boca marcada de batom vermelho, os olhos, ah! os olhos negros e brilhantes que contrastam com a pele branca. Gosto de pôr aquele velho disco com a música que costumávamos dançar juntos imaginando estar em um baile dos anos 20, você em cima dos meus pés, rio todas as vezes que me lembro, parecíamos duas crianças que brincavam de viver. A primeira vez que a vi, eu estava sentado na grama observava o pôr-do-sol de um dia estranho, o céu parecia triste, bom! pelo menos eu estava não me recordo o motivo, talvez fosse à velha saudade do futuro, você olhou para mim enquanto o vento se entrelaçava nos teus cabelos como cobras em cópula, teu rosto parecia brilhar impulsionado pela luz do sol, você me presenteou com um belíssimo sorriso, dizem que quando se morre é visto um filme com toda a sua vida, isso aconteceu comigo naquele momento, só que eu nunca tinha vivido aquele tal filme, mas algo me dizia, gritava, que não era uma visão do passado era do futuro, um futuro próximo eu sabia dentro de mim. Você sentou do meu lado, o meu rosto queimava, devo ter ficado vermelho, então colheu um dente-de-leão, estava bem perto e com toda à delicadeza de moçoila disse que era a sua flor favorita mesmo sem ter certeza se era mesmo uma flor, disse ainda que ela estimulava o desapego, o recomeço, a novos encontros, eu fiquei ouvindo com tanta atenção como se você estivesse me dando à solução para todos os problemas da humanidade, guardei cada uma daquelas palavras, então você soprou e ele se dispersou e foi conduzido pelo vendo, ficamos observando até que não restasse mais nem um, começamos a conversar estava tão empolgada me contando os lugares onde já tinha ido e as pessoas que tinha conhecido. As gargalhadas faziam meu coração disparar, e eu me perguntava como era possível?  Tinha te conhecido há poucos minutos. Eu sonhei uma vida para nós, queria ficar velhinho do teu lado, e espalhar para o mundo inteiro que você era minha, que aqueles olhos cantavam para mim, mas como eu já dizia antes e só comprovei: os sonhadores não são felizes. Essa casa parece tão grande sem você, tão escura como uma tumba em que fui sepultado vivo, eu ainda vivo? Hoje está chovendo, enquanto eu vejo as gotas descerem pela vidraça da porta eu me pergunto, e rezo para quem quer que seja, para trazer-te de volta, para deixar-te aqui comigo, para que nos tornemos um só novamente, para que eu te envolva novamente como uma ostra que guarda sua pérola. Estou cansado dessa casa com paredes de cores alegres, você era meu sol, por que me deixou? Eu a amava tanto. Agora não tenho mais nada além de cinzeiros cheios e o sentimento de que falta uma parte de mim, uma parte vital; de repente o céu e as estrelas deram as costas e se foram sem dizer para onde iam. Procuro-te em todos os braços, todos os beijos, inútil! Eu só queria que você agora abrisse aquela porta e com um lindo sorriso me dissesse para não chorar mais, secasse as minhas lágrimas e me beijasse dizendo que nunca mais iria me deixar, aliás, você prometeu... Muitas coisas foram ditas. Eu só queria exorcizar essa dor que me força a ser fraco, me força a tremer, me força a gritar todas as vezes que acordo e com uma das mãos procuro teu corpo e não encontro, essa dor dilacera o coração, faz sangrar, reprime. Ontem enquanto descia a rua, eu observava as pessoas, pareciam tão contentes, comecei a odiá-las, por estarem felizes, aquela felicidade era minha e sua, lembra? Porque me esqueceu? Eu queria não ter um coração agora, melhor, eu queria não ter te dado meu coração, você me disse que o guardaria com todo o amor, mas será que até um sentimento tão nobre tem prazo de validade? Quando é que irei sentir teus cílios acariciarem meu rosto novamente? Chega de tantas perguntas, o vento não vai me responder nenhuma delas; eu aqui misturando texto com pensamentos, já tinha prometido para mim mesmo que não iria falar sozinho de novo, acho isso deprimente. Eu queria dormir agora e só acordar quando as feridas secassem, quando eu recompusesse