É o quarto dia seguido em que o céu desaba sobre o telhado
velho, enfeitado com pequenos países de musgo verde agressivo. Tenho arrastado
os chinelos de couro, aqueles que têm um cheiro agradável- insuportável de
velharia pela casa como quem procura alguma coisa, alguém quem sabe? Joguei a TV
pela janela do quarto de cima na ultima vez que tive uma recaída, talvez tenha
sido uma coisa boa, ela sempre ficava gritando e querendo a todo custo me
ensinar, preceitos e preconceitos que não cabem em mim, que enfeiuram minha
testa, que já demonstra as linhas de tempo, cheias de imposição, marcando
pensamentos que já se foram. Preciso falar das flores, tive um cuidado especial
com elas, sabia que você se alegraria com a vivacidade delas, não fui muito
feliz no meu posto de cuidador de pétalas, é com muito aperto no peito que digo
que estão todas mortas, acho que devo ter colocado um adubo estragado, não sei
se adubo se estraga, ou talvez tenham sido as chuvas, o frio, lembra elas eram
tão sensíveis, eu as cuidei, até acordei cedo! Sei que você se decepcionou, mas
o que se podia esperar de um velho que vive enfiado em um robe vermelho e com
perolas falsas no pescoço? Tâmara foi a primeira a desfalecer, chorei a noite
inteira era minha favorita, acho que gostava do fato de ela ter todas as folhas
voltadas pra si própria como se recusasse a entregar alguma coisa, talvez
entregar-se, eu o fiz... A casa tem permanecido escura e em silêncio que só é
quebrado pelos já descritos ruídos das sandálias. Não consigo atingir as notas,
os dedos parecem que se recusam e a garganta cansou, esmoreceu-se. Desculpe por
lhe vomitar todos os meus problemas sem prévias, é que preciso dividir, já não
consigo mais olhar para as janelas elas parecerem me apontar, me cobrar algo,
mas o que ei de fazer, o que tenho eu a oferecer? Tenho sentido de novo aquelas
tonturas, e não é por causa dos cigarros e do conhaque. Ah!! odeio você seu
maldito! Sempre com essa merda de olhar de deus, sempre acima de tudo, sempre
com essa roupa branca, limpa! Vá pro inferno!! Desculpe! Tenho sentido uma
saturação de emoções contidas, as paredes são boas ouvintes, mas preciso de
reações humanas. Sinto uma revolta absurda, revolta dos rostos que já vi, dos
sorrisos que ouvi, do sentimentalismo de bosta que lançaram sobre mim! Onde
estão vocês quando o que se resta são apenas olhos de maquiagem borrada? Promete
que ninguém vai ocupar meu lugar? Promete! Promete! Quer uma xícara de chá?
Lembrei da primeira vez que você deu o ar da graça em minha casa, eu estava
sentado terminando uma de minhas composições, você entrou devagar pela porta
entreaberta, me olhou atentamente, até que terminei, me assustei com tua
presença não costumava receber visitas, mesmo assim fiquei intrigado com a sua
presença magra e debochada que tomava todo o centro do meu tapete, como um
perfeccionista que arruma cuidadoso os lápis da mesa. Sentei-me na poltrona com
pequenas corujas bordadas assim como estou agora, e você quase como está ai,
tenho certeza, previsível, você sorriu se apresentou, me entregou um papel meio
amassado, um pouco sujo de café nas bordas, disse que tinha escrito uma musica
de sucesso para mim, com um expressão, julguei audaciosa, peguei com um tanto
de despeito, um certo nojo confesso, mas logo me empolguei com as estrofes
rabiscadas ali, pedi que me mostrasse a melodia e você o fez sem grande espaço
de tempo, e o resto você já sabe, subimos ao quarto decorado com detalhes
exóticos, estive dentro de você, mesmo tendo a aparência mais feminina, isso
até hoje ainda te atormenta não é mesmo? Não precisa mais me trazer a porra de
sua caridade, não preciso que me mostre os cacos, eu os conheço perfeitamente.
Eu só queria saber em que maldito espaço eu me escondi?! Eu costumava ser tão
admirável, eu poderia culpar você, culpar a Deus, afinal sou humano também, e
os humanos sempre culpam algo ou alguém pelos seus fracassos, prefiro me manter
aqui, o ar quente das paredes às vezes me acalma. Deixe, deixe que eu mesmo
recolha, era a ultima que faltava se despedaçar. Aquela tremedeira voltou, nos
últimos dias não tenho mais nem conseguido tomar nada sem que derrame tudo.
Sempre tive muito perto da linha do real e do imaginário, mas ultimamente acho
que não tenho mais tanta noção do concreto e do abstrato, tenho tido sonhos
estranhos, parei de ler antes de dormir, sonhava sempre com a história que lia
assim que pegava no sono, fiquei meio atordoado, você acha mesmo que deveria
procurar um medico? Acho melhor não, não suporto aquela arrogância por trás
daquela roupa irritantemente branca. Eu só quero alguém que me ouça, eu quero
ter a certeza de que existe alguém ai do lado de fora das janelas que saiba que
eu estou aqui, que eu vivi alguma coisa nesse tempo, que talvez precise ser
conhecida por alguém, só quero expor minhas ideias, tenho voz forte pra chamar
atenção do mundo. Queimei todos os discos, só ouvia gritos, labaredas
melódicas. Porque ainda tenho essas vontades? Já devia ter deixado de manchar
meus olhos com sague. São deprimentes as gotas na janela, não acha? Só não
queria sentir essa falta, falta de pensar maior, falta de ter dias que já
foram, falta de dias que não passaram de ideias, de memorias irreais, falta de
ter tirado sangue de alguém além de mim. Sempre me esforcei de certa forma,
para estar no meio do grupo dos “estranhos” e agora que estou aqui, me sinto o
estranho dos estranhos, não me encaixo, talvez não precise me encaixar, sou uma
pedra solo. Lembra que eu já sofri por querer ter um talento que só eu tinha,
só queria ser bom em alguma coisa que fizesse a diferença.
domingo, 9 de dezembro de 2012
sexta-feira, 22 de junho de 2012
Meu Amor Solidão
Olá
senhorita, estava esperando por você... Essa frase é meio esdruxula não acha? Me
lembra uma daquelas mulheres metidas a cigana, mas que não sabem nem o que isso
quer dizer, com aqueles brincos enormes nas orelhas e o seu velho e surrado
baralho de tarô desgastado de tanto enganar pobres desesperados, não que eu já
tenha visitado alguma delas, na verdade tenho até uma certa curiosidade, mas
nunca fui, é que vejo na TV que por um acaso fica sempre ligada, assim não me
sinto o tempo inteiro sobre a tua influencia. Há algum tempo não a vejo, e pelo
que me lembro você não estava tão sorridente da ultima vez. Está toda
enfeitada, fez isso tudo só para me ver? Que honra! Afinal de contas tu
continuas a ser uma visita mais que ilustre. Conheço esse meio sorriso, sei que
ficas feliz quando conjugo tão vivamente os verbos. Não agradeça isso não é
muito do seu feitio. Não repare na bagunça. Sei que você até gosta desse lugar
do jeito que está, cheio de restos de comida espalhados, cinzeiros cheios e com
aquele ar meio pesado. Mas me fale de você. Aceita um pouco de chá é aquele com
a mistura de ervas, não faz tanto tempo que você se foi... É verdade, que você
foi expulsa, mas isso já passou, já somos adultos o bastante pra lidar com isso
– essa é outra daquelas frases, até parece que porque deixamos de crescer
fisicamente nos tornamos soberanos, porem você entendeu o que eu quis dizer –
então continuaremos, certo? Esse perfume é francês? Creio que sim, tu continuas
a ser muito elegante, vi quando você entrou com todos esses rubis enormes nas
orelhas e no pescoço, são rubis não são? Ou é alguma daquelas pedras raríssimas
de que nunca ouvi falar? Porque estou rindo? É que quando nunca a tinha visto,
apenas havia ouvido falar de ti, ou então lido em um livro como você tratava as
pessoas, imaginava tuas faces de outra forma, perdoe pelo que vou dizer, mas te
imaginava feia e decrepita, me enganei absurdamente, se eu fosse uma mulher
queria ser assim como você, queria ter esse olhar meio felino que tu tens, e
essa voz, meio estalada, e claro todas essas joias que tilintam quando você anda,
como agora. Acho muito engraçado o jeito como você se senta, não sei se já percebeu,
mas sempre passa a mão na parte detrás das saias em seguida inclina levemente a
cabeça para traz e olha quem está sentado, de cima, num gesto meio soberano,
depois se senta calmamente, e por fim cruza as pernas ainda muito bonitas para
sua idade. Não, não vá, desculpe não queria te analisar novamente e nem tão
pouco te chamar de velha, por favor, fique, estava sentindo sua falta. Temos
muito que conversar, parece que nos distanciamos nesse tempo que passamos
separados, estou me sentindo um pouco desconfortável contigo, como se nos
conhecêssemos agora, estranhos que se apresentam, quero reavivar nossa amizade,
nossa cumplicidade, você voltou a ser tudo o que eu tenho. Não me olhe com esse
maldito olhar de piedade, você sabe que eu odeio! Tudo bem eu me acalmo. Senti
tanta falta do teu abraço, das nossas conversas até tarde da noite, das nossas
risadas do mundo lá fora, de você me dizendo que eu seria mais feliz aqui
contigo, você estava certa... Deixe que eu chore, eu só quero chorar agora
jogado no chão. Levante-se você está acima de mais para sentar-se ao chão além
do mais irá sujar seu lindo vestido. Por que não acreditei em você? Olha só o
que fiz quebrei meu ultimo aparelho de chá, odeio ser um maldito desastrado,
será que nunca vou conseguir manter nada? Até você que eu pensei que nunca
fosse embora eu consegui expulsar, continuo assim expelindo as pessoas da minha
vida, fazendo caminhos para longe de mim. Eu me acostumei a viver sem tua
presença, me habituei a viver seu seus conselhos, agora me sinto o maior dos
idiotas em te pedir que volte que me ajude a voltar a ter somente a ti. Eu sei,
eu sei de tudo que eu fiz! Acreditei nele... Era tão convincente, dizia tantas
coisas bonitas, eu queria ser feliz. Eu sei o que você me disse sobre ela, que
ela não é confiável, mas todo mundo fala tão bem dela, queria vê-la com meus
próprios olhos, como será a Dona Felicidade? Na certa uma daquelas velhas donas
de cabaré. Vamos esquecê-los por um instante, vamos para a sacada, é o meu
lugar favorito, e o mais limpo também. Espere só um instante enquanto preparo
um copo com conhaque, aceita? Você fica muito mais linda com a luminosidade da
lua, eu já havia dito isto a ti, não? Deixe que te olhe novamente, sempre me
perdi nos teus cabelos escuros que escorrem ligeiros sobre os ombros e na tua
boca de imensa delicadeza e nesse corpo de mulher madura que já possuiu tantos
como eu. Sei que você gosta desse silêncio que se instala quando nos faltam as
palavras, mas eu queria ouvir um pouco de musica se não se importa. É um
daqueles Blues antigos que te fazem tão bem, lembro que uma vez você me disse que
gostava por que te lembrava das vidas que são suas. O dia está calmo é nesses
dias que te vejo brilhar. Às vezes queria ver pelos teus olhos, ver todo mundo
que já foi teu, como viveram, queria saber de quantos rostos você já teve. Eu
olhando para o telefone? Claro que eu não estou olhando para ele. Não eu não estou
esperando nenhuma ligação! Sei, sei tenho que ouvir somente você, sei que você
é minha melhor companhia, nunca mais vou deixar-te, eu prometo, sei que você é
a mulher da minha vida. Posso dançar um pouco contigo? Essa é aquela musica que
ouvíamos juntos, sempre, você gostava porque ela grita a plenos pulmões que o
amor é um jogo de azar, e você dizia para que eu me afastasse dele, por que o
conhecia muito bem. Como fui tolo! Eu já te contei como foi que tudo aconteceu?
