Ele não sentiu mais nada aquela manhã, a não
ser o chão frio do quarto vazio e o cheiro comum dos cigarros esquecidos pelos
cantos da casa. No rádio relógio tocava uma velha canção que costumava ouvir no
colo da avó, ela adorava essa música um blues bem deprimente com uma gaita na
introdução; por um momento imaginou sentir até a fragrância do perfume dela que
era levada pelo vento e chegavam às narinas misturado ao cheiro das rosas do
jardim e do cachimbo que ela por insistência não tirava da boca, ele a contemplava
como uma rainha no seu trono de ouro, intrigava aquela figura de cabelos
brancos, sentada na cadeira de balanço que rangia ameaçando desabar, mas nunca
o fez. "Eu devo ter emagrecido me sinto mais frágil, mais vulnerável"
o pensamento surge em sua cabeça subitamente após se deparar com o espelho sujo
no canto do quarto, "e as calças não as encontro, odeio sair despido pela
casa mesmo sabendo que não existem olhos aqui há não serem os meus", olhos
esses que continuavam avermelhados, devido o baseando que perigosamente
inventou de fumar como forma de resgatar um velho desejo de adolescente. Os
domingos são todos assim, embrulhados com grossas camadas de tédio e apatia. É
constrangedor que a única distração de um homem de trinta e poucos anos seja, o
observar dos raios de sol que entram sorrateiros pela janela entreaberta do
quarto. Ele em um gesto um tanto quanto infantil balança o tapete para que as
partículas de poeira se agitem, e sendo iluminadas pelo sol se tornem
brilhantes e então vem à ilusão de não serem mais apenas grãos de poeira, serem
estrelas reluzentes, mas se bem que um dia deva ter ouvindo alguém falar que as
estrelas são formadas também por poeira, poeira cósmica o que ele a principio
achou um dos maiores absurdos. Aquele Domingo parecia não mais acabar, era nos
fins de semana que mais sentia falta de alguém para conversar, contar histórias
idiotas, e pensamentos absurdos, e manias estranhas, mas que de um jeito ou de
outro o transformavam em alguém único, estranhamente único. Desde que levantou
da cama - muito cedo por sinal para um dia de domingo - havia pronunciado
apenas algumas palavras estava em um daqueles dias que tinha enjoado o timbre
da sua voz áspera e estridente, queria dar descanso aos ouvidos, e tentava
mudar a voz até mesmo quando pensava algo e ouvia sua voz irritante e
presunçosa em sua própria cabeça. Sentiu vontade de beber, e rapidamente se
levantou do chão ainda frio e correu até um baú de madeira onde lembrava ter
escondido uma garrafa de vodka, se perguntava duas coisas enquanto procurava a
chave do cadeado que abria o baú: uma era o porquê dos olhos cortados de
revistas e colados sem capricho em todo o baú até na parte de baixo, outra é
que não fazia sentido que ele escondesse a bebida afinal ele morava sozinho e
ninguém nunca ia visita-lo, ele sentou no chão em frente o baú e com a chave na
mão procurou um pensamento que abrisse essas questões levantadas sem explicação
aparente, se esforçou por alguns segundos mudando o máximo que podia a voz que
era dele, mas que ele não queria que fosse, a voz da sua cabeça. Roeu um pouco
as unhas e logo fez expressão de alivio, havia ele colado os olhos no baú, para
que alguém vigiasse assim como as borboletas com a arte do mimetismo? Talvez
houvesse escondido a bebida dele próprio? Seria uma remota vontade de parar de
beber? A chave do baú tinha desenhos de flores em relevo, e ele logo abriu o
baú com certa "fome", encontrou algumas fotos antigas, uma aquela
velhinha da cadeira de balanço, outras com roupas de bicho, fotos constrangedoras,
ridículas, alguns textos velhos em folhas já amareladas e roídas por traças,
uma em especial, um plano que ele redigiu que se chamava: como destruir o
mundo, ele ri um riso meio solitário e cheio de nostalgia, devolve todos os
pertences ao baú e só encontra uma garrafa vazia, decide então sair para
comprar uma nova. As nuvens encobriam rapidamente o sol e ele pega o