meu espírito rasgado. O ser humano não vive só. Na teoria parece tudo bem mais fácil, eu cheguei a pensar que se um dia algo desse tipo acontecesse comigo eu logo me levantaria, sacodiria a poeira e continuaria de pé, só que eu não sabia que quando acontecesse tirariam as minhas pernas, o meu apoio, meu porto seguro. Olhar-me no espelho agora é contemplar um ser em decadência, magro com olheiras profundas, não consigo mais fazer nada, minha força foi levada embora, tudo foi embora quando você passou por aquela porta, se você sabia que tinha que ir porque ficou comigo, porque sorriu pra mim, porque entrou na minha vida? Eu não tinha muita coisa naquela época, mas pelo menos eu tinha a mim. Você me deu um mundo depois tomou de volta. É meio desconcertante precisar da ajuda de alguém que invés de ti fazer emergir da lama podre de sofrimento, faz o contrario e sem qualquer esforço. Talvez eu não tenha te conhecido, talvez você tenha usado o tempo inteiro aquela máscara que compramos perto do carnaval se lembra? Aquela que tinha expressão triste, mas ou mesmo tempo sarcástica. Eu poderia te odiar, mas me sinto fraco até mesmo pra isso, estou desfalecendo, secando como às arvores do outono, lentamente. Me sinto mascado, rejeitado, excluído, nem se quer pude ser engolido, porque se assim fosse, de alguma forma estaria dentro de ti mais do que na forma física, em uma forma transcendente, límpida, pura. Entreguei-me sem saber que estava entregando meu pescoço ao carrasco. No começo eu senti medo, o que é muito natural nós sempre temos medo, uns tem medo do escuro, outros de monstros nos armários, outros de bichos como ratos e baratas, eu tinha medo de me deixar levar, de deixar sentir, ser vulnerável, tirar minha armadura e fingir que tudo bem, mas às vezes pelo que se vê o medo é mais do que um sentimento, é um alerta. Eu gostava às vezes nas tardes de domingo quando nos deitávamos na grama do jardim, (é de novo à grama, talvez tenha algum significado pra nós) e ficávamos trocando risadas tentando decifrar as nuvens, aquela velha historia de tentar adivinhar qual coisa às nuvens se tornavam, e você sempre dizia que as pessoas eram como nuvens e os sentimentos eram os ventos que conduziam elas, eu dizia que o nosso vento havia trazido você pra mim. Oh senhor vento, me desculpa se eu te magoei, não queria que a levasse, queria ela por toda minha vida. Agora as manchas, a lacuna ficou aberta sem que haja uma solução aparente, sem que haja uma solução plausível, digna. E o amor que antes era completo e sólido se espatifou e eu nem sei em que, se tornou migalhas, como aquelas que as velhinhas costumam atirar aos pombos no parque, e se transformou em pequenos vermes que me corroem que desmancham, que me fazem chorar, homens não deviam chorar... Não consigo parar de beber, na pior das hipóteses quando eu imagino levemente em um dia perder o que tinha eu, nunca pensei que pudesse ser tão clichê, bebendo, fumando achei que reagiria de outra forma menos comum, decepção até comigo próprio. Será que minha voz deixou de ser excitante? Será que meus olhos deixaram de ser desnorteantes? Será que minha pele acabou gélida? Bom! Pelo menos agora ela está, cada pedaço meu sente sua falta. No começo da semana, à noite, quando não tinha nada de interessante para fazer ficávamos calados deitados no chão da sala, dávamos as mãos e simplesmente o silêncio, apenas as respirações, o cheiro de incenso no ar e o barulho dos bichos no jardim, só a presença do outro já era o suficiente, me tornei insuficiente? Sabia que meu paladar ainda sente teu sabor, o sabor salgado do suor na hora em que nos tornávamos um só, o meu olfato ainda sente teu cheiro, o cheiro de desejo, de malicia angélica, o meu tato ainda sente a textura da tua pele macia como uma delicada pluma, a minha visão implora pelo teu semblante, meu corpo e minha alma querem a tua presença. Se eu soubesse que seria assim eu preferia não ter descoberto o bom da vida. Vou fazer o que já devia ter feito fechar a porta de vez, eu ainda deixo aberta no caso de você voltar, vou afogar esse amor em minhas lágrimas e voltar a minha atenção para mim mesmo novamente, eu sou o único que nunca vai me decepcionar, sou o único que nunca vai me deixar sozinho, eu sou o único que merece os meus sentimentos divinos.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Na Janela