Pois bem, era um dia daqueles que acordava de mau humor por te encontrar sempre
por aqui, você lembra? Disse que não a queria vê-la aquele dia, me arrumei e
coloquei meu melhor sorriso no rosto e comecei a andar sem saber ao certo para
onde ia, e em uma daquelas esquinas em que as calçadas são cheias daquelas árvores
de flores muito coloridas que nessa época do ano desabrocham e enchem a rua de
perfume, eu andava e olhava para o céu que estava muito azul e sem nem uma
nuvem o que é raro onde vivemos, quando atravessei a rua lá estava ele, com
aquele maldito sorriso perfeito, tinha até covinhas nas bochechas que eu devo
confessar achava muito brega, mas nele estavam lindas, ele fez um gesto com as
mãos me convidando a sentar na mesa de um barzinho daqueles que as cadeiras são
de madeira e eles sempre põem uma flor em um pequeno jarro de vidro com uma
fina cintura, desta vez era uma margarida. Sabe uma vez li em um livro de Caio
Fernando Abreu que ele dizia assim: “E de repente olhaste uma flor sobre uma sepultura
e disseste que gostava tanto de amarelo e eu disse que amarelo era tão vida e
sorriste compreendendo e eu sorri conseguindo e vimos uma margarida e nem
sequer era primavera e disseste que margarida era amarelo e branco e eu disse
que branco era paz e disseste que amarelo era desespero e dissemos quase juntos
que margarida era então desespero cercado de paz por todos os lados”. Pensei em
citar essa parte que sabia decorado, quando ele gentilmente tirou a flor
delicada do vasinho e me entregou embalada em um outro sufocante sorriso, mas
me contive não queria parecer abusado, ou dá uma de intelectual, acho que me
deu aquela velha vontade de agradar, sabe? Conversamos por muito tempo e nem vi
o tempo passar, eu o olhava fazendo uma linha com os olhos sempre saindo do
olho esquerdo em direção ao direito depois a boca, depois os olhos novamente e
ficava gulosamente tentando ver tudo de uma vez só, acho que até me atrapalhei
algumas vezes. Depois de alguns cafés ele parou de falar e me olhava como se eu
estivesse coberto por um código que ele tinha o dever de decifrar, e para ser
sincero eu acho que ele o fez, então ele respirou fundo e isso me assustou um
pouco, as pessoas sempre respiram fundo antes de fazer comunicados importantes,
em seguida perguntou delicadamente se podia tocar na minha mão, fiquei um pouco
surpreso e quis perguntar o porque daquilo, mas logo desisti, porque tive medo
que ele voltasse atrás no pedido, e com um gesto de cabeça dei o aval, ele
aproximou sua mão grande da minha que pareceu tão insignificante em comparação
com a dele, me deu aquele frio na barriga de quando andávamos eu e você, juntos
na roda gigante daquele velho parque, lembra? Eu senti uma modificação interna
instantânea e não sabia o que era, mas sabia que era bom, trocamos telefones e
voltei para casa, como nunca havia me sentido na vida. Você ainda estava aqui a
minha espera, pensei em contar-te, mas achei que você não receberia bem, então
me contive. Fizemos as pazes ainda aquela noite e dormimos abraçados como
costumávamos fazer todas as noites mas
ele não saia da minha cabeça. Encontramo-nos outras vezes sempre no mesmo
barzinho. Um dia ele me disse que queria me mostrar um lugar, andamos um pouco
numa trilha até chegar a um lugar onde tinha uma pedra em forma de coração,
achei essa parte um tanto quando adocicada de mais, mas estava tudo bem, acho
que já tinha absorvido muito de você, assistimos ao despedir do sol abraçados e
eis que acontece o primeiro beijo, na medida certa, senti até o elevar-se dos
pelos. Quando voltei ainda acordada como sempre a minha espera, gritou comigo
me impôs autoridade, eu já estava farto então falei com toda convicção que a
queria fora da minha vida. Joguei-te para fora dela, expulsa como um cão sarnento, estava errado... Depois nos
desentendemos, ele queria que eu mudasse alguma coisa em mim, porque se não ele
não conseguiria viver comigo daquele jeito, eu recusei, fiquei furioso e
resolvi te trazer de volta, estou envergonhado. Eu não estou esperando ligação
alguma! Você está ficando obsessiva com isso! Bom! Não falaremos mais nele
combinado? Vamos falar de nós. Lembra quando eu era criança? Costumávamos brincar
juntos embaixo daquela goiabeira, fazíamos desenhos no chão, lembra? Você sempre
tomava banho de rio comigo quando ninguém mais me queria por perto, me dava
conselhos de como lidar com as pessoas, bons concelhos, eu te falava das minhas
esperanças e você dizia que ela não iria fazer nada por mim. Eu já te falei que
gosto de ouvir o barulho dos bichos á noite? Eu sei que você detesta, mas eu
acho inspirador. Eu sei que não posso entender, mas deixa só dessa vez, não eu
não vou te mandar embora outra vez, só que eu preciso falar com ele, por favor!
Não fica chateada comigo... Ouviu o que ele disse? Disse que quer me ver.
Desculpa, mas eu tenho que ir. Quando chegar, te conto como foi.
Ainda está
acordada? Quando sai daqui me senti tão inseguro, ainda tentei voltar por duas
vezes, mas não podia, precisava vê-lo, meu coração palpitava de tanta
ansiedade, e quando dobrei a esquina lá estava ele de novo vestido com um belo
sorriso e mais uma margarida na mão, desta vez eu recitei aquele trecho do
livro, lembra? Que fala sobre as margaridas? Senti-me feliz, talvez ela não
seja tão feia assim, eu sei o que você pensa dela, mas eu permiti. Queria que você
me entendesse! Queria dividir minha vida entre vocês e me livrar finalmente
desses velhos penduricalhos que adquiri de forma meio invasiva ao longo da
vida. Você que também sou eu e ele que é
o meu Amor. Sei que quando alguém me quebrar ou fizer com que me perca, só você
minha querida solidão vai fazer com que me reconstrua e me erga novamente.
