quarta-feira, 9 de maio de 2012

Confronto



E de repente quando me vi estava no meio do campo verde e corria desesperado, sentia o medo impor seu sabor ao meu coração que batia descontroladamente suplicando pela ausência daquele sentimento. Minhas pernas davam passadas largas e tremiam freneticamente, minhas vestimentas escuras se confundiam com o negro da noite, que parecia rir do meu pavor. E quanto mais corria mais se aproximava de mim e meus pelos se ouriçavam de pavor enquanto gritos abafados saiam estridentes de minha garganta, que doía. Continuava correndo pelos campos que não eram mais verdes, agora estavam completamente em meio às trevas, minhas pupilas se esforçavam para encontrar o mínimo de luz possível, mas parecia inútil. A terra começou a tremer e eu parei e observei, uma luz avermelhada começava sair das fendas criadas no solo, só então eu pude ver que minhas roupas estavam rasgadas e minha pele embebida em sangue, ele era atraente e tinha cheiro bom, um vermelho vívido. Desviei minha atenção de volta as fendas que formavam desenhos no chão, e por elas saíram dedos e depois mãos e pés, muitos pés e mãos, em seguidas braços e olhos, bocas e cabelos, asas de morcego. Pareciam pessoas só que de uma beleza sobrenatural, altos e de olhos grandes, tinham todas as variantes de cores humanas, uns riam com a boca fechada, outros apenas olhavam com ternura, se aproximaram de mim sem tocar o chão usando suas enormes asas de morcego, o meu pavor aumentava gradativamente enquanto eles se aproximavam de mim, até que o maior deles voou rápido e se pôs a minha frente, o vento do movimento de suas asas me derrubou ao chão, homens e mulheres me olhavam. Ele se aproximou e me estendeu a mão e eu em um impulso aceitei o convite velado, levantei-me com sua ajuda, e ele apontou com o dedo indicador da mão esquerda que tinha um anel enorme com uma pedra azul, ele apontava para onde anteriormente estariam as fendas, elas agora não mais existiam o campo votou a ser verde agora iluminado pela lua cheia, os homens e mulheres, que juntamente com ele saíram da fenda, se entrelaçavam fundidos pelo sexo, rolavam e gemiam na grama e pareciam serem células de um só corpo gigantesco que se espalhava pelo campo inteiro, formava uma figura conhecida, porem não consegui identificar qual era. Ele me olhava enquanto continuava a apontar, voltei minha atenção as minhas roupas e aos cortes de minha pele e eles continuavam a sangrar e a ter cheiro bom. Eu observava com um temor sorridente, comecei a ri descontrolado, e minha gargalhada era seca e tenebrosa, tive medo de mim mesmo. Eu o olhava e esperava que ele falasse alguma coisa, mas ele mantia-se mudo e isso me deixava a cada momento mais irritado, meus olhos doíam, pareciam estar em chamas, queria entender o que acontecia, o porquê daquilo tudo, o porquê de eu estar ali. Voltei minha atenção mais uma vez para meu corpo que continuava a sangrar, e quando olhei de novo para a orgia, não estava mais lá, nem mesmo ele estava lá. Tudo tornou-se escuro novamente e o pavor mais uma vez persegue meu coração, tentei correr e não consegui, estava preso ao chão, teve novamente a sensação de que algo me perseguia e me assombrava, ouvi gargalhadas secas e tenebrosas e percebi que elas eram minhas, porem eu não tinha rido, parecia estarem dentro de minha cabeça. De repente a lua novamente sai dentre as nuvens e meus olhos conseguem detectar pequenos focos de luzes ao meu redor, parecia luz refletida em espelho, e era. Com a luz do luar pude ver que eu estava preso em uma redoma de espelhos que tinham apenas uma abertura por cima, fiquei sufocado por um instante, logo me acalmei e olhei fixamente nos espelhos e em vez de refletirem a minha imagem refletiam a imagem dos homens e mulheres que saíram da fenda, olhavam para mim com fome de poder, fui virando formando um circulo perfeito prestando atenção em cada imagem, cada figura, eles pareciam-se comigo, e cada um parecia-se com o próximo e assim sucessivamente fiquei meio assustado e logo me deparei com o maior de todos os espelhos e ele estava lá, imóvel fitando-me com seus olhos gélidos, olhei com surpresa e o confrontei com um olhar, senti vontade de fugir e parecia não ter como, senti o vento que vinha de cima da redoma e esfriava a minha pele, então tive um louco pensamento e comecei a tentar voar com asas que não tinha, batia os braços loucamente, meus pés se desligavam do solo vagarosamente e eu sentia uma ânsia que nunca na vida havia sentido, a altura foi aumentando  e eu batia os braços mais rápido, sentia o cheiro do vento entrar pelas minhas narinas sentia uma felicidade incontrolável, na verdade não queria controlá-la, voava mais auto a esperança traspassava meu coração como uma flecha, parecia que eu enfim deixaria para traz todos os meus demônios. Logo toda minha esperança torna se pó quando sinto uma força puxar-me para baixo, bato os braços mais rápido ainda mesmo assim continuo a descer me sinto desesperado como se tivesse morrendo afogado; eles voltam a me puxar, e quando enfim caio ao chão bato com violência a cabeça no espelho em que ele está reduzindo-o a minúsculos cacos, os outros se quebrando um a um. Minha vista vai ficando turva e logo não enxergo nada, apenas ouço o barulho dos espelhos se espatifando. O que me lembro depois é de ter acordado sendo apenas eu, sem espelhos, ou demônios, cortes ou sangue.

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