Meu coração sangra, sinto uma dor aguda assim como a de um espinho perfurando a pele, toda vez que percebo o dia entardecer. O sol em sua magnitude de astro rei desce atrás das casas, do fim da rua, todas com a mesma arquitetura, diferenciadas apenas pela cor, cada uma pintada com cores suaves cada cor divergente uma da outra. Uma casinha me chamava à atenção, a segunda da direita, uma onde há uma árvore de frutos amarelados no jardim. Quando as luzes do crepúsculo acariciam suas paredes singelas formam um misto de cores que contrastam entre o vermelho e o amarelo, por um instante ela parece brilhar. Costumo olhar as nuvens que adquirem as mesmas cores da casinha, tão pacificas, levitam com tanta suavidade, sendo levadas em todas as direções pelo vento, será que uma nuvem é feliz em ser nuvem? Meu rosto está refletido na janela de vidro que é dividida em duas partes. Não entendo o porquê, tento forçar um sorriso contraindo os músculos da face, os dentes até aparecem, mas os meus olhos continuam enuviados, com a constante expressão de tristeza, não respondem aos meus comandos são como um adolescente rebelde, expressam o real sentimento sem importarem-se com qualquer exigência. O antigo cuco afixado solitário na parede cinza do quarto faz o seu alerta, indicando o horário que eu esperava ansiosamente. Por alguns instantes retiro a minha atenção das ruas encobertas pelo manto de folhas e do sol que termina de esconder-se, volto a atentar-me ao quarto nu, onde não existe nada mais além das paredes frias e do já descrito cuco na parede. Estranho como sinto uma atração inexplicável por esse ambiente embebido de trevas, clareado apenas pelos últimos raios de sol que hoje parece demorar mais que de costume a ir-se. O chão de madeira velha range a cada passo que se dá, algumas teias de aranha bordam a parede com sua renda fina. Ouço as risadas e logo todo meu metabolismo se desregula, e lá estão elas as famosas borboletas no estômago, apressado volto à janela e mais uma vez minha figura está projetada na vidraça, vestimentas turvas como se estivesse de luto por se próprio ou pela humanidade, a pele pálida e os lábios avermelhados devido às mordidas de ansiedade, distribuídas ao longo do dia. Seus passos são lentos, ele desfila pela rua calmamente, como uma bailarina que se apresenta, sempre atenta aos movimentos, aos menores, almejando ser agraciada pela perfeição. Ele ri gargalhadas estridentes, vivas, distribuídas e espalhadas ao sabor do vento, o seu rosto se torna tão lindo que meus olhos chegam a serem indignos de captar tamanha beleza, as maçãs do seu rosto se contraem e os olhos de cílios grandes apertam-se, faces angelicais. Assim como costuma fazer todos os dias, pula aquelas faixas amarelas pintadas com todo capricho ao meio do asfalto da viela estreita. Eu o observo sempre no mesmo horário, sempre andando com seus gracejos, e eu nessa janela, todos os dias, ouvindo seus risos sem motivo aparente, ele cheira felicidade, sempre vendo sua linda pele rosada, seus cabelos escuros que se movem com a menor brisa do entardecer. Queria que soubesse que estou sempre aqui, continuo parado, um mero espectador, um mero observador da vida, talvez da minha própria vida, um mero sonhador, cambaleando a beira do delicado abismo da loucura. Ele continua a caminhar, fazendo movimentos faceiros, ágil e suave como uma pluma. Ele some ao longe, mais uma vez. O piso range novamente enquanto me afasto da janela, voltarei amanhã para sentir o doce sabor da ambrosia de tua presença, nem que a distancia e por alguns segundos vê-lo passar, abençoado pelo sol. O mais belo lírio que já se houve noticia.