terça-feira, 5 de junho de 2012
O Menino da Calçada
Ele não sentiu mais nada aquela manhã, a não
ser o chão frio do quarto vazio e o cheiro comum dos cigarros esquecidos pelos
cantos da casa. No rádio relógio tocava uma velha canção que costumava ouvir no
colo da avó, ela adorava essa música um blues bem deprimente com uma gaita na
introdução; por um momento imaginou sentir até a fragrância do perfume dela que
era levada pelo vento e chegavam às narinas misturado ao cheiro das rosas do
jardim e do cachimbo que ela por insistência não tirava da boca, ele a contemplava
como uma rainha no seu trono de ouro, intrigava aquela figura de cabelos
brancos, sentada na cadeira de balanço que rangia ameaçando desabar, mas nunca
o fez. "Eu devo ter emagrecido me sinto mais frágil, mais vulnerável"
o pensamento surge em sua cabeça subitamente após se deparar com o espelho sujo
no canto do quarto, "e as calças não as encontro, odeio sair despido pela
casa mesmo sabendo que não existem olhos aqui há não serem os meus", olhos
esses que continuavam avermelhados, devido o baseando que perigosamente
inventou de fumar como forma de resgatar um velho desejo de adolescente. Os
domingos são todos assim, embrulhados com grossas camadas de tédio e apatia. É
constrangedor que a única distração de um homem de trinta e poucos anos seja, o
observar dos raios de sol que entram sorrateiros pela janela entreaberta do
quarto. Ele em um gesto um tanto quanto infantil balança o tapete para que as
partículas de poeira se agitem, e sendo iluminadas pelo sol se tornem
brilhantes e então vem à ilusão de não serem mais apenas grãos de poeira, serem
estrelas reluzentes, mas se bem que um dia deva ter ouvindo alguém falar que as
estrelas são formadas também por poeira, poeira cósmica o que ele a principio
achou um dos maiores absurdos. Aquele Domingo parecia não mais acabar, era nos
fins de semana que mais sentia falta de alguém para conversar, contar histórias
idiotas, e pensamentos absurdos, e manias estranhas, mas que de um jeito ou de
outro o transformavam em alguém único, estranhamente único. Desde que levantou
da cama - muito cedo por sinal para um dia de domingo - havia pronunciado
apenas algumas palavras estava em um daqueles dias que tinha enjoado o timbre
da sua voz áspera e estridente, queria dar descanso aos ouvidos, e tentava
mudar a voz até mesmo quando pensava algo e ouvia sua voz irritante e
presunçosa em sua própria cabeça. Sentiu vontade de beber, e rapidamente se
levantou do chão ainda frio e correu até um baú de madeira onde lembrava ter
escondido uma garrafa de vodka, se perguntava duas coisas enquanto procurava a
chave do cadeado que abria o baú: uma era o porquê dos olhos cortados de
revistas e colados sem capricho em todo o baú até na parte de baixo, outra é
que não fazia sentido que ele escondesse a bebida afinal ele morava sozinho e
ninguém nunca ia visita-lo, ele sentou no chão em frente o baú e com a chave na
mão procurou um pensamento que abrisse essas questões levantadas sem explicação
aparente, se esforçou por alguns segundos mudando o máximo que podia a voz que
era dele, mas que ele não queria que fosse, a voz da sua cabeça. Roeu um pouco
as unhas e logo fez expressão de alivio, havia ele colado os olhos no baú, para
que alguém vigiasse assim como as borboletas com a arte do mimetismo? Talvez
houvesse escondido a bebida dele próprio? Seria uma remota vontade de parar de
beber? A chave do baú tinha desenhos de flores em relevo, e ele logo abriu o
baú com certa "fome", encontrou algumas fotos antigas, uma aquela
velhinha da cadeira de balanço, outras com roupas de bicho, fotos constrangedoras,
ridículas, alguns textos velhos em folhas já amareladas e roídas por traças,
uma em especial, um plano que ele redigiu que se chamava: como destruir o
mundo, ele ri um riso meio solitário e cheio de nostalgia, devolve todos os
pertences ao baú e só encontra uma garrafa vazia, decide então sair para
comprar uma nova. As nuvens encobriam rapidamente o sol e ele pega o
guarda-chuva que odiava carregar, caminha vestido em um sobretudo caqui como
aqueles dos filmes de agentes secretos, tenta não ser visto pelas poucas pessoas que
caminham na calçada. Ele anda devagar e esconde o rosto com enormes olheiras
com guarda-chuva que ainda não foi aberto, anda desengonçado pondo a ponta dos
pés nos paralelepípedos que formam a rua, um dia ouviu falar que pisar no
encontro de dois calçamentos trazia má sorte, então ele toma todo o cuidado em
cada passo que dá. A música novamente volta a sua mente, mas agora sem ser
tocada em lugar algum só na sua cabeça como se a música pertencesse apenas a
ele, como se ela fosse dele, como se ela fosse ele. Mais a frente, observando
os carros que passam cortando a chuva que ainda é fina, mas que ameaça fortalecer-se
e logo se fortalece. Perde-se em pensamentos tolos como: o que faria se
encontrasse um diamante agora, ou o que diria se esbarrasse com alguém que há
bastante tempo não via, a sua linha de pensamento e cortada quando ele ainda um
pouco longe vê uma pessoa sentada no canto da calçada suja e molhada, uma
pessoa que aparenta ser uma criança, com o rosto enterrado nos joelhos, ele
caminha rapidamente sem perceber que está pisando nas divisórias da calçada,
chega bem perto e ouve o soluçar dramático, ele já ouviu aquele soluçar antes,
estende a mão para tocar seu ombro, mas logo a recolhe, antes que a sua pele
toque a pele do outro, talvez tenha sentido que não deve interferir, mesmo
assim retoma o ato e toca o ombro da criança. O menino continua chorando agora
mais freneticamente, ele se ajoelha e pergunta o nome, a criança continua
apenas a dispersar sons de choro, ele então com toda a delicadeza de quem sabe
o que é sofrer levanta a cabeça do menino devagar, o poste acima refrete a sua
luz indiscreta sobre eles, as gotas da chuva parecem estar em câmera lenta
quando atingidas pelos raios da iluminação, e caem também tristes sobre os dois
corações que aparentemente padecem do mesmo mal, ele não consegue desfaçar a
surpresa quando fixa o olhos no rosto de pele infantil, olhos marcados de
maquiagem borrada pela chuva, batom espalhado pelo rosto inteiro, e as lágrimas
que tornam se gotas únicas saídas do rosto e misturadas à chuva que insiste em
se tornar mais forte, ele por um instante procura palavras que se embaralham na
garganta querendo sair todas de uma vez, e não se ouve mais nada além dos
soluços finais do choro cessante do garoto e as gotas de chuva que tocam uma
sinfonia natural ao tocarem o asfalto quente. Ele pergunta preocupado e curioso
o que um garoto tão novo faz na rua sozinho, e ainda por cima maquiado e
desolado? O pequeno abre a boca devagar e com uma voz tremula assim como as
mãos, explica que fugiu de casa porque não gosta de ser quem ele é. O homem
sente no peito o coração se desintegrar e se sente a frente de um espelho e
logo imagina uma vida ao qual não teve coragem de ter. Por instinto pega o menino
no colo e leva para casa, sem se importar novamente com os paralelepípedos da
calçada. Cuida do garoto como se cuidasse dele mesmo, e observa os movimentos
femininos da criança, tanta delicadeza em segurar a xicara de chocolate quente,
o jeito que cruza as pernas no sofá. Os dois não pronunciam muitas palavras.
Depois de algum tempo de um na presença do outro sem que nem um nem o outro
trocassem grandes frases, o homem se levanta e vai até a janela e vê que a
chuva já tinha cessado e então conduz o garoto até sua casa, sem que antes
dissesse o que sua alma gritava que ele dissesse, viva! Viva enquanto há tempo.
O homem vê o menino se afastar lentamente pelo caminho de pedras de um jardim
florido, de uma casa modesta pintada de verde bem claro, e deseja por tudo que
ele tem, deseja ser aquele menino e talvez seja, talvez os dois sejam um,
passado e futuro em conjunto, um querendo ter poder supremo na vida do outro.
Ele só queria uma nova chance de fazer o que sempre quis.
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Espelhos Internos
Imaginar...
Foi sempre o que eu fiz de melhor - se é que fiz alguma coisa em minha vida -
sempre criava na mente outras vidas, via cada detalhe; como eu seria se fosse
outra pessoa, em outra época, via a mim como um mendigo morando em um beco
úmido, logo em seguida me idealizava como um faraó vivendo em um grande palácio no
antigo Egito. Talvez até pareça um pouco monótono, solitário, frio e desesperado
e de certa forma é. Apesar de querer me mostrar para o mundo à solidão era a
minha maior companhia, sempre me deixava à vontade, ria e conversava sozinho. Sentia
como se eu pudesse fazer tudo; sem conseqüências, tinha o que eu conhecia como
“síndrome de Deus” e para a surpresa de todos, eu adorava. Uma coisa que me fazia
muito bem era desprezar as pessoas, sentia o poder pulsar em minhas veias, para
mim os outros eram apenas vaginas e bundas ambulantes, eu vivia em um mundo
paralelo onde eu me sustentava; as ruas e cidades do meu mundo eram repletas de
pessoas como eu, o surfista na praia era eu, o balconista da loja era eu, as
pessoas que faziam sexo ali, na rua, eram eu também, o rei que estava sendo no
trono, o deus a quem todos esses “eu” rezavam a noite, todos eram eu. Fantasiei
muito e acho que um dos meus maiores devaneios sem dúvida era o desejo que
sentia de fazer sexo comigo mesmo, assim como se eu pudesse de repente me
transformar em dois e sentir minha pele a tocar ela mesma, meus lábios sentindo
seu próprio sabor; meu próprio calor. Admito que isso de fato é muito estranho,
porém não me envergonho. Creio que seja uma coisa minha. Como se fosse uma
digital?
Sabe uma coisa eu sempre quis muito? Queria
entrar na cabeça das pessoas saber tudo aquilo que elas escondem de todo mundo;
e às vezes até delas mesmas, suas luxurias e medos. Em falar em medo tenho pra
mim que esse é o sentimento mais humano; e tendo a não gostar de ser humano pelo
fato do tal medo existir. Fragiliza, concordas? Às vezes te olho assim
profundamente e sei que te assusto, logo por que minha figura não é das mais
agradáveis. Acredita que virei todos os espelhos de minha casa em direção à
parede porque não quero ver meu rosto, o meu corpo? Por quê? Ainda pergunta?
Veja só este homem, não sou mais eu, bom talvez eu nunca tenha sido quem sonhei
ser. Pode parecer audácia minha, mas fui o jovem mais belo que conheci.Você
sabe, não sabe? Então; tinha olhos lindos cheios de magia e talvez tenha me
apaixonado por eles, passava horas os olhando e parecia que a minha imagem
refletida no espelho tomava vida própria e me manipulava. Sei, sei estou
voltando com essa psicose, mas é que não consigo evitar, não consigo parar de
pensar no que eu fui. Maldita nostalgia. Quero mais um copo de uísque! Sim;
como eu estava te falando antes de entrar de novo nessa viagem. Tinha olhos
lindos que cintilavam a luz do sol, um cabelo de toque aveludado, minha boca
tinha traços delicados como um pêssego maduro, minha pele era rosada, tinha
cheiro agradável. Alegro-me em saber que todos e todas me desejavam desesperadamente.
