Tenho acompanhado Alexandra há muito tempo, sempre
observando, sempre escondido. Ainda me lembro a primeira vez que a vi, estava
sentando na calçada de minha casa; o dia estava frio, tinha acabado de chover e
o sol ainda estava entre as nuvens; pequenos raios escapavam e pareciam ser
atraídos pela sua pele morena, eles a iluminavam assim como um holofote de
teatro, e ela lógico, era a estrela principal. Alexandra passou por mim com um
pequeno sorriso que esticava os lábios carnudos, me senti como se tivesse
encontrado a minha vida naquela tarde fria de domingo. A cada dia vivido me sentia mais ligado a ela
sempre a observando, acompanhando suas peripécias de menina moça, sempre a
procura de experiências, a busca incessante do novo, do desconhecido. Não consigo
contar às vezes que de longe, a vi debruçada sobre os joelhos e podia ouvir o seu
choro baixinho, ali ela parecia ser tão frágil, tão humana, tão menina... A
complexa moçoila logo se transformou em uma linda mulher. Ao oposto do choro
interno, ela tinha também uma belíssima gargalhada, alta e espalhafatosa, tão
dela parece que foi composta como uma música unicamente para ela. Alexandra
sempre foi cercada de gente, alguns ela considerou importantes, por um tempo,
outros talvez para a vida toda. Contorcia-me de vontade de tocá-la, de
conversar com ela, aquelas pessoas não sabia o privilégio que tinham de
conviver com ela. Cada lágrima de Alexandra também era minha lágrima,
chorávamos juntos a distancia, pelas perdas que passaram por sua vida e creio
que não foram poucas, entretanto sei que a ajudaram de alguma forma. A
juventude parece ser material construtor de sua vida, bem sei que quando o
tempo esvoaçar sobre seu corpo não tocará seu espírito, ela sempre será jovem
de coração, sempre será aquela menina esguia que vi descer a rua. Uma coisa que
me chama muito minha atenção em relação a ela é a sua sensualidade, o jeito que
meche as mãos, o jeito que fala às vezes desajeitada, o pouquinho de cada um
que ela absorve. Gosto do rosto dela. Gosto quando ela se veste toda invocada
por que vai conhecer mais um que será seu amor por mais essa noite, costumo
ficar esperando ela sair de casa e fotografo com meu olhar cada segundo
enquanto o vento esvoaça seus cabelos tingidos na tentativa de obter um
vermelho; gosto quando ela se pinta, pinta a boca bem marcada de batom
escarlate; emana libertinagem de mulher. Lembrei-me de vê-la a beira mar vendo
as ondas lamberem a praia e ela parecia se comunicar com as águas por telepatia,
estava ela imóvel observando o sol descendo lentamente até tocar o mar e por um
segundo acredito ter ouvido Alexandra sussurrar sozinha – Há algo de maior no
sol e no mar... Deus se faz presente aqui - Alexandra usufruiu de varias
paixões ou talvez as paixões tenham usufruído do seu espírito para se tornarem
concretas. Essa ânsia de se sentir amada, desejada, feliz; deu a vida dela vários
amores; amores casuais, amores de uma noite, amores de olhares e alguns deles
amores para a vida toda. Estes sentimentos que em um dia pareciam ser tão
maravilhosos, tão lindos, mágicos e no outro faziam descer dos olhos grandes de
Alexandra lágrimas quentes que formavam caminho pelo seu rosto e chegavam à
boca forçando-a sentir o sabor da desilusão. Apesar de tudo ela sempre tinha
alguém, desde aquele homem interessantíssimo, inteligente que conheceu na
balada e logo se entrelaçaram ferozmente nos lençóis de uma cama de motel, até
aquele cara carinhoso e cheio de expectativa a quem ela jurou amor eterno, ela
sempre jurava achando que essa seria a ultima vez. Sempre havia alguém por
quem, no momento, valia à pena se arriscar. Recordei-me repentinamente de
Alexandra brincando com suas bonecas, doce meninice. Logo aquele ato tão
infantil daria espaço às descobertas da puberdade. Logo estaria ela com seus
lábios colados a de um garoto, e mais tarde certa do que queria, aos celebres
16 anos, perderia em forma de sangue o que restava de sua inocência sexual. As
amizades de Alexandra como todo o resto de sua vida foram cheias de idas e
vindas, tivera muitos amigos uns a traíram por seus próprios prazeres, porém os
outros, muitos, varreram qualquer vestígio dessa poeira podre para o
esquecimento. O despertar do frágil coração de Alexandra para o amor foi mais
que importante para definir a Alexandra que conheço hoje, me arrisco em dizer
que esse talvez tenha sido o único, e sempre esperado por todos, amor
verdadeiro. Eu a observava sempre alegre e sorridente embriagada no mais
saboroso dos vinhos; parecia ter transcendido para outra dimensão. Eu apesar de
saber que de onde vinha toda aquela alegria, que era como um rio que brotava
daquele rapaz e banhava todo o coração de Alexandra, me sentia feliz por que
ela estava feliz, esse foi o primeiro, não soube lidar com a fragilidade de
cristal de Alexandra; desperdiçou o seu puro amor. Ela então prometeu a se
mesma, para sempre estar longe dos dolorosos sentimentos humanos, mas
felizmente ela é humana demais pra resistir a sua própria humanidade. E eu
continuo aqui a observar a menina que hoje como mulher continua a descer a rua
e passar por mim todos os dias sem saber que, aqui em mim, reside a sua única e
verdadeira felicidade. Eu sei que Alexandra pensa que nunca encontrará o homem
da sua vida, mas ele está aqui, esperando ansioso o dia de se apresentar a ela,
e viverem o que a própria vida guardou pra nós o tempo todo. O tempo... Ele nos
fará feliz eu prometo a ti Alexandra.

gostei (:
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