terça-feira, 6 de março de 2012

Minha Doce Luiza



 Hoje sonhei contigo mais uma vez, na verdade, acho que era mais uma lembrança adormecida. Lembrei-me de quando éramos crianças e corríamos pelados pelos campos sem vergonha ou pudores; os capins esfregando suas ramas verdes em nossas pernas, aquilo dava uma sensação engraçada, e você sempre ria descontrolada. O vento parecia tentar levar nossos cabelos a caminhos que só ele conhece. Devo confessar que ainda sinto muita vontade de repetir essas nossas experiências malucas. Você deve ter se tornado uma linda mulher, quando criança, tua beleza já era admirável, creio que o tempo tenha moldado teu corpo trazendo protuberantes formas, linda e altiva... Engraçado como eu te imagino. Nunca entendi as crianças, sempre costumava dizer isso, lembras? Tu rias e me dizias que como eu não poderia saber se eu era uma. Nossas conversas eram adultas de mais pra nós. Sexo era assunto favorito, estávamos sempre mergulhados numa luxúria infantil; às vezes penso que nunca fomos crianças.
Lembra quando fugi a noite e fui até sua casa, subi na sacada do quarto e entrei pela janela, você estava linda adormecida com uma camisola de seda branca que deixava escapar partes de tua pele, também muito branca. No quarto estavam espalhadas bonecas de porcelana com cabelo de verdade, eram teus cabelos, sua mãe costumava costurar mechas a elas. Caminhei cuidadosamente até a beirada da cama e me ajoelhei, por um segundo admirei o teu rosto; o tempo parecia ter parado como em uma fotografia. Senti uma vontade inexplicável de beijar-te a boca tive a impressão que alguém falava aos meus ouvidos. Me aproximei devagar, meus lábios estavam avermelhados devido o frio do outono; a luz da lua entrava sorrateira pela janela, que deixei aberta por descuido ou propositalmente, não sei ao certo. Tua boca rosada, carnuda, aquecida pelo sono. Feixei os olhos lentamente como por instinto, senti tua respiração pesada e toquei levemente meus lábios aos teus, não conseguia deixar de pensar naquele velho conto de fadas. Os meus pêlos finos de menino ouriçaram-se, teus olhos se abriram e pareciam me hipnotizar com o verde esmeralda que emanava deles; tu esboçaste um leve sorriso com o canto da boca movimento tão teu. Deitei-me ao teu lado, em sua cama, e com movimentos leves tu te despias; beijos com mais volúpia eram trocados por nossos corpos em formação. Minha boca percorria teu ventre, e chegando ao fim de tudo, no teu sexo úmido, era a primeira vez que o via tão de perto, alguns pêlos aloirados denunciavam que a infância dava espaço a adolescência, enquanto teu corpo se retorcia como uma cobra apressada em capturar sua presa. Eu saboreava o gosto de mulher que trazia entre as pernas; lambia como se quisesse devorá-la, queria que fosse só minha, doce Luiza, assim que eu sempre a chamava não é mesmo?
Agora depois de tudo que passou, me arrependo de algumas coisas não feitas, não vividas. A maior delas é não ter falado que a amava desesperadamente, eu te amava, minha doce Luiza...
Oh, que indelicadeza a minha falando freneticamente do nosso passado, esqueci-me de dizer como estou no que me tornei. Bom, eu sempre fui o garoto estranho sem amigos - a não ser você minha querida - a melhor de todas as amizades. Introspectivo, não mudei em muita coisa, a não ser a aparência física, eu era franzino, hoje sou forte, forte no sentido de músculos - não no sentido de gordo - tia Maria sempre gostava de usar essa expressão para não ser indelicada. No que diz respeito ao meu interior continua o mesmo, o mesmo menino-homem; não tenho muita coisa, apenas uma casa antiga com moveis antigos; até eu já estou me tornando antigo em conviver com tanta velharia. Ás vezes eu penso em ter uma casa moderna, com paredes de cores vibrantes, deixar um pouco meus blues e ouvir musica nova, mas se o fizesse penso que não seria eu, entende? Também comecei a escrever, estava ansioso para falar isso para ti. Sinto-me bem quando escrevo, acho que se tornou minha válvula de escape. Costumo escrever coisas tristes e melancólicas, talvez minha alma seja assim sombria, remota. Tenho uma vida promiscua e não entendo isso como uma coisa ruim, “ela” não é tão feia quanto às pessoas pintam, dizem que a alma não tem sexo, mas e se tiver?