Linda juventude! Minha voz tinha um tom solene. Porém o tempo veio até mim como
vai a todo mundo, foi cruel tirou de mim o único amor que tive a vida toda,
entende? Creio que não. Frustrei-me de uma forma insana, pensava que eu tinha
algum tipo de privilégio, que podia burlar o tempo, fantasiei que se negasse
para todo mundo -inclusive para mim - nunca iria envelhecer. Tornar-se-ia
verdade.
Não
sonho mais, findei minha imaginação, não a uso, ela não me traz coisas boas,
agora só consigo pensar na morte. Depressivo não achas? Não se podia esperar
muita coisa de um velho ferido pela perda do próprio narcisismo. O lago voltou-se
contra mim... Olha só essa face cheia de marcas, linhas malditas! Minha voz;
sei que está seca não é mais melodiosa, é triste, decrépita. Eu não deveria
sofrer tanto porque sei que meu coração morreu quando percebi que não era mais
atraente. As pessoas começaram a me tratar com desprezo, tinham nojo de mim. Os
meus subordinados riam de mim, virei alvo da ponta dos dedos. Talvez eu tenha
um grande defeito, meu corpo sofre a ação dos dias e noites porem meu espirito
é jovem, sou um jovem aprisionado pelo tempo em um corpo que se decompõe em
vida. Os meus pés e costas doem fiz muito esforço para estar aqui, mas eu
precisava vir. O sol está lindo nessa tarde não acha? Adoro essa brisa constante
que só posso sentir aqui em cima, as pessoas parecem tão pequenas daqui, e na
verdade são, almas anãs em corpos de gigante. São um monte de cabecinhas
andando em cima de pontinhos coloridos, umas vão outras vem, sempre procurando
alguma coisa que nunca vão achar. Sempre admirei os pássaros e quando criança
pedia a Deus todos os dias para que me desse um belo par de asas negras, queria
desfilar a minha beleza pelo céu e brilhar mais que o próprio sol. Olhando daqui,
com o vento nos meus ralos cabelos brancos, me deu aquela vontade de pular,
talvez eu ainda escute o barulho dos ossos se quebrando no asfalto ainda
quente, gosto do barulho das coisas. Mas agora nada disso importa, estou
condenado a perecer aqui sozinho, naquela
casa escura tendo que me deparar com essa cara, fétida, suja cheia de
deformidades e delirar constantemente contando a ti repetidamente essa mesma
historia, e me martirizando ainda mais vendo a tuas faces perfeitas, de certa
forma me alegro por saber que tu sou eu, ou melhor, que já fui você.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Confronto
E de repente
quando me vi estava no meio do campo verde e corria desesperado, sentia o medo
impor seu sabor ao meu coração que batia descontroladamente suplicando pela
ausência daquele sentimento. Minhas pernas davam passadas largas e tremiam
freneticamente, minhas vestimentas escuras se confundiam com o negro da noite,
que parecia rir do meu pavor. E quanto mais corria mais se aproximava de mim e
meus pelos se ouriçavam de pavor enquanto gritos abafados saiam estridentes de
minha garganta, que doía. Continuava correndo pelos campos que não eram mais
verdes, agora estavam completamente em meio às trevas, minhas pupilas se
esforçavam para encontrar o mínimo de luz possível, mas parecia inútil. A terra
começou a tremer e eu parei e observei, uma luz avermelhada começava sair das
fendas criadas no solo, só então eu pude ver que minhas roupas estavam rasgadas
e minha pele embebida em sangue, ele era atraente e tinha cheiro bom, um
vermelho vívido. Desviei minha atenção de volta as fendas que formavam desenhos
no chão, e por elas saíram dedos e depois mãos e pés, muitos pés e mãos, em
seguidas braços e olhos, bocas e cabelos, asas de morcego. Pareciam pessoas só
que de uma beleza sobrenatural, altos e de olhos grandes, tinham todas as
variantes de cores humanas, uns riam com a boca fechada, outros apenas olhavam
com ternura, se aproximaram de mim sem tocar o chão usando suas enormes asas de
morcego, o meu pavor aumentava gradativamente enquanto eles se aproximavam de
mim, até que o maior deles voou rápido e se pôs a minha frente, o vento do
movimento de suas asas me derrubou ao chão, homens e mulheres me olhavam. Ele
se aproximou e me estendeu a mão e eu em um impulso aceitei o convite velado,
levantei-me com sua ajuda, e ele apontou com o dedo indicador da mão esquerda
que tinha um anel enorme com uma pedra azul, ele apontava para onde
anteriormente estariam as fendas, elas agora não mais existiam o campo votou a
ser verde agora iluminado pela lua cheia, os homens e mulheres, que juntamente
com ele saíram da fenda, se entrelaçavam fundidos pelo sexo, rolavam e gemiam
na grama e pareciam serem células de um só corpo gigantesco que se espalhava
pelo campo inteiro, formava uma figura conhecida, porem não consegui
identificar qual era. Ele me olhava enquanto continuava a apontar, voltei minha
atenção as minhas roupas e aos cortes de minha pele e eles continuavam a
sangrar e a ter cheiro bom. Eu observava com um temor sorridente, comecei a ri
descontrolado, e minha gargalhada era seca e tenebrosa, tive medo de mim mesmo.
Eu o olhava e esperava que ele falasse alguma coisa, mas ele mantia-se mudo e
isso me deixava a cada momento mais irritado, meus olhos doíam, pareciam estar
em chamas, queria entender o que acontecia, o porquê daquilo tudo, o porquê de
eu estar ali. Voltei minha atenção mais uma vez para meu corpo que continuava a
sangrar, e quando olhei de novo para a orgia, não estava mais lá, nem mesmo ele
estava lá. Tudo tornou-se escuro novamente e o pavor mais uma vez persegue meu
coração, tentei correr e não consegui, estava preso ao chão, teve novamente a
sensação de que algo me perseguia e me assombrava, ouvi gargalhadas secas e
tenebrosas e percebi que elas eram minhas, porem eu não tinha rido, parecia
estarem dentro de minha cabeça. De repente a lua novamente sai dentre as nuvens
e meus olhos conseguem detectar pequenos focos de luzes ao meu redor, parecia
luz refletida em espelho, e era. Com a luz do luar pude ver que eu estava preso
em uma redoma de espelhos que tinham apenas uma abertura por cima, fiquei
sufocado por um instante, logo me acalmei e olhei fixamente nos espelhos e em
vez de refletirem a minha imagem refletiam a imagem dos homens e mulheres que
saíram da fenda, olhavam para mim com fome de poder, fui virando formando um
circulo perfeito prestando atenção em cada imagem, cada figura, eles
pareciam-se comigo, e cada um parecia-se com o próximo e assim sucessivamente fiquei
meio assustado e logo me deparei com o maior de todos os espelhos e ele estava
lá, imóvel fitando-me com seus olhos gélidos, olhei com surpresa e o confrontei
com um olhar, senti vontade de fugir e parecia não ter como, senti o vento que
vinha de cima da redoma e esfriava a minha pele, então tive um louco pensamento
e comecei a tentar voar com asas que não tinha, batia os braços loucamente,
meus pés se desligavam do solo vagarosamente e eu sentia uma ânsia que nunca na
vida havia sentido, a altura foi aumentando
e eu batia os braços mais rápido, sentia o cheiro do vento entrar pelas
minhas narinas sentia uma felicidade incontrolável, na verdade não queria
controlá-la, voava mais auto a esperança traspassava meu coração como uma
flecha, parecia que eu enfim deixaria para traz todos os meus demônios. Logo
toda minha esperança torna se pó quando sinto uma força puxar-me para baixo,
bato os braços mais rápido ainda mesmo assim continuo a descer me sinto
desesperado como se tivesse morrendo afogado; eles voltam a me puxar, e quando
enfim caio ao chão bato com violência a cabeça no espelho em que ele está
reduzindo-o a minúsculos cacos, os outros se quebrando um a um. Minha vista vai
ficando turva e logo não enxergo nada, apenas ouço o barulho dos espelhos se
espatifando. O que me lembro depois é de ter acordado sendo apenas eu, sem
espelhos, ou demônios, cortes ou sangue.
