terça-feira, 5 de junho de 2012

O Menino da Calçada





Ele não sentiu mais nada aquela manhã, a não ser o chão frio do quarto vazio e o cheiro comum dos cigarros esquecidos pelos cantos da casa. No rádio relógio tocava uma velha canção que costumava ouvir no colo da avó, ela adorava essa música um blues bem deprimente com uma gaita na introdução; por um momento imaginou sentir até a fragrância do perfume dela que era levada pelo vento e chegavam às narinas misturado ao cheiro das rosas do jardim e do cachimbo que ela por insistência não tirava da boca, ele a contemplava como uma rainha no seu trono de ouro, intrigava aquela figura de cabelos brancos, sentada na cadeira de balanço que rangia ameaçando desabar, mas nunca o fez. "Eu devo ter emagrecido me sinto mais frágil, mais vulnerável" o pensamento surge em sua cabeça subitamente após se deparar com o espelho sujo no canto do quarto, "e as calças não as encontro, odeio sair despido pela casa mesmo sabendo que não existem olhos aqui há não serem os meus", olhos esses que continuavam avermelhados, devido o baseando que perigosamente inventou de fumar como forma de resgatar um velho desejo de adolescente. Os domingos são todos assim, embrulhados com grossas camadas de tédio e apatia. É constrangedor que a única distração de um homem de trinta e poucos anos seja, o observar dos raios de sol que entram sorrateiros pela janela entreaberta do quarto. Ele em um gesto um tanto quanto infantil balança o tapete para que as partículas de poeira se agitem, e sendo iluminadas pelo sol se tornem brilhantes e então vem à ilusão de não serem mais apenas grãos de poeira, serem estrelas reluzentes, mas se bem que um dia deva ter ouvindo alguém falar que as estrelas são formadas também por poeira, poeira cósmica o que ele a principio achou um dos maiores absurdos. Aquele Domingo parecia não mais acabar, era nos fins de semana que mais sentia falta de alguém para conversar, contar histórias idiotas, e pensamentos absurdos, e manias estranhas, mas que de um jeito ou de outro o transformavam em alguém único, estranhamente único. Desde que levantou da cama - muito cedo por sinal para um dia de domingo - havia pronunciado apenas algumas palavras estava em um daqueles dias que tinha enjoado o timbre da sua voz áspera e estridente, queria dar descanso aos ouvidos, e tentava mudar a voz até mesmo quando pensava algo e ouvia sua voz irritante e presunçosa em sua própria cabeça. Sentiu vontade de beber, e rapidamente se levantou do chão ainda frio e correu até um baú de madeira onde lembrava ter escondido uma garrafa de vodka, se perguntava duas coisas enquanto procurava a chave do cadeado que abria o baú: uma era o porquê dos olhos cortados de revistas e colados sem capricho em todo o baú até na parte de baixo, outra é que não fazia sentido que ele escondesse a bebida afinal ele morava sozinho e ninguém nunca ia visita-lo, ele sentou no chão em frente o baú e com a chave na mão procurou um pensamento que abrisse essas questões levantadas sem explicação aparente, se esforçou por alguns segundos mudando o máximo que podia a voz que era dele, mas que ele não queria que fosse, a voz da sua cabeça. Roeu um pouco as unhas e logo fez expressão de alivio, havia ele colado os olhos no baú, para que alguém vigiasse assim como as borboletas com a arte do mimetismo? Talvez houvesse escondido a bebida dele próprio? Seria uma remota vontade de parar de beber? A chave do baú tinha desenhos de flores em relevo, e ele logo abriu o baú com certa "fome", encontrou algumas fotos antigas, uma aquela velhinha da cadeira de balanço, outras com roupas de bicho, fotos constrangedoras, ridículas, alguns textos velhos em folhas já amareladas e roídas por traças, uma em especial, um plano que ele redigiu que se chamava: como destruir o mundo, ele ri um riso meio solitário e cheio de nostalgia, devolve todos os pertences ao baú e só encontra uma garrafa vazia, decide então sair para comprar uma nova. As nuvens encobriam rapidamente