Recebi um daqueles convites. Não daqueles convites de papel
com textura boa, com aquelas letras bem feitas por alguém que se dedicou a elas
por muito tempo, não um daqueles convites de papel perfumado e fita dourada,
foi só um daqueles convites comuns, escritos sem capricho em um papel amassado
de embalar pão, duas frases que chamavam a atenção para os erros de ortografia,
um daqueles convites entregues por um menino sujo e de sorriso falhado. Era um dos dias em que eu estava sem
sentimentos, não é muito comum se dizer que está “dessentimentado” nem sei se
essa palavra existe, mas ela está ai, se não existe eu a criei agora. Esse é o
momento que se está sem medo, sem a angústia comum, sem alegria, sem tédio, sem
luxúria, sem ansiedade... “Dessentimentado”!
Ao decorrer do dia fui vendo o orvalho evaporar das folhas recém-cortadas das árvores
da rua, sentado na corcova da janela guilhotina, com minha querida caneca em
formato de vaca, um tanto ridícula eu sei, porém eu acho bonitinho. Depois que
recebi o recado continuei uma taça cheia de nada, mas só que pensava no
convite, não pensando se aceitaria ou não, já tinha uma opinião formada,
pensava em como seria, tento aquela velha premeditação ante- ação, talvez
fiquemos mais preparados, talvez dê até para ensaiar na cabeça os movimentos,
olhares, falas, dramas se necessário. Então deixei de ser dessentimentado porque
me apareceu uma ansiedade latente, vagarosa como uma lesma deixando o seu
rastro brilhante na parede húmida do quintal, e a ansiedade anula o
dessentimentalismo. Passei boa parte do tempo enfiado no canto que guardo os
livros, alguns já comidos por traças, outros faltando partes importantes,
espirrei muito por causa da alergia a poeira. Decidi andar um pouco, há muito
tempo não via o sol pela manhã, aquele cheiro de frio e as nuvens que beijavam
a terra, encontro perfeito, no parquinho não tinha muita gente a não serem umas
duas ou três pessoas que passeavam de bicicleta pela viela de concreto com as
bordas pintadas de um tom escuro de vermelho. A pequena lagoa parecia viva, um
alguém, com nome e sobrenome e sonhos e amores e dores, como qualquer um, e
porque não dizer até feliz quem sabe. As libélulas azuis e vermelhas com seus
30 mil olhos pareciam me julgar enquanto davam rasantes sobre o espelho d’agua,
tão sentimentais, elas. Fiquei um tempo sentado no banco, esperando o tempo que
passava e não cumprimentava. Voltei pra casa devagar enquanto comia pétalas de
uma rosa branca que colhi no jardim de uma casa meio torta pra direita no fim
da rua vazia, desde criança não sentia o sabor do cheiro das rosas. De novo a
memoria fotográfica do convite assinado com letras miúdas meio borradas pelo
suor da mão do menino entregador. Mesmo sabendo do compromisso marcado, mesmo
sabendo que não havia deixado retorno claro, sabia que ele também sabia que eu
iria. Tive a impressão que ele chegaria batendo escandalosamente na porta de
vidro, e não obtendo resposta da minha parte, quebraria o vidro e invadiria,
assim como ele costuma invadir as coisas não materiais, mas não aconteceu. Voltei-me
para ansiedade outra vez, e olhei o relógio barulhento na parte mais estreita
do corredor, sentia aquela vontade, por quê? Não sei, só sei que sentia. Que
vontade? Não sei também, só sei que sentia. Procurei a minha carteira de
cigarros, depois o meu isqueiro dourado, que nem aqueles isqueiros de filmes
americanos que o personagem malvado joga ele aberto e aceso no fio de gasolina
pra explodir alguma coisa, não encontrei, acabei acendendo no fogão mesmo.
Enquanto fumava olhava as vigas de madeira envernizadas do teto, tentava
procurar figuras comuns, assim como se observasse nuvens, não encontrei. Ainda
tinha algumas ereções com certos tipos de cigarros, isso acontecia com mais
frequência no inicio, quando comecei a fumar eu era um garoto dentuço meio
corcunda como se desejasse fugir das pessoas, talvez quisesse mesmo,
aproveitando a não esperada excitação subi as escadas forradas com um carpete
de gosto duvidoso, fui direto ao quarto, tirei a roupa fazendo charme para o
espelho posicionado a minha frente, amarrei os cabelos que caiam nos ombros, ainda
ia decidir se me desfazia deles ou não.