sábado, 28 de abril de 2012
Ser Alexandra
Tenho acompanhado Alexandra há muito tempo, sempre
observando, sempre escondido. Ainda me lembro a primeira vez que a vi, estava
sentando na calçada de minha casa; o dia estava frio, tinha acabado de chover e
o sol ainda estava entre as nuvens; pequenos raios escapavam e pareciam ser
atraídos pela sua pele morena, eles a iluminavam assim como um holofote de
teatro, e ela lógico, era a estrela principal. Alexandra passou por mim com um
pequeno sorriso que esticava os lábios carnudos, me senti como se tivesse
encontrado a minha vida naquela tarde fria de domingo. A cada dia vivido me sentia mais ligado a ela
sempre a observando, acompanhando suas peripécias de menina moça, sempre a
procura de experiências, a busca incessante do novo, do desconhecido. Não consigo
contar às vezes que de longe, a vi debruçada sobre os joelhos e podia ouvir o seu
choro baixinho, ali ela parecia ser tão frágil, tão humana, tão menina... A
complexa moçoila logo se transformou em uma linda mulher. Ao oposto do choro
interno, ela tinha também uma belíssima gargalhada, alta e espalhafatosa, tão
dela parece que foi composta como uma música unicamente para ela. Alexandra
sempre foi cercada de gente, alguns ela considerou importantes, por um tempo,
outros talvez para a vida toda. Contorcia-me de vontade de tocá-la, de
conversar com ela, aquelas pessoas não sabia o privilégio que tinham de
conviver com ela. Cada lágrima de Alexandra também era minha lágrima,
chorávamos juntos a distancia, pelas perdas que passaram por sua vida e creio
que não foram poucas, entretanto sei que a ajudaram de alguma forma. A
juventude parece ser material construtor de sua vida, bem sei que quando o
tempo esvoaçar sobre seu corpo não tocará seu espírito, ela sempre será jovem
de coração, sempre será aquela menina esguia que vi descer a rua. Uma coisa que
me chama muito minha atenção em relação a ela é a sua sensualidade, o jeito que
meche as mãos, o jeito que fala às vezes desajeitada, o pouquinho de cada um
que ela absorve. Gosto do rosto dela. Gosto quando ela se veste toda invocada
por que vai conhecer mais um que será seu amor por mais essa noite, costumo
ficar esperando ela sair de casa e fotografo com meu olhar cada segundo
enquanto o vento esvoaça seus cabelos tingidos na tentativa de obter um
vermelho; gosto quando ela se pinta, pinta a boca bem marcada de batom
escarlate; emana libertinagem de mulher. Lembrei-me de vê-la a beira mar vendo
as ondas lamberem a praia e ela parecia se comunicar com as águas por telepatia,
estava ela imóvel observando o sol descendo lentamente até tocar o mar e por um
segundo acredito ter ouvido Alexandra sussurrar sozinha – Há algo de maior no
sol e no mar... Deus se faz presente aqui - Alexandra usufruiu de varias
paixões ou talvez as paixões tenham usufruído do seu espírito para se tornarem
concretas. Essa ânsia de se sentir amada, desejada, feliz; deu a vida dela vários
amores; amores casuais, amores de uma noite, amores de olhares e alguns deles
amores para a vida toda. Estes sentimentos que em um dia pareciam ser tão
maravilhosos, tão lindos, mágicos e no outro faziam descer dos olhos grandes de
Alexandra lágrimas quentes que formavam caminho pelo seu rosto e chegavam à
boca forçando-a sentir o sabor da desilusão. Apesar de tudo ela sempre tinha
alguém, desde aquele homem interessantíssimo, inteligente que conheceu na
balada e logo se entrelaçaram ferozmente nos lençóis de uma cama de motel, até
aquele cara carinhoso e cheio de expectativa a quem ela jurou amor eterno, ela
sempre jurava achando que essa seria a ultima vez. Sempre havia alguém por
quem, no momento, valia à pena se arriscar. Recordei-me repentinamente de
Alexandra brincando com suas bonecas, doce meninice. Logo aquele ato tão
infantil daria espaço às descobertas da puberdade. Logo estaria ela com seus
lábios colados a de um garoto, e mais tarde certa do que queria, aos celebres
16 anos, perderia em forma de sangue o que restava de sua inocência sexual. As
amizades de Alexandra como todo o resto de sua vida foram cheias de idas e
vindas, tivera muitos amigos uns a traíram por seus próprios prazeres, porém os
outros, muitos, varreram qualquer vestígio dessa poeira podre para o
esquecimento. O despertar do frágil coração de Alexandra para o amor foi mais
que importante para definir a Alexandra que conheço hoje, me arrisco em dizer
que esse talvez tenha sido o único, e sempre esperado por todos, amor
verdadeiro. Eu a observava sempre alegre e sorridente embriagada no mais
saboroso dos vinhos; parecia ter transcendido para outra dimensão. Eu apesar de
saber que de onde vinha toda aquela alegria, que era como um rio que brotava
daquele rapaz e banhava todo o coração de Alexandra, me sentia feliz por que
ela estava feliz, esse foi o primeiro, não soube lidar com a fragilidade de
cristal de Alexandra; desperdiçou o seu puro amor. Ela então prometeu a se
mesma, para sempre estar longe dos dolorosos sentimentos humanos, mas
felizmente ela é humana demais pra resistir a sua própria humanidade. E eu
continuo aqui a observar a menina que hoje como mulher continua a descer a rua
e passar por mim todos os dias sem saber que, aqui em mim, reside a sua única e
verdadeira felicidade. Eu sei que Alexandra pensa que nunca encontrará o homem
da sua vida, mas ele está aqui, esperando ansioso o dia de se apresentar a ela,
e viverem o que a própria vida guardou pra nós o tempo todo. O tempo... Ele nos
fará feliz eu prometo a ti Alexandra.
quarta-feira, 18 de abril de 2012
A Senhorinha
Mais uma vez
senti a necessidade da minha própria presença, me sentia sozinha, chorosa. Angustia
sem explicação aparente. Decide andar no bosque que abraçava a antiga casa de
meu pai; sai sem saber para onde ao certo iria. Enquanto andava ouvia, e sentia,
as folhas secas das arvores se despedaçarem sobe meus pés, por um instante
pisei de forma leve, elas estavam espalhadas por toda parte, imagino que
inconscientemente queria preservá-las ou apenas respeitar a morte das mesmas. O
vento estava frio e a floresta úmida, um pouco mais cedo havia chovido gotas
pequenas e gélidas, eu as observava da janela do meu velho quarto. A chuva sempre
me trazia sentimentos bons, tão meus; neste caso especificamente senti vontade
de correr pela terra molhada e amar a todos sem amar ninguém, me contive a
minha própria insignificância. Depois de caminhar por um bom tempo perdida em
minha própria mente, percebi que havia me afastado muito da casa de meu pai,
tive medo de não saber o caminho de volta, logo em seguida cheguei a uma
casinha de madeira com rosas que decoravam a entrada, rosas estranhas, nunca as
tinha visto com aquelas cores e com
espinhos tão grandes que pareciam ameaçar quem as quisesse tocar, aproximei-me
apreensiva, a porta da cabana estava aberta, cheguei bem perto observava intrigada
parte da casa era muito bem limpa e cuidada porem outra parte era muito
empoeirada, parecia abandonada a anos, alguns objetos obedeciam o mesmo padrão.
Entrei vagarosamente, o ar era perfumado pelas rosas, era tudo muito simples
mais ao mesmo tempo tudo tão encantador, me senti bem naquele lugar inóspito.
Haviam alguns porta-retratos em cima de uma lareira velha de pedra, me
aproximei curiosa queria ver as pessoas das fotografias em tom sépia parecendo
ser antigas, a principio pude perceber que eram duas mulheres, porem quando me
aproximei para ter a nítida visão fui surpreendida por uma voz rouca e cansada.
- Quem é
você?
Minha
espinha gelou, me dei conta que tinha invadido a casa de alguém. Virei-me
rapidamente e vi a silhueta de uma mulher sentada em uma poltrona velha de
frente para a lareira. Respondi gaguejando a pergunta feita.
- Me chamo
Izabel... Meu pai mora na casa grande, vim da cidade passar uns dias com ele, andei
pelo bosque e quando me dei conta já estava aqui em sua casa. Desculpe-me a
intromissão não deveria ter entrado em sua casa sem ser convidada...
Fui
interrompida pela mesma voz trêmula da mulher.
-Não fique
tão nervosa minha querida, tudo bem. Sente- se.
A mulher
continuava sentada agora fumando um cigarro, podia ver a fumaça sair do canto
escuro em que ela estava, sentia-me ansiosa para ver o seu rosto, mas não
conseguia. Ficamos caladas por alguns minutos então quebrei o silencio:
- A senhora
mora aqui no meio do nada, sozinha? O silencio ainda reinava na sala rústica,
depois de uma longa tragada no cigarro ela responde.
-Sim moro.
Sentia uma
vontade enorme de perguntar uma serie de coisas aquela mulher, porem meus
lábios pareciam selados, fiquei inaudível. Ela me trazia um punhado de
sentimentos, medo, encantamento, fascinação, mistério. Estranho porque não a
conhecia. De repente ela me pergunta:
- Aceita um
pouco de chá? Respondi positivamente com um aceno de cabeça.
Ela
levantou-se devagar com certa dificuldade, quando a luz entrou em contato com o
seu rosto assustei-me e não consegui disfarçar, era uma senhora com cabelos bem
alvos. Uma parte do seu rosto era bem bonita cabelos bem alinhados, pele de
textura aparentemente leve, lábios finos de grande delicadeza, a outra parte de
sua face era muito enrugada, cabelos emaranhados um olho morto esbranquiçado em
demasia, trajava um vestido longo colado no tronco que se harmonizava com o
corpo esguio. Meu coração batia acelerado e ela vendo o espanto estampado nos
meus olhos disse para que eu não me envergonhasse porque todos se assustavam
com a figura dela. Ela saiu e logo em seguida retornou com um lindo jogo de
chá, um igualzinho a que tínhamos lá em casa, meu pai dizia ter sido da minha avó.
Logo depois de mostrar-se a mim ela mudou de aspecto e mesmo ainda com a figura
de grande estranheza passou a me tratar de forma mais comunicativa e cordial.
Uma coisa que me chamava muito atenção, o seu linguajar era muito sofisticado
com algumas palavras que devo confessar não saber o significado de muitas delas.
