terça-feira, 6 de março de 2012

Minha Doce Luiza



 Hoje sonhei contigo mais uma vez, na verdade, acho que era mais uma lembrança adormecida. Lembrei-me de quando éramos crianças e corríamos pelados pelos campos sem vergonha ou pudores; os capins esfregando suas ramas verdes em nossas pernas, aquilo dava uma sensação engraçada, e você sempre ria descontrolada. O vento parecia tentar levar nossos cabelos a caminhos que só ele conhece. Devo confessar que ainda sinto muita vontade de repetir essas nossas experiências malucas. Você deve ter se tornado uma linda mulher, quando criança, tua beleza já era admirável, creio que o tempo tenha moldado teu corpo trazendo protuberantes formas, linda e altiva... Engraçado como eu te imagino. Nunca entendi as crianças, sempre costumava dizer isso, lembras? Tu rias e me dizias que como eu não poderia saber se eu era uma. Nossas conversas eram adultas de mais pra nós. Sexo era assunto favorito, estávamos sempre mergulhados numa luxúria infantil; às vezes penso que nunca fomos crianças.
Lembra quando fugi a noite e fui até sua casa, subi na sacada do quarto e entrei pela janela, você estava linda adormecida com uma camisola de seda branca que deixava escapar partes de tua pele, também muito branca. No quarto estavam espalhadas bonecas de porcelana com cabelo de verdade, eram teus cabelos, sua mãe costumava costurar mechas a elas. Caminhei cuidadosamente até a beirada da cama e me ajoelhei, por um segundo admirei o teu rosto; o tempo parecia ter parado como em uma fotografia. Senti uma vontade inexplicável de beijar-te a boca tive a impressão que alguém falava aos meus ouvidos. Me aproximei devagar, meus lábios estavam avermelhados devido o frio do outono; a luz da lua entrava sorrateira pela janela, que deixei aberta por descuido ou propositalmente, não sei ao certo. Tua boca rosada, carnuda, aquecida pelo sono. Feixei os olhos lentamente como por instinto, senti tua respiração pesada e toquei levemente meus lábios aos teus, não conseguia deixar de pensar naquele velho conto de fadas. Os meus pêlos finos de menino ouriçaram-se, teus olhos se abriram e pareciam me hipnotizar com o verde esmeralda que emanava deles; tu esboçaste um leve sorriso com o canto da boca movimento tão teu. Deitei-me ao teu lado, em sua cama, e com movimentos leves tu te despias; beijos com mais volúpia eram trocados por nossos corpos em formação. Minha boca percorria teu ventre, e chegando ao fim de tudo, no teu sexo úmido, era a primeira vez que o via tão de perto, alguns pêlos aloirados denunciavam que a infância dava espaço a adolescência, enquanto teu corpo se retorcia como uma cobra apressada em capturar sua presa. Eu saboreava o gosto de mulher que trazia entre as pernas; lambia como se quisesse devorá-la, queria que fosse só minha, doce Luiza, assim que eu sempre a chamava não é mesmo?
Agora depois de tudo que passou, me arrependo de algumas coisas não feitas, não vividas. A maior delas é não ter falado que a amava desesperadamente, eu te amava, minha doce Luiza...
Oh, que indelicadeza a minha falando freneticamente do nosso passado, esqueci-me de dizer como estou no que me tornei. Bom, eu sempre fui o garoto estranho sem amigos - a não ser você minha querida - a melhor de todas as amizades. Introspectivo, não mudei em muita coisa, a não ser a aparência física, eu era franzino, hoje sou forte, forte no sentido de músculos - não no sentido de gordo - tia Maria sempre gostava de usar essa expressão para não ser indelicada. No que diz respeito ao meu interior continua o mesmo, o mesmo menino-homem; não tenho muita coisa, apenas uma casa antiga com moveis antigos; até eu já estou me tornando antigo em conviver com tanta velharia. Ás vezes eu penso em ter uma casa moderna, com paredes de cores vibrantes, deixar um pouco meus blues e ouvir musica nova, mas se o fizesse penso que não seria eu, entende? Também comecei a escrever, estava ansioso para falar isso para ti. Sinto-me bem quando escrevo, acho que se tornou minha válvula de escape. Costumo escrever coisas tristes e melancólicas, talvez minha alma seja assim sombria, remota. Tenho uma vida promiscua e não entendo isso como uma coisa ruim, “ela” não é tão feia quanto às pessoas pintam, dizem que a alma não tem sexo, mas e se tiver?