Nas festas de família que meu pai sempre insistia em organizar você sempre estava lá. Achei uma caixa com varias fotografias, você sempre aparece segurando minha mão, rosto pacifico, beleza incontestável. Um dia me disse que adorava ser fotografada, pois queria que sua beleza fosse eternizada; falou-me também que queria ser pintada em um quadro bem grande, e que fosse deixado, de herança para os netos e bisnetos, como se mostrasse a primeira de uma grande raça. Em falar nisso, conseguiste tua pintura?
Lembra-te do dia do lago? Saímos à tardinha, você e eu em direção ao lago de águas límpidas, que chegavam a se assemelhar com cristal, enquanto admirava as águas do lago, tu despias a ti rapidamente, mergulhando ágio no lago; parecia ser o seu elemento, estava tão à vontade... Eu por minha vez, fiz o mesmo, deixando a mostra meu corpo imaturo, agora com pêlos que ainda não tinha me acostumado em tê-los. Mergulhei também, sendo envolvido pela água morna e cintilante, nadei em tua direção você estava numa pedra, nua, os cabelos vermelhos contrastavam com a pele pálida, os cachos desfeitos pela água, estava tão linda, subi na pedra, nos olhávamos como se um procurasse no outro as diferenças entre masculino e feminino. Senti mais uma vez como se vozes soprassem meus ouvidos, então me aproximei de ti, beijei como se o mundo fosse acabar ali, e se assim sucedesse sei que estaria feliz. Tuas mãos pequenas passeavam por minha pele fazendo caminhos desconhecidos, intocados, minha boca subia e descia no teu pescoço, misturando minha saliva a água doce do lago prateado, meu corpo comprimia o teu sobre a pedra, enquanto éramos cobertos por um manto de gotículas de água que caiam da cachoeira, que desaguava ao nosso lado. O sol que também participava, nos iluminava com a luz do entardecer; o céu refletia no lago suas cores de vários tons azul, vermelho e laranja. Rolavamos na pedra lavada, tuas pernas me abraçaram como se além de mim quisessem abraçar o mundo, então senti o teu calor, calor de mulher, maciez libidinosa, enquanto eu me punha dentro de ti, teu sangue de pureza escorria sobre a rocha, e se fundia com a água morna. Os movimentos de minha anca com delicadeza ia nos transformando em seres que foram feitos para o sexo, teus seios recém-saídos do corpo simbolizavam a luta da  menina que sonhava em ser mulher, meus sentidos pareciam ter sido aumentados. Tudo ali era novo, tudo era encantado, sentia teu coração pulsar mais forte, bombeando a vida que corria em tuas veias.
Depois que tudo cessou fiquei abraçado a ti, abraçado a minha doce Luiza. Apesar da água, ainda conseguia sentir o cheio dos teus cabelos. Naquele instante tive a certeza que eu tinha nascido pra viver esse momento.
No dia seguinte fui à tardinha a tua casa, ansioso em vê-la queria te abraçar e te dizer o quanto a amava. Sentia como se naquela única vez que fiz amor, tivesse envelhecido 10 anos. O meu rosto queimava, um sorriso insistente, porem ao chegar tive a noticia de que não havia mais Luiza. Porque me deixou? Porque não disseste-me que a tua palidez que tanto me fascinava era uma palidez doentia? A morte a tinha lambido com seu manto escuro; e eu sem ter mais a quem amar, escrevi essa carta imaginando como você seria se não tivesse partido, daria tudo pra sentir a ti nem que por um segundo sequer. Porque te foste, minha doce Luiza? Eu ainda te amo, e sei que minha vida ainda está conectada a sua transcendendo o abismo da morte.