A curiosidade crescia de uma forma assombrosa em mim, não me contive e a
perguntei o seu nome ela me respondeu baixinho: Ametista enquanto tomava um
gole de chá de folha de laranjeira. Aquela palavra pareceu ter um impacto muito
grande em mim. Conversamos por muito tempo e quando dei por mim a noite já
havia roubado o espaço do dia, então D. Ametista me mostrou o caminho de volta
a casa de meu pai e com toda a gentileza me convidou que voltasse a sua casa,
concordei com um sorriso e logo fui me afastando da velha cabana. Ao chegar ao
jardim de casa me parecia que o ambiente não era mais o mesmo, por que aquela
mulher esquisita havia mexido tanto comigo? Quando me recolhi na minha antiga
cama de lençóis brancos, a imagem da mulher vinha invadir meu pensamento
resolvi então não voltar a sua casa, estava ficando transtornada com toda
aquela situação. No dia seguinte enquanto tomava meu café da manha observei que
o jogo de chá era igualzinho ao que eu havia visto na casa de D. Ametista,
chamei a governanta da casa, a empregada mais antiga, perguntei-lhe sobre o
jogo de chá e ela me respondeu, que ele havia sido da minha avó, e que era o
objeto que ela mais amava que ela o havia recebido como presente de alguém só
não sabia de quem. Após essa conversa, aguçada a minha curiosidade eu me dirigi
até um quarto onde meu pai costumava guardar coisas antigas, encontrei uma
caixa com os pertences de minha falecida avó, havia fotos dela bem jovem, fitas
enfeitavam seus cabelos longos, aparecia sempre na companhia de outra garota
que me parecia familiar. Fiquei intrigada peguei algumas das fotos e voltei ao
jardim, coloquei as fotos sobre a mezinha do jardim e um vento forte as levou
para perto da entrada do bosque, o caminho que tinha feito no dia em que
encontrei a casa de Ametista, tinha prometido a mim mesma que não voltaria lá
mais não me contive trilhei novamente o caminho pelo mato e mais rápido que da
primeira vez cheguei ao velho casebre, a porta continuava aberta como da
primeira vez ela me estava desta vez de pé em frente às fotografias depositadas
em cima da lareira, cheguei devagar sem que ela soubesse que eu estava lá, ela
parecia triste. Chamei sua atenção e ela se voltou a mim, uma lágrima estava
depositada em sua maça do rosto, escorria pelo olho vivido de um castanho
amêndoa. A questionei sobre a lágrima, não obtive resposta, o silencio
misturado a ânsia doía em meus ouvidos.
-Essas
pessoas nas fotografias parecem ter sido muito importantes para a senhora, não
é mesmo?
-Sim, uma
delas em especial...
-Quem?
-A moça que
aparece comigo em muitas delas, veja.
Ela se
aproximou de mim segurando um porta-retratos de prata e com o dedo apontou:
-Esta sou
eu, e esta outra...
Eu a
interrompi antes que terminasse a frase.
-Minha avó!
D. Ametista
não parecia surpresa, então lhe perguntei:
-Você sabia
que eu era neta dela?
-Sim, você
se parece muito com ela, exceto pelo cabelo, o seu é louro e cacheado e o dela
era preto e liso, mas são os mesmos olhos, os mesmos lábios, até mesmo o jeito
de falar. Quando vi você entrar aqui logo imaginei que se tratava de alguém
muito próximo dela.
Sentei-me
surpresa por saber que aquela mulher conhecia minha vó, e mais por parecerem
ser tão próximas. Com um tom seco eu perguntei a ela como elas haviam se
conhecido, D. Ametista se ajeitou, sentou em sua velha poltrona e mais uma vez
ascendeu um cigarro enquanto começava a falar: sua avó e eu nos conhecemos no
jardim da casa que hoje é do seu pai, eu morava perto daqui numa casa também
grande, meus pais eram ricos, papai dono de uma grande produção de açúcar, um
dia em uma de minhas andanças acabei saindo no jardim da casa dela, lembro-me
que ela estava de costas, sentada em uma mesa no jardim, sozinha, tinha uma
fita vermelha no cabelo que ela adorava usar, estava sempre com ela, parecia
pensar em alguma coisa, o olhar estava distante, me aproximei lentamente e
disse “oi” ela se virou e com um lido sorriso me respondeu, eu senti uma
estranha felicidade, trocamos nomes e logo esta eu confabulando de minha vida
com ela. Passamos um bom tempo juntas e a tardinha voltei pra casa, minha mãe
já estava preocupada, não consegui deixar de pensar nela. No dia seguinte
voltei, e no outro e no outro. Passamos a ser melhores amigas combinávamos em
tudo, desde os gostos até os desgostos, ela era uma garota cheia de sonhos,
sonhos dela mesmo, não sonhos dados a ela invejava isso nela, os meus sonhos
eram os sonhos dos meus pais, era ousada independente, naquela época as mulheres
não era permitido nada que não fosse um bom casamento, cuidar da casa e dos
filhos, eu mesma já havia “aceitado meu destino”. Passei a pensar muito nisso
eu já tinha quase 18 anos e não tinha nem um pensamento meu. Ela toda envolvida
com suas aulas de balé, era leve como o vento. A cada dia nos tornávamos mais
próximas, mais unidas. Costumava dormir na casa dela pelo menos uma vez na
semana, e sempre antes de dormir ela pedia que eu escovasse seu cabelo, eu
adorava, num desses dias, depois de fazê-lo, ficamos em silencio as palavras
não eram mais necessárias, algo diferente estava acontecendo, sua avó se
levantou da cadeira de veludo vermelho da penteadeira e se aproximou de mim, me
olhava fixamente, meu coração disparou; minhas mãos gélidas, senti a respiração
quente chegando perto, e vi seus olhos se fecharam e os lábios abrirem-se
devagar, eu tomada pela emoção me entreguei aquele momento proibido, não me
sentia culpada, pelo contrario já algum tempo lá no fundo queria coragem para
provocar este beijo, sentia os lábios vermelhos dela roubarem o calor dos meus.
Passamos a noite inteira trocando beijos ardentes, beijos de mulher, delicadeza
de um beija-flor, ela então deu mel aos meus ouvidos dizendo com força: Eu te
amo Ametista minha pedra preciosa. Daquele dia em diante nos tornamos mais que
amigas e passamos a cultivar um amor puro e verdadeiro. Até que poucos dias
depois nos descobriram, minha mãe encontrou uma carta que eu havia escrito a
ela, ela exigiu que eu a deixasse se não, perderia tudo que tinha direito, eu
sem pensar muito disse que jamais me separaria dela, que ficaríamos juntas para
sempre e que se ela se fosse, parte de mim morreria. Encontrei um jeito de nos
encontrarmos nessa cabana e aqui selamos um pacto, fugiríamos no dia seguinte,
não tínhamos como viver ou pra onde ir, só queríamos ficar juntas então quando
voltei aqui no dia combinado ela não estava esperei por 2 dias sem comer nada
sentada na porta. Depois soube que o pai dela havia a levado a força para outro
país e que casaria com o homem que veio a ser seu avô. Da nossa historia além
das lembranças só deu para ela levar o jogo de chá que eu dei a ela, depois comprei
igual para mim, e ela algum tempo após o casamento engravidou e o parto ceifou
sua vida, eu ainda a vi uma vez depois dela ter ido embora, mas não falei com
ela. Então dede de que tudo aconteceu mudei-me para cá e deixei as coisas que
tinha dela aqui espalhadas, essas que estão empoeiradas são as dela, ela não
gostava que mexessem no que era dela. Sinto saudade. Coincidência ou não depois
que ela morreu a parte esquerda do meu corpo começou a se deteriorar como você
vê agora, essa era a parte que era ela ou talvez fosse eu, e a parte viva seria
ela, sempre tão cheia de vida.
Quando D.
Ametista terminou de falar lágrimas grossas rolavam dos seus dois olhos, ela
ainda me disse que nunca tinha contado a ninguém sua historia, não porque
tivesse vergonha, mas por ter se desligado do mundo. Mesmo assim ela me pareceu
um pouco envergonhada após sua revelação afinal de contas a outra garota era
minha vó. Eu já havia ouvido grandes historias sobre ela, mas essa sem duvida
foi a mais impactante. Abracei Ametista e mais tarde me despedi. O amor de fato
não é ditado pelo sexo.