o sol e ele pega o guarda-chuva que odiava carregar, caminha vestido em um sobretudo caqui como aqueles dos filmes de agentes secretos,  tenta não ser visto pelas poucas pessoas que caminham na calçada. Ele anda devagar e esconde o rosto com enormes olheiras com guarda-chuva que ainda não foi aberto, anda desengonçado pondo a ponta dos pés nos paralelepípedos que formam a rua, um dia ouviu falar que pisar no encontro de dois calçamentos trazia má sorte, então ele toma todo o cuidado em cada passo que dá. A música novamente volta a sua mente, mas agora sem ser tocada em lugar algum só na sua cabeça como se a música pertencesse apenas a ele, como se ela fosse dele, como se ela fosse ele. Mais a frente, observando os carros que passam cortando a chuva que ainda é fina, mas que ameaça fortalecer-se e logo se fortalece. Perde-se em pensamentos tolos como: o que faria se encontrasse um diamante agora, ou o que diria se esbarrasse com alguém que há bastante tempo não via, a sua linha de pensamento e cortada quando ele ainda um pouco longe vê uma pessoa sentada no canto da calçada suja e molhada, uma pessoa que aparenta ser uma criança, com o rosto enterrado nos joelhos, ele caminha rapidamente sem perceber que está pisando nas divisórias da calçada, chega bem perto e ouve o soluçar dramático, ele já ouviu aquele soluçar antes, estende a mão para tocar seu ombro, mas logo a recolhe, antes que a sua pele toque a pele do outro, talvez tenha sentido que não deve interferir, mesmo assim retoma o ato e toca o ombro da criança. O menino continua chorando agora mais freneticamente, ele se ajoelha e pergunta o nome, a criança continua apenas a dispersar sons de choro, ele então com toda a delicadeza de quem sabe o que é sofrer levanta a cabeça do menino devagar, o poste acima refrete a sua luz indiscreta sobre eles, as gotas da chuva parecem estar em câmera lenta quando atingidas pelos raios da iluminação, e caem também tristes sobre os dois corações que aparentemente padecem do mesmo mal, ele não consegue desfaçar a surpresa quando fixa o olhos no rosto de pele infantil, olhos marcados de maquiagem borrada pela chuva, batom espalhado pelo rosto inteiro, e as lágrimas que tornam se gotas únicas saídas do rosto e misturadas à chuva que insiste em se tornar mais forte, ele por um instante procura palavras que se embaralham na garganta querendo sair todas de uma vez, e não se ouve mais nada além dos soluços finais do choro cessante do garoto e as gotas de chuva que tocam uma sinfonia natural ao tocarem o asfalto quente. Ele pergunta preocupado e curioso o que um garoto tão novo faz na rua sozinho, e ainda por cima maquiado e desolado? O pequeno abre a boca devagar e com uma voz tremula assim como as mãos, explica que fugiu de casa porque não gosta de ser quem ele é. O homem sente no peito o coração se desintegrar e se sente a frente de um espelho e logo imagina uma vida ao qual não teve coragem de ter. Por instinto pega o menino no colo e leva para casa, sem se importar novamente com os paralelepípedos da calçada. Cuida do garoto como se cuidasse dele mesmo, e observa os movimentos femininos da criança, tanta delicadeza em segurar a xicara de chocolate quente, o jeito que cruza as pernas no sofá. Os dois não pronunciam muitas palavras. Depois de algum tempo de um na presença do outro sem que nem um nem o outro trocassem grandes frases, o homem se levanta e vai até a janela e vê que a chuva já tinha cessado e então conduz o garoto até sua casa, sem que antes dissesse o que sua alma gritava que ele dissesse, viva! Viva enquanto há tempo. O homem vê o menino se afastar lentamente pelo caminho de pedras de um jardim florido, de uma casa modesta pintada de verde bem claro, e deseja por tudo que ele tem, deseja ser aquele menino e talvez seja, talvez os dois sejam um, passado e futuro em conjunto, um querendo ter poder supremo na vida do outro. Ele só queria uma nova chance de fazer o que sempre quis.

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