terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Pedro e o Vento




Pedro não tinha mais do que seis ou sete anos e o coração cheio de sonhos. Gostava de tardes frias e do som que o vento fazia nas árvores do parque próximo de onde morava, aliás, o vento era o mais fascinante de todos os elementos segundo ele, criou uma teoria bem no fundo dos olhos negros meio caído dos lados que muito se assemelhavam ao velho pierrô de porcelana que enfeitava a parede em tons de terra do quarto que ainda conservava um cheiro de quarto de bebê, acreditava que o mais abstrato dos elementos era nada mais nada menos do que sentimentos de todos os tipos que não se contentavam em existir apenas em um ser pensante, precisavam percorrer a terra, acreditava que eram sentimentos que não se contentavam com a prisão do homem, eram livres. Pedro gostava de cuidar das flores do pequeno jardim, que quase sempre morriam após o terceiro dia o que era um tanto frustrante, mesmo assim nunca desistiu delas, as mais frágeis o cativava mais recebendo atenção maior e também nomes estranhos quase sempre imemoráveis criados apenas com a junção desordenada de silabas que mais pareciam palavras em alemão quando faladas depressa. O menino via o mundo de uma forma impar, como se cada nuvem no céu não fosse apenas um aglomerado de água gasosa como alguém com más intenções quis lhe impor um dia, mas um projeto, um rascunho de alguém que usava a imensidão azul como folha em branco e não importava a nomenclatura o importante era que existe, pelo menos pra ele existia, o que já era mais do que suficiente. Em um dos dias comuns, como eram taxados qualquer um dos dias que não eram sábados, domingos ou feriados, após chegar em casa com as primeiras frases completas feitas por ele sem auxilio rasuradas no pequeno caderno de capa grossa com simples detalhes em vermelho, olhou admirado o feito novo, se trancou no quarto e sentou na escrivaninha com aparência um tanto velha para o quarto de alguém que ainda não tinha atingido nem os dois dígitos de idade cronológica, repetiu incessantemente, refazendo e desenhando cada uma das letras com todo capricho. Os dias subsequentes foram todos preenchidos com essa rotina, cada dia com uma frase diferente cheia de emoção. Pedro gostava das letras, mas queria entender o seu real proposito na vida dos homens, em uma conversa franca com a professora, que assustava um pouco pelas suas sobrancelhas grossas que pareciam sempre expressar um descontentamento, foi bombardeado por um discurso gigante, ao qual conseguiu retirar uma parte importante para ele, Pedro descobriu que poderia escrever o que sentia e eternizar seus pensamentos, o menino ficou fascinado e tratou logo de capturar cada um dos pensamentos que surgiam atrás dos seus pequenos olhos escuros, escreveu todos que sabia em pequenos papeis cortados em quadrado e guardou com carinho cada um deles em uma caixinha enfeitada com algumas de suas flores mortas coladas, por vários dias se dedicou exaustivamente a essa missão. Se esquivando do olhar atendo de sua mãe, ousou subir no ponto mais alto do prédio era fim de tarde e o sol já se despedia, sentiu uma extrema sensação de liberdade, e munido de todos os seus sonhos escritos na caixinha, despejou ao sabor do vento, e deixou que os sentimentos libertos levassem seus sonhos a quem pudesse ler, e talvez tivessem os mesmos, ou talvez passassem a ter, era esvaziar a caixinha para dar espaço a novos pensamentos.