domingo, 9 de dezembro de 2012

Sem Título




É o quarto dia seguido em que o céu desaba sobre o telhado velho, enfeitado com pequenos países de musgo verde agressivo. Tenho arrastado os chinelos de couro, aqueles que têm um cheiro agradável- insuportável de velharia pela casa como quem procura alguma coisa, alguém quem sabe? Joguei a TV pela janela do quarto de cima na ultima vez que tive uma recaída, talvez tenha sido uma coisa boa, ela sempre ficava gritando e querendo a todo custo me ensinar, preceitos e preconceitos que não cabem em mim, que enfeiuram minha testa, que já demonstra as linhas de tempo, cheias de imposição, marcando pensamentos que já se foram. Preciso falar das flores, tive um cuidado especial com elas, sabia que você se alegraria com a vivacidade delas, não fui muito feliz no meu posto de cuidador de pétalas, é com muito aperto no peito que digo que estão todas mortas, acho que devo ter colocado um adubo estragado, não sei se adubo se estraga, ou talvez tenham sido as chuvas, o frio, lembra elas eram tão sensíveis, eu as cuidei, até acordei cedo! Sei que você se decepcionou, mas o que se podia esperar de um velho que vive enfiado em um robe vermelho e com perolas falsas no pescoço? Tâmara foi a primeira a desfalecer, chorei a noite inteira era minha favorita, acho que gostava do fato de ela ter todas as folhas voltadas pra si própria como se recusasse a entregar alguma coisa, talvez entregar-se, eu o fiz... A casa tem permanecido escura e em silêncio que só é quebrado pelos já descritos ruídos das sandálias. Não consigo atingir as notas, os dedos parecem que se recusam e a garganta cansou, esmoreceu-se. Desculpe por lhe vomitar todos os meus problemas sem prévias, é que preciso dividir, já não consigo mais olhar para as janelas elas parecerem me apontar, me cobrar algo, mas o que ei de fazer, o que tenho eu a oferecer? Tenho sentido de novo aquelas tonturas, e não é por causa dos cigarros e do conhaque. Ah!! odeio você seu maldito! Sempre com essa merda de olhar de deus, sempre acima de tudo, sempre com essa roupa branca, limpa! Vá pro inferno!! Desculpe! Tenho sentido uma saturação de emoções contidas, as paredes são boas ouvintes, mas preciso de reações humanas. Sinto uma revolta absurda, revolta dos rostos que já vi, dos sorrisos que ouvi, do sentimentalismo de bosta que lançaram sobre mim! Onde estão vocês quando o que se resta são apenas olhos de maquiagem borrada? Promete que ninguém vai ocupar meu lugar? Promete! Promete! Quer uma xícara de chá? Lembrei da primeira vez que você deu o ar da graça em minha casa, eu estava sentado terminando uma de minhas composições, você entrou devagar pela porta entreaberta, me olhou atentamente, até que terminei, me assustei com tua presença não costumava receber visitas, mesmo assim fiquei intrigado com a sua presença magra e debochada que tomava todo o centro do meu tapete, como um perfeccionista que arruma cuidadoso os lápis da mesa. Sentei-me na poltrona com pequenas corujas bordadas assim como estou agora, e você quase como está ai, tenho certeza, previsível, você sorriu se apresentou, me entregou um papel meio amassado, um pouco sujo de café nas bordas, disse que tinha escrito uma musica de sucesso para mim, com um expressão, julguei audaciosa, peguei com um tanto de despeito, um certo nojo confesso, mas logo me empolguei com as estrofes rabiscadas ali, pedi que me mostrasse a melodia e você o fez sem grande espaço de tempo, e o resto você já sabe, subimos ao quarto decorado com detalhes exóticos, estive dentro de você, mesmo tendo a aparência mais feminina, isso até hoje ainda te atormenta não é mesmo? Não precisa mais me trazer a porra de sua caridade, não preciso que me mostre os cacos, eu os conheço perfeitamente. Eu só queria saber em que maldito espaço eu me escondi?! Eu costumava ser tão admirável, eu poderia culpar você, culpar a Deus, afinal sou humano também, e os humanos sempre culpam algo ou alguém pelos seus fracassos, prefiro me manter aqui, o ar quente das paredes às vezes me acalma. Deixe, deixe que eu mesmo recolha, era a ultima que faltava se despedaçar. Aquela tremedeira voltou, nos últimos dias não tenho mais nem conseguido tomar nada sem que derrame tudo. Sempre tive muito perto da linha do real e do imaginário, mas ultimamente acho que não tenho mais tanta noção do concreto e do abstrato, tenho tido sonhos estranhos, parei de ler antes de dormir, sonhava sempre com a história que lia assim que pegava no sono, fiquei meio atordoado, você acha mesmo que deveria procurar um medico? Acho melhor não, não suporto aquela arrogância por trás daquela roupa irritantemente branca. Eu só quero alguém que me ouça, eu quero ter a certeza de que existe alguém ai do lado de fora das janelas que saiba que eu estou aqui, que eu vivi alguma coisa nesse tempo, que talvez precise ser conhecida por alguém, só quero expor minhas ideias, tenho voz forte pra chamar atenção do mundo. Queimei todos os discos, só ouvia gritos, labaredas melódicas. Porque ainda tenho essas vontades? Já devia ter deixado de manchar meus olhos com sague. São deprimentes as gotas na janela, não acha? Só não queria sentir essa falta, falta de pensar maior, falta de ter dias que já foram, falta de dias que não passaram de ideias, de memorias irreais, falta de ter tirado sangue de alguém além de mim. Sempre me esforcei de certa forma, para estar no meio do grupo dos “estranhos” e agora que estou aqui, me sinto o estranho dos estranhos, não me encaixo, talvez não precise me encaixar, sou uma pedra solo. Lembra que eu já sofri por querer ter um talento que só eu tinha, só queria ser bom em alguma coisa que fizesse a diferença.