sábado, 24 de março de 2012
Dente-de-Leão
Acordei outra vez com aquela maldita dor de
cabeça bebi muito ontem e fiz outras coisas que se você estive aqui tenho
certeza não aprovaria. O velho relógio do quarto marca três horas da tarde eu
ainda não levantei da cama não sei se por não conseguir ou por não querer, não
ter para onde ir, também não quero tentar, só quero ficar aqui sentindo o pouco
que sobrou do teu perfume nos lenções da cama; achei um frasco atrás daquela
velha penteadeira, ponho algumas gotas no travesseiro todas as noites antes de
pegar no sono. Eu adorava te observar enquanto escovava os teus longos cabelos
louros, meus olhos brilhavam, sentia como se admirasse uma obra de arte e de
certa forma era, uma obra divina. Sabia que depois que você foi embora eu
coloquei em todas as paredes a tua fotografia, não tenho feito nada mais além
te ver; a tua boca marcada de batom vermelho, os olhos, ah! os olhos negros e
brilhantes que contrastam com a pele branca. Gosto de pôr aquele velho disco
com a música que costumávamos dançar juntos imaginando estar em um baile dos
anos 20, você em cima dos meus pés, rio todas as vezes que me lembro,
parecíamos duas crianças que brincavam de viver. A primeira vez que a vi, eu
estava sentado na grama observava o pôr-do-sol de um dia estranho, o céu
parecia triste, bom! pelo menos eu estava não me recordo o motivo, talvez fosse
à velha saudade do futuro, você olhou para mim enquanto o vento se entrelaçava
nos teus cabelos como cobras em cópula, teu rosto parecia brilhar impulsionado
pela luz do sol, você me presenteou com um belíssimo sorriso, dizem que quando
se morre é visto um filme com toda a sua vida, isso aconteceu comigo naquele
momento, só que eu nunca tinha vivido aquele tal filme, mas algo me dizia,
gritava, que não era uma visão do passado era do futuro, um futuro próximo eu
sabia dentro de mim. Você sentou do meu lado, o meu rosto queimava, devo ter
ficado vermelho, então colheu um dente-de-leão, estava bem perto e com toda à
delicadeza de moçoila disse que era a sua flor favorita mesmo sem ter certeza
se era mesmo uma flor, disse ainda que ela estimulava o desapego, o recomeço, a
novos encontros, eu fiquei ouvindo com tanta atenção como se você estivesse me
dando à solução para todos os problemas da humanidade, guardei cada uma
daquelas palavras, então você soprou e ele se dispersou e foi conduzido pelo
vendo, ficamos observando até que não restasse mais nem um, começamos a
conversar estava tão empolgada me contando os lugares onde já tinha ido e as
pessoas que tinha conhecido. As gargalhadas faziam meu coração disparar, e eu
me perguntava como era possível? Tinha
te conhecido há poucos minutos. Eu sonhei uma vida para nós, queria ficar
velhinho do teu lado, e espalhar para o mundo inteiro que você era minha, que
aqueles olhos cantavam para mim, mas como eu já dizia antes e só comprovei: os
sonhadores não são felizes. Essa casa parece tão grande sem você, tão escura
como uma tumba em que fui sepultado vivo, eu ainda vivo? Hoje está chovendo,
enquanto eu vejo as gotas descerem pela vidraça da porta eu me pergunto, e rezo
para quem quer que seja, para trazer-te de volta, para deixar-te aqui comigo,
para que nos tornemos um só novamente, para que eu te envolva novamente como
uma ostra que guarda sua pérola. Estou cansado dessa casa com paredes de cores
alegres, você era meu sol, por que me deixou? Eu a amava tanto. Agora não tenho
mais nada além de cinzeiros cheios e o sentimento de que falta uma parte de mim,
uma parte vital; de repente o céu e as estrelas deram as costas e se foram sem
dizer para onde iam. Procuro-te em todos os braços, todos os beijos, inútil! Eu
só queria que você agora abrisse aquela porta e com um lindo sorriso me
dissesse para não chorar mais, secasse as minhas lágrimas e me beijasse dizendo
que nunca mais iria me deixar, aliás, você prometeu... Muitas coisas foram
ditas. Eu só queria exorcizar essa dor que me força a ser fraco, me força a
tremer, me força a gritar todas as vezes que acordo e com uma das mãos procuro
teu corpo e não encontro, essa dor dilacera o coração, faz sangrar, reprime.
Ontem enquanto descia a rua, eu observava as pessoas, pareciam tão contentes,
comecei a odiá-las, por estarem felizes, aquela felicidade era minha e sua,
lembra? Porque me esqueceu? Eu queria não ter um coração agora, melhor, eu
queria não ter te dado meu coração, você me disse que o guardaria com todo o
amor, mas será que até um sentimento tão nobre tem prazo de validade? Quando é
que irei sentir teus cílios acariciarem meu rosto novamente? Chega de tantas
perguntas, o vento não vai me responder nenhuma delas; eu aqui misturando texto
com pensamentos, já tinha prometido para mim mesmo que não iria falar sozinho
de novo, acho isso deprimente. Eu queria dormir agora e só acordar quando as
feridas secassem, quando eu recompusesse meu espírito rasgado. O ser humano não
vive só. Na teoria parece tudo bem mais fácil, eu cheguei a pensar que se um
dia algo desse tipo acontecesse comigo eu logo me levantaria, sacodiria a
poeira e continuaria de pé, só que eu não sabia que quando acontecesse tirariam
as minhas pernas, o meu apoio, meu porto seguro. Olhar-me no espelho agora é
contemplar um ser em decadência, magro com olheiras profundas, não consigo mais
fazer nada, minha força foi levada embora, tudo foi embora quando você passou
por aquela porta, se você sabia que tinha que ir porque ficou comigo, porque
sorriu pra mim, porque entrou na minha vida? Eu não tinha muita coisa naquela
época, mas pelo menos eu tinha a mim. Você me deu um mundo depois tomou de
volta. É meio desconcertante precisar da ajuda de alguém que invés de ti fazer
emergir da lama podre de sofrimento, faz o contrario e sem qualquer esforço.
Talvez eu não tenha te conhecido, talvez você tenha usado o tempo inteiro
aquela máscara que compramos perto do carnaval se lembra? Aquela que tinha
expressão triste, mas ou mesmo tempo sarcástica. Eu poderia te odiar, mas me
sinto fraco até mesmo pra isso, estou desfalecendo, secando como às arvores do
outono, lentamente. Me sinto mascado, rejeitado, excluído, nem se quer pude ser
engolido, porque se assim fosse, de alguma forma estaria dentro de ti mais do
que na forma física, em uma forma transcendente, límpida, pura. Entreguei-me
sem saber que estava entregando meu pescoço ao carrasco. No começo eu senti
medo, o que é muito natural nós sempre temos medo, uns tem medo do escuro,
outros de monstros nos armários, outros de bichos como ratos e baratas, eu
tinha medo de me deixar levar, de deixar sentir, ser vulnerável, tirar minha
armadura e fingir que tudo bem, mas às vezes pelo que se vê o medo é mais do
que um sentimento, é um alerta. Eu gostava às vezes nas tardes de domingo
quando nos deitávamos na grama do jardim, (é de novo à grama, talvez tenha
algum significado pra nós) e ficávamos trocando risadas tentando decifrar as
nuvens, aquela velha historia de tentar adivinhar qual coisa às nuvens se
tornavam, e você sempre dizia que as pessoas eram como nuvens e os sentimentos
eram os ventos que conduziam elas, eu dizia que o nosso vento havia trazido
você pra mim. Oh senhor vento, me desculpa se eu te magoei, não queria que a
levasse, queria ela por toda minha vida. Agora as manchas, a lacuna ficou
aberta sem que haja uma solução aparente, sem que haja uma solução plausível,
digna. E o amor que antes era completo e sólido se espatifou e eu nem sei em
que, se tornou migalhas, como aquelas que as velhinhas costumam atirar aos
pombos no parque, e se transformou em pequenos vermes que me corroem que
desmancham, que me fazem chorar, homens não deviam chorar... Não consigo parar
de beber, na pior das hipóteses quando eu imagino levemente em um dia perder o
que tinha eu, nunca pensei que pudesse ser tão clichê, bebendo, fumando achei
que reagiria de outra forma menos comum, decepção até comigo próprio. Será que
minha voz deixou de ser excitante? Será que meus olhos deixaram de ser
desnorteantes? Será que minha pele acabou gélida? Bom! Pelo menos agora ela
está, cada pedaço meu sente sua falta. No começo da semana, à noite, quando não
tinha nada de interessante para fazer ficávamos calados deitados no chão da
sala, dávamos as mãos e simplesmente o silêncio, apenas as respirações, o
cheiro de incenso no ar e o barulho dos bichos no jardim, só a presença do
outro já era o suficiente, me tornei insuficiente? Sabia que meu paladar ainda
sente teu sabor, o sabor salgado do suor na hora em que nos tornávamos um só, o
meu olfato ainda sente teu cheiro, o cheiro de desejo, de malicia angélica, o
meu tato ainda sente a textura da tua pele macia como uma delicada pluma, a
minha visão implora pelo teu semblante, meu corpo e minha alma querem a tua
presença. Se eu soubesse que seria assim eu preferia não ter descoberto o bom
da vida. Vou fazer o que já devia ter feito fechar a porta de vez, eu ainda
deixo aberta no caso de você voltar, vou afogar esse amor em minhas lágrimas e
voltar a minha atenção para mim mesmo novamente, eu sou o único que nunca vai
me decepcionar, sou o único que nunca vai me deixar sozinho, eu sou o único que
merece os meus sentimentos divinos.
quinta-feira, 15 de março de 2012
Na Janela
Meu coração
sangra, sinto uma dor aguda assim como a de um espinho perfurando a pele, toda
vez que percebo o dia entardecer. O sol em sua magnitude de astro rei desce
atrás das casas, do fim da rua, todas com a mesma arquitetura, diferenciadas
apenas pela cor, cada uma pintada com cores suaves cada cor divergente uma da
outra. Uma casinha me chamava à atenção, a segunda da direita, uma onde há uma
árvore de frutos amarelados no jardim. Quando as luzes do crepúsculo acariciam
suas paredes singelas formam um misto de cores que contrastam entre o vermelho
e o amarelo, por um instante ela parece brilhar. Costumo olhar as nuvens que
adquirem as mesmas cores da casinha, tão pacificas, levitam com tanta
suavidade, sendo levadas em todas as direções pelo vento, será que uma nuvem é
feliz em ser nuvem? Meu rosto está refletido na janela de vidro que é dividida
em duas partes. Não entendo o porquê, tento forçar um sorriso contraindo os
músculos da face, os dentes até aparecem, mas os meus olhos continuam
enuviados, com a constante expressão de tristeza, não respondem aos meus
comandos são como um adolescente rebelde, expressam o real sentimento sem
importarem-se com qualquer exigência. O antigo cuco afixado solitário na parede
cinza do quarto faz o seu alerta, indicando o horário que eu esperava
ansiosamente. Por alguns instantes retiro a minha atenção das ruas encobertas
pelo manto de folhas e do sol que termina de esconder-se, volto a atentar-me ao
quarto nu, onde não existe nada mais além das paredes frias e do já descrito
cuco na parede. Estranho como sinto uma atração inexplicável por esse ambiente
embebido de trevas, clareado apenas pelos últimos raios de sol que hoje parece
demorar mais que de costume a ir-se. O chão de madeira velha range a cada passo
que se dá, algumas teias de aranha bordam a parede com sua renda fina. Ouço as
risadas e logo todo meu metabolismo se desregula, e lá estão elas as famosas
borboletas no estômago, apressado volto à janela e mais uma vez minha figura
está projetada na vidraça, vestimentas turvas como se estivesse de luto por se
próprio ou pela humanidade, a pele pálida e os lábios avermelhados devido às
mordidas de ansiedade, distribuídas ao longo do dia. Seus passos são lentos,
ele desfila pela rua calmamente, como uma bailarina que se apresenta, sempre
atenta aos movimentos, aos menores, almejando ser agraciada pela perfeição. Ele
ri gargalhadas estridentes, vivas, distribuídas e espalhadas ao sabor do vento,
o seu rosto se torna tão lindo que meus olhos chegam a serem indignos de captar
tamanha beleza, as maçãs do seu rosto se contraem e os olhos de cílios grandes
apertam-se, faces angelicais. Assim como costuma fazer todos os dias, pula
aquelas faixas amarelas pintadas com todo capricho ao meio do asfalto da viela
estreita. Eu o observo sempre no mesmo horário, sempre andando com seus gracejos,
e eu nessa janela, todos os dias, ouvindo seus risos sem motivo aparente, ele
cheira felicidade, sempre vendo sua linda pele rosada, seus cabelos escuros que
se movem com a menor brisa do entardecer. Queria que soubesse que estou sempre
aqui, continuo parado, um mero espectador, um mero observador da vida, talvez
da minha própria vida, um mero sonhador, cambaleando a beira do delicado abismo
da loucura. Ele continua a caminhar, fazendo movimentos faceiros, ágil e suave
como uma pluma. Ele some ao longe, mais uma vez. O piso range novamente
enquanto me afasto da janela, voltarei amanhã para sentir o doce sabor da
ambrosia de tua presença, nem que a distancia e por alguns segundos vê-lo
passar, abençoado pelo sol. O mais belo lírio que já se houve noticia.