guarda-chuva que odiava carregar, caminha vestido em um sobretudo caqui como
aqueles dos filmes de agentes secretos, tenta não ser visto pelas poucas pessoas que
caminham na calçada. Ele anda devagar e esconde o rosto com enormes olheiras
com guarda-chuva que ainda não foi aberto, anda desengonçado pondo a ponta dos
pés nos paralelepípedos que formam a rua, um dia ouviu falar que pisar no
encontro de dois calçamentos trazia má sorte, então ele toma todo o cuidado em
cada passo que dá. A música novamente volta a sua mente, mas agora sem ser
tocada em lugar algum só na sua cabeça como se a música pertencesse apenas a
ele, como se ela fosse dele, como se ela fosse ele. Mais a frente, observando
os carros que passam cortando a chuva que ainda é fina, mas que ameaça fortalecer-se
e logo se fortalece. Perde-se em pensamentos tolos como: o que faria se
encontrasse um diamante agora, ou o que diria se esbarrasse com alguém que há
bastante tempo não via, a sua linha de pensamento e cortada quando ele ainda um
pouco longe vê uma pessoa sentada no canto da calçada suja e molhada, uma
pessoa que aparenta ser uma criança, com o rosto enterrado nos joelhos, ele
caminha rapidamente sem perceber que está pisando nas divisórias da calçada,
chega bem perto e ouve o soluçar dramático, ele já ouviu aquele soluçar antes,
estende a mão para tocar seu ombro, mas logo a recolhe, antes que a sua pele
toque a pele do outro, talvez tenha sentido que não deve interferir, mesmo
assim retoma o ato e toca o ombro da criança. O menino continua chorando agora
mais freneticamente, ele se ajoelha e pergunta o nome, a criança continua
apenas a dispersar sons de choro, ele então com toda a delicadeza de quem sabe
o que é sofrer levanta a cabeça do menino devagar, o poste acima refrete a sua
luz indiscreta sobre eles, as gotas da chuva parecem estar em câmera lenta
quando atingidas pelos raios da iluminação, e caem também tristes sobre os dois
corações que aparentemente padecem do mesmo mal, ele não consegue desfaçar a
surpresa quando fixa o olhos no rosto de pele infantil, olhos marcados de
maquiagem borrada pela chuva, batom espalhado pelo rosto inteiro, e as lágrimas
que tornam se gotas únicas saídas do rosto e misturadas à chuva que insiste em
se tornar mais forte, ele por um instante procura palavras que se embaralham na
garganta querendo sair todas de uma vez, e não se ouve mais nada além dos
soluços finais do choro cessante do garoto e as gotas de chuva que tocam uma
sinfonia natural ao tocarem o asfalto quente. Ele pergunta preocupado e curioso
o que um garoto tão novo faz na rua sozinho, e ainda por cima maquiado e
desolado? O pequeno abre a boca devagar e com uma voz tremula assim como as
mãos, explica que fugiu de casa porque não gosta de ser quem ele é. O homem
sente no peito o coração se desintegrar e se sente a frente de um espelho e
logo imagina uma vida ao qual não teve coragem de ter. Por instinto pega o menino
no colo e leva para casa, sem se importar novamente com os paralelepípedos da
calçada. Cuida do garoto como se cuidasse dele mesmo, e observa os movimentos
femininos da criança, tanta delicadeza em segurar a xicara de chocolate quente,
o jeito que cruza as pernas no sofá. Os dois não pronunciam muitas palavras.
Depois de algum tempo de um na presença do outro sem que nem um nem o outro
trocassem grandes frases, o homem se levanta e vai até a janela e vê que a
chuva já tinha cessado e então conduz o garoto até sua casa, sem que antes
dissesse o que sua alma gritava que ele dissesse, viva! Viva enquanto há tempo.
O homem vê o menino se afastar lentamente pelo caminho de pedras de um jardim
florido, de uma casa modesta pintada de verde bem claro, e deseja por tudo que
ele tem, deseja ser aquele menino e talvez seja, talvez os dois sejam um,
passado e futuro em conjunto, um querendo ter poder supremo na vida do outro.
Ele só queria uma nova chance de fazer o que sempre quis.

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