E de repente
quando me vi estava no meio do campo verde e corria desesperado, sentia o medo
impor seu sabor ao meu coração que batia descontroladamente suplicando pela
ausência daquele sentimento. Minhas pernas davam passadas largas e tremiam
freneticamente, minhas vestimentas escuras se confundiam com o negro da noite,
que parecia rir do meu pavor. E quanto mais corria mais se aproximava de mim e
meus pelos se ouriçavam de pavor enquanto gritos abafados saiam estridentes de
minha garganta, que doía. Continuava correndo pelos campos que não eram mais
verdes, agora estavam completamente em meio às trevas, minhas pupilas se
esforçavam para encontrar o mínimo de luz possível, mas parecia inútil. A terra
começou a tremer e eu parei e observei, uma luz avermelhada começava sair das
fendas criadas no solo, só então eu pude ver que minhas roupas estavam rasgadas
e minha pele embebida em sangue, ele era atraente e tinha cheiro bom, um
vermelho vívido. Desviei minha atenção de volta as fendas que formavam desenhos
no chão, e por elas saíram dedos e depois mãos e pés, muitos pés e mãos, em
seguidas braços e olhos, bocas e cabelos, asas de morcego. Pareciam pessoas só
que de uma beleza sobrenatural, altos e de olhos grandes, tinham todas as
variantes de cores humanas, uns riam com a boca fechada, outros apenas olhavam
com ternura, se aproximaram de mim sem tocar o chão usando suas enormes asas de
morcego, o meu pavor aumentava gradativamente enquanto eles se aproximavam de
mim, até que o maior deles voou rápido e se pôs a minha frente, o vento do
movimento de suas asas me derrubou ao chão, homens e mulheres me olhavam. Ele
se aproximou e me estendeu a mão e eu em um impulso aceitei o convite velado,
levantei-me com sua ajuda, e ele apontou com o dedo indicador da mão esquerda
que tinha um anel enorme com uma pedra azul, ele apontava para onde
anteriormente estariam as fendas, elas agora não mais existiam o campo votou a
ser verde agora iluminado pela lua cheia, os homens e mulheres, que juntamente
com ele saíram da fenda, se entrelaçavam fundidos pelo sexo, rolavam e gemiam
na grama e pareciam serem células de um só corpo gigantesco que se espalhava
pelo campo inteiro, formava uma figura conhecida, porem não consegui
identificar qual era. Ele me olhava enquanto continuava a apontar, voltei minha
atenção as minhas roupas e aos cortes de minha pele e eles continuavam a
sangrar e a ter cheiro bom. Eu observava com um temor sorridente, comecei a ri
descontrolado, e minha gargalhada era seca e tenebrosa, tive medo de mim mesmo.
Eu o olhava e esperava que ele falasse alguma coisa, mas ele mantia-se mudo e
isso me deixava a cada momento mais irritado, meus olhos doíam, pareciam estar
em chamas, queria entender o que acontecia, o porquê daquilo tudo, o porquê de
eu estar ali. Voltei minha atenção mais uma vez para meu corpo que continuava a
sangrar, e quando olhei de novo para a orgia, não estava mais lá, nem mesmo ele
estava lá. Tudo tornou-se escuro novamente e o pavor mais uma vez persegue meu
coração, tentei correr e não consegui, estava preso ao chão, teve novamente a
sensação de que algo me perseguia e me assombrava, ouvi gargalhadas secas e
tenebrosas e percebi que elas eram minhas, porem eu não tinha rido, parecia
estarem dentro de minha cabeça. De repente a lua novamente sai dentre as nuvens
e meus olhos conseguem detectar pequenos focos de luzes ao meu redor, parecia
luz refletida em espelho, e era. Com a luz do luar pude ver que eu estava preso
em uma redoma de espelhos que tinham apenas uma abertura por cima, fiquei
sufocado por um instante, logo me acalmei e olhei fixamente nos espelhos e em
vez de refletirem a minha imagem refletiam a imagem dos homens e mulheres que
saíram da fenda, olhavam para mim com fome de poder, fui virando formando um
circulo perfeito prestando atenção em cada imagem, cada figura, eles
pareciam-se comigo, e cada um parecia-se com o próximo e assim sucessivamente fiquei
meio assustado e logo me deparei com o maior de todos os espelhos e ele estava
lá, imóvel fitando-me com seus olhos gélidos, olhei com surpresa e o confrontei
com um olhar, senti vontade de fugir e parecia não ter como, senti o vento que
vinha de cima da redoma e esfriava a minha pele, então tive um louco pensamento
e comecei a tentar voar com asas que não tinha, batia os braços loucamente,
meus pés se desligavam do solo vagarosamente e eu sentia uma ânsia que nunca na
vida havia sentido, a altura foi aumentando
e eu batia os braços mais rápido, sentia o cheiro do vento entrar pelas
minhas narinas sentia uma felicidade incontrolável, na verdade não queria
controlá-la, voava mais auto a esperança traspassava meu coração como uma
flecha, parecia que eu enfim deixaria para traz todos os meus demônios. Logo
toda minha esperança torna se pó quando sinto uma força puxar-me para baixo,
bato os braços mais rápido ainda mesmo assim continuo a descer me sinto
desesperado como se tivesse morrendo afogado; eles voltam a me puxar, e quando
enfim caio ao chão bato com violência a cabeça no espelho em que ele está
reduzindo-o a minúsculos cacos, os outros se quebrando um a um. Minha vista vai
ficando turva e logo não enxergo nada, apenas ouço o barulho dos espelhos se
espatifando. O que me lembro depois é de ter acordado sendo apenas eu, sem
espelhos, ou demônios, cortes ou sangue.

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