terça-feira, 6 de março de 2012
Minha Doce Luiza
Hoje sonhei contigo mais uma vez, na verdade, acho
que era mais uma lembrança adormecida. Lembrei-me de quando éramos crianças e
corríamos pelados pelos campos sem vergonha ou pudores; os capins esfregando
suas ramas verdes em nossas pernas, aquilo dava uma sensação engraçada, e você
sempre ria descontrolada. O vento parecia tentar levar nossos cabelos a
caminhos que só ele conhece. Devo confessar que ainda sinto muita vontade de
repetir essas nossas experiências malucas. Você deve ter se tornado uma linda
mulher, quando criança, tua beleza já era admirável, creio que o tempo tenha
moldado teu corpo trazendo protuberantes formas, linda e altiva... Engraçado
como eu te imagino. Nunca entendi as crianças, sempre costumava dizer isso,
lembras? Tu rias e me dizias que como eu não poderia saber se eu era uma. Nossas
conversas eram adultas de mais pra nós. Sexo era assunto favorito, estávamos
sempre mergulhados numa luxúria infantil; às vezes penso que nunca fomos crianças.
Lembra quando fugi a noite e fui até sua casa, subi
na sacada do quarto e entrei pela janela, você estava linda adormecida com uma
camisola de seda branca que deixava escapar partes de tua pele, também muito
branca. No quarto estavam espalhadas bonecas de porcelana com cabelo de verdade,
eram teus cabelos, sua mãe costumava costurar mechas a elas. Caminhei
cuidadosamente até a beirada da cama e me ajoelhei, por um segundo admirei o
teu rosto; o tempo parecia ter parado como em uma fotografia. Senti uma vontade
inexplicável de beijar-te a boca tive a impressão que alguém falava aos meus
ouvidos. Me aproximei devagar, meus lábios estavam avermelhados devido o frio
do outono; a luz da lua entrava sorrateira pela janela, que deixei aberta por
descuido ou propositalmente, não sei ao certo. Tua boca rosada, carnuda,
aquecida pelo sono. Feixei os olhos lentamente como por instinto, senti tua
respiração pesada e toquei levemente meus lábios aos teus, não conseguia deixar
de pensar naquele velho conto de fadas. Os meus pêlos finos de menino ouriçaram-se,
teus olhos se abriram e pareciam me hipnotizar com o verde esmeralda que
emanava deles; tu esboçaste um leve sorriso com o canto da boca movimento tão
teu. Deitei-me ao teu lado, em sua cama, e com movimentos leves tu te despias;
beijos com mais volúpia eram trocados por nossos corpos em formação. Minha boca
percorria teu ventre, e chegando ao fim de tudo, no teu sexo úmido, era a
primeira vez que o via tão de perto, alguns pêlos aloirados denunciavam que a
infância dava espaço a adolescência, enquanto teu corpo se retorcia como uma
cobra apressada em capturar sua presa. Eu saboreava o gosto de mulher que
trazia entre as pernas; lambia como se quisesse devorá-la, queria que fosse só
minha, doce Luiza, assim que eu sempre a chamava não é mesmo?
Agora depois de tudo que passou, me arrependo de
algumas coisas não feitas, não vividas. A maior delas é não ter falado que a
amava desesperadamente, eu te amava, minha doce Luiza...
Oh, que indelicadeza a minha falando freneticamente
do nosso passado, esqueci-me de dizer como estou no que me tornei. Bom, eu
sempre fui o garoto estranho sem amigos - a não ser você minha querida - a
melhor de todas as amizades. Introspectivo, não mudei em muita coisa, a não ser
a aparência física, eu era franzino, hoje sou forte, forte no sentido de
músculos - não no sentido de gordo - tia Maria sempre gostava de usar essa
expressão para não ser indelicada. No que diz respeito ao meu interior continua
o mesmo, o mesmo menino-homem; não tenho muita coisa, apenas uma casa antiga
com moveis antigos; até eu já estou me tornando antigo em conviver com tanta
velharia. Ás vezes eu penso em ter uma casa moderna, com paredes de cores
vibrantes, deixar um pouco meus blues e ouvir musica nova, mas se o fizesse
penso que não seria eu, entende? Também comecei a escrever, estava ansioso para
falar isso para ti. Sinto-me bem quando escrevo, acho que se tornou minha
válvula de escape. Costumo escrever coisas tristes e melancólicas, talvez minha
alma seja assim sombria, remota. Tenho uma vida promiscua e não entendo isso
como uma coisa ruim, “ela” não é tão feia quanto às pessoas pintam, dizem que a
alma não tem sexo, mas e se tiver?
Nas festas de família que meu pai sempre insistia em
organizar você sempre estava lá. Achei uma caixa com varias fotografias, você
sempre aparece segurando minha mão, rosto pacifico, beleza incontestável. Um
dia me disse que adorava ser fotografada, pois queria que sua beleza fosse
eternizada; falou-me também que queria ser pintada em um quadro bem grande, e
que fosse deixado, de herança para os netos e bisnetos, como se mostrasse a
primeira de uma grande raça. Em falar nisso, conseguiste tua pintura?
Lembra-te do dia do lago? Saímos à tardinha, você e
eu em direção ao lago de águas límpidas, que chegavam a se assemelhar com
cristal, enquanto admirava as águas do lago, tu despias a ti rapidamente,
mergulhando ágio no lago; parecia ser o seu elemento, estava tão à vontade... Eu
por minha vez, fiz o mesmo, deixando a mostra meu corpo imaturo, agora com pêlos
que ainda não tinha me acostumado em tê-los. Mergulhei também, sendo envolvido
pela água morna e cintilante, nadei em tua direção você estava numa pedra, nua,
os cabelos vermelhos contrastavam com a pele pálida, os cachos desfeitos pela água,
estava tão linda, subi na pedra, nos olhávamos como se um procurasse no outro as
diferenças entre masculino e feminino. Senti mais uma vez como se vozes
soprassem meus ouvidos, então me aproximei de ti, beijei como se o mundo fosse
acabar ali, e se assim sucedesse sei que estaria feliz. Tuas mãos pequenas
passeavam por minha pele fazendo caminhos desconhecidos, intocados, minha boca
subia e descia no teu pescoço, misturando minha saliva a água doce do lago
prateado, meu corpo comprimia o teu sobre a pedra, enquanto éramos cobertos por
um manto de gotículas de água que caiam da cachoeira, que desaguava ao nosso
lado. O sol que também participava, nos iluminava com a luz do entardecer; o
céu refletia no lago suas cores de vários tons azul, vermelho e laranja. Rolavamos
na pedra lavada, tuas pernas me abraçaram como se além de mim quisessem abraçar
o mundo, então senti o teu calor, calor de mulher, maciez libidinosa, enquanto
eu me punha dentro de ti, teu sangue de pureza escorria sobre a rocha, e se
fundia com a água morna. Os movimentos de minha anca com delicadeza ia nos transformando
em seres que foram feitos para o sexo, teus seios recém-saídos do corpo simbolizavam
a luta da menina que sonhava em ser
mulher, meus sentidos pareciam ter sido aumentados. Tudo ali era novo, tudo era
encantado, sentia teu coração pulsar mais forte, bombeando a vida que corria em
tuas veias.
Depois que tudo cessou fiquei abraçado a ti, abraçado
a minha doce Luiza. Apesar da água, ainda conseguia sentir o cheio dos teus
cabelos. Naquele instante tive a certeza que eu tinha nascido pra viver esse
momento.
No dia seguinte fui à tardinha a tua casa, ansioso
em vê-la queria te abraçar e te dizer o quanto a amava. Sentia como se naquela
única vez que fiz amor, tivesse envelhecido 10 anos. O meu rosto queimava, um
sorriso insistente, porem ao chegar tive a noticia de que não havia mais Luiza.
Porque me deixou? Porque não disseste-me que a tua palidez que tanto me
fascinava era uma palidez doentia? A morte a tinha lambido com seu manto escuro;
e eu sem ter mais a quem amar, escrevi essa carta imaginando como você seria se
não tivesse partido, daria tudo pra sentir a ti nem que por um segundo sequer.
Porque te foste, minha doce Luiza? Eu ainda te amo, e sei que minha vida ainda
está conectada a sua transcendendo o abismo da morte.
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