Nas festas de família que meu pai sempre insistia em organizar você sempre estava lá. Achei uma caixa com varias fotografias, você sempre aparece segurando minha mão, rosto pacifico, beleza incontestável. Um dia me disse que adorava ser fotografada, pois queria que sua beleza fosse eternizada; falou-me também que queria ser pintada em um quadro bem grande, e que fosse deixado, de herança para os netos e bisnetos, como se mostrasse a primeira de uma grande raça. Em falar nisso, conseguiste tua pintura?
Lembra-te do dia do lago? Saímos à tardinha, você e eu em direção ao lago de águas límpidas, que chegavam a se assemelhar com cristal, enquanto admirava as águas do lago, tu despias a ti rapidamente, mergulhando ágio no lago; parecia ser o seu elemento, estava tão à vontade... Eu por minha vez, fiz o mesmo, deixando a mostra meu corpo imaturo, agora com pêlos que ainda não tinha me acostumado em tê-los. Mergulhei também, sendo envolvido pela água morna e cintilante, nadei em tua direção você estava numa pedra, nua, os cabelos vermelhos contrastavam com a pele pálida, os cachos desfeitos pela água, estava tão linda, subi na pedra, nos olhávamos como se um procurasse no outro as diferenças entre masculino e feminino. Senti mais uma vez como se vozes soprassem meus ouvidos, então me aproximei de ti, beijei como se o mundo fosse acabar ali, e se assim sucedesse sei que estaria feliz. Tuas mãos pequenas passeavam por minha pele fazendo caminhos desconhecidos, intocados, minha boca subia e descia no teu pescoço, misturando minha saliva a água doce do lago prateado, meu corpo comprimia o teu sobre a pedra, enquanto éramos cobertos por um manto de gotículas de água que caiam da cachoeira, que desaguava ao nosso lado. O sol que também participava, nos iluminava com a luz do entardecer; o céu refletia no lago suas cores de vários tons azul, vermelho e laranja. Rolavamos na pedra lavada, tuas pernas me abraçaram como se além de mim quisessem abraçar o mundo, então senti o teu calor, calor de mulher, maciez libidinosa, enquanto eu me punha dentro de ti, teu sangue de pureza escorria sobre a rocha, e se fundia com a água morna. Os movimentos de minha anca com delicadeza ia nos transformando em seres que foram feitos para o sexo, teus seios recém-saídos do corpo simbolizavam a luta da  menina que sonhava em ser mulher, meus sentidos pareciam ter sido aumentados. Tudo ali era novo, tudo era encantado, sentia teu coração pulsar mais forte, bombeando a vida que corria em tuas veias.
Depois que tudo cessou fiquei abraçado a ti, abraçado a minha doce Luiza. Apesar da água, ainda conseguia sentir o cheio dos teus cabelos. Naquele instante tive a certeza que eu tinha nascido pra viver esse momento.
No dia seguinte fui à tardinha a tua casa, ansioso em vê-la queria te abraçar e te dizer o quanto a amava. Sentia como se naquela única vez que fiz amor, tivesse envelhecido 10 anos. O meu rosto queimava, um sorriso insistente, porem ao chegar tive a noticia de que não havia mais Luiza. Porque me deixou? Porque não disseste-me que a tua palidez que tanto me fascinava era uma palidez doentia? A morte a tinha lambido com seu manto escuro; e eu sem ter mais a quem amar, escrevi essa carta imaginando como você seria se não tivesse partido, daria tudo pra sentir a ti nem que por um segundo sequer. Porque te foste, minha doce Luiza? Eu ainda te amo, e sei que minha vida ainda está conectada a sua transcendendo o abismo da morte.

Nenhum comentário:

Postar um comentário