Por alguns segundos observei o meu corpo, estava magro, porém ainda
tinha partes que me enchia de orgulho, tinha um orgulho incomum por ele, só não
tinha orgulho da falta de pelos em alguns lugares. Passei a mão levemente pelos
lábios, depois pescoço, tórax, barriga, umbigo, os pelos cerrados do púbis... O
braço direito se movimentava enquanto o esquerdo segurava o cigarro, e outra
vez estava isento de pensamentos, não sei quanto tempo durou até que esporrei
no espelho, e me virei. Enquanto voltava para me vestir vi que alguém que espiava
pela janela, olhavam da casa vizinha, que tinha uma família de fanáticos
religiosos que esperavam incessantemente o fim do mundo. Não me importei muito
com isso, vesti a calça e voltei pra corcova da janela, acho que devo ter
cochilado um pouco, quando percebi o dia já ia embora e com ele vinha às
adormecidas borboletas no estômago. No bilhete dizia as sete na ponte do
riacho, ele sabia que esse era um dos meus lugares favoritos nessa cidade de
merda. Fui para o banho e demorei um pouco embaixo do chuveiro, respirando o
vapor da água quente, talvez esperançasse que a agua lavasse mais que a sujeira
física. Vesti uma roupa não muito bem escolhida e sentei no meio da sala,
esperando a autorização do relógio para seguir caminho. Sai de casa meio
disperso, meio introspectivo, não estava triste, mas não estava feliz
também. Lembrei-me de cada detalhe da
ultima conversa, muita coisa foi dita, sentimentos foram esparramados na mesa
como cartas de baralho em um jogo de pôquer. Disse muita coisa, tive medo, tive
possessão, tive inquietação, não disse que amava, mas também não disse que não,
o que eu disse ali naquela hora era verdade para àquela hora, na verdade eu
torcia para que demorasse, para que se estendesse. Vi uma estrela cadente, foi
tão rápida e luminosa, por um momento pensei que tinha sido alguns fogos de
artificio, até esperei aquele barulho irritante, cabuuuum!! Nada. Então tivesse
certeza de que era uma estrela, e fiz um pedido, dizem que não se podem contar
os pedidos, mas que se dane! Pedi aquela estrela que me tirasse o nojo que
sinto das outras pessoas. Caminhei com passadas leves pela estradinha calçada
de pedras redondas enfiadas no barro, possivelmente batizadas com suor escravo
da época colonial, de longe já avistei as suas pernas balançando, os pés
descalços, muito pequenos, com unhas curtas, desproporcionais ao seu tamanho.
Jogava pedras no riacho verde de lodo. Antes que pudesse falar ele correu sem
calçar os chinelos de couro, e me abraçou forte, não correspondi, nem sei por
quê. Sentamos da beirada da velha ponte de madeira que tinha um arco todo
cruzado, que formavam vários triângulos de todos os tamanhos, mas apenas
triângulos, isso me intrigava. Ele meio tímido só me olhava com um meio sorriso
e os olhos denunciavam que queria me dizer algo de grande importância, esperei,
ele então disse meio entre os dentes: - Pensei muito em ti! Eu não conseguia
parar de pensar o que alguém poderia pensar sobre mim. Sentia-me como se toda
presença fosse insuportável, como se toda presença me denegrisse, como se
aquele sorriso tão inocente no rosto do outro me fizesse mal, e fazia mesmo. E
outra vez lá estavam às libélulas molhando suas bundas fininhas na água verde,
e me olhavam com seu olhar de 360°, pareciam esperar que eu dissesse alguma
coisa. Ele se empolgava enquanto contava o próprio dia, e eu continuava ali,
apenas um espantalho, inerte, eu o ouvia, mas não entendia. Algum tempo depois,
tomei coragem pra me pronunciar, talvez não fosse falta de coragem, era apenas
a não vontade de falar, de me expressar, de deixar ser visto, mesmo assim
toquei em seu queixo com pelos ralos da barba mal feita, começavam a crescer,
até fizeram leve cócega na minha mão. Olhei nos olhos ele piscava muito, acho
que tinha algum problema de visão, as palavras vinham e ficavam entaladas no
que minha mãe costumava chamar “nó da garganta” que era um atributo masculino,
talvez por isso as mulheres não se enrolassem tanto ao falar palavras com peso
de elefante. Ele me olhava atentamente. Não quero mais vê-lo... Simples e
grosseiro, foi assim que consegui me expressar. Meus ouvidos até se prepararam
para ouvir um porque bem relevante, mas nada, apenas o som da água nas pedras e
o sorriso, o sorriso que se desfazia devagar, cheio de decepção. Acostumei-me a
ficar sozinho, me acostumei a ver graça na minha sobra, acostumei a ficar
calado o dia todo. Quando o silêncio se fez presente e aquela angustia abria
caminho furiosa pelo meu peito, dei as costas, uma ultima olhada pra traz,
aquele olhar por cima do ombro. Ele continuava lá imóvel, parecia ser parte da
paisagem. Caminhei de volta pela rua de pedras, vi outra roseira carregada de
rosas vermelhas, não as quis, elas deixam vestígios na boca, queria o agora sem
futuro. Abri a porta e logo veio aquele cheiro de casa vazia, entrei sorrateiro
como se quisesse preservar o sono de alguém, mas não havia ninguém. Desabei no
chão da sala em cima do tapete que comprei por telefone, diziam ser indiano,
não acredito, mas gosto dele. A minha respiração começou a acelerar
gradativamente, e o rosto se contrair, até que ecoou por todas aquelas paredes
mal pintadas, um grito, agudo e desafinado, um choro convulsivo, as lagrimas
quentes enfeitavam meu rosto. Mas não chorava pela perda, chorava pelo que
tinha adquirido, aquele pranto era o pranto da certeza de que não cabia mais
ninguém atrás da minha muralha. Ainda choroso corri para o meu canto, passos
desesperados para a torre das ruinas da velha igreja, subi pela escada
enferrujada. Olhei de lá de cima o vento que maleava a grama robusta lá em
baixo, me veio à ideia de pular, talvez ouvisse o barulho dos ossos quebrando
no chão, algumas lagrimas caíram de lá de cima. Voltei e me sentei no centro da
torre, pelo menos ali o vento falava ao meu ouvido.
