quinta-feira, 15 de março de 2012

Na Janela





Meu coração sangra, sinto uma dor aguda assim como a de um espinho perfurando a pele, toda vez que percebo o dia entardecer. O sol em sua magnitude de astro rei desce atrás das casas, do fim da rua, todas com a mesma arquitetura, diferenciadas apenas pela cor, cada uma pintada com cores suaves cada cor divergente uma da outra. Uma casinha me chamava à atenção, a segunda da direita, uma onde há uma árvore de frutos amarelados no jardim. Quando as luzes do crepúsculo acariciam suas paredes singelas formam um misto de cores que contrastam entre o vermelho e o amarelo, por um instante ela parece brilhar. Costumo olhar as nuvens que adquirem as mesmas cores da casinha, tão pacificas, levitam com tanta suavidade, sendo levadas em todas as direções pelo vento, será que uma nuvem é feliz em ser nuvem? Meu rosto está refletido na janela de vidro que é dividida em duas partes. Não entendo o porquê, tento forçar um sorriso contraindo os músculos da face, os dentes até aparecem, mas os meus olhos continuam enuviados, com a constante expressão de tristeza, não respondem aos meus comandos são como um adolescente rebelde, expressam o real sentimento sem importarem-se com qualquer exigência. O antigo cuco afixado solitário na parede cinza do quarto faz o seu alerta, indicando o horário que eu esperava ansiosamente. Por alguns instantes retiro a minha atenção das ruas encobertas pelo manto de folhas e do sol que termina de esconder-se, volto a atentar-me ao quarto nu, onde não existe nada mais além das paredes frias e do já descrito cuco na parede. Estranho como sinto uma atração inexplicável por esse ambiente embebido de trevas, clareado apenas pelos últimos raios de sol que hoje parece demorar mais que de costume a ir-se. O chão de madeira velha range a cada passo que se dá, algumas teias de aranha bordam a parede com sua renda fina. Ouço as risadas e logo todo meu metabolismo se desregula, e lá estão elas as famosas borboletas no estômago, apressado volto à janela e mais uma vez minha figura está projetada na vidraça, vestimentas turvas como se estivesse de luto por se próprio ou pela humanidade, a pele pálida e os lábios avermelhados devido às mordidas de ansiedade, distribuídas ao longo do dia. Seus passos são lentos, ele desfila pela rua calmamente, como uma bailarina que se apresenta, sempre atenta aos movimentos, aos menores, almejando ser agraciada pela perfeição. Ele ri gargalhadas estridentes, vivas, distribuídas e espalhadas ao sabor do vento, o seu rosto se torna tão lindo que meus olhos chegam a serem indignos de captar tamanha beleza, as maçãs do seu rosto se contraem e os olhos de cílios grandes apertam-se, faces angelicais. Assim como costuma fazer todos os dias, pula aquelas faixas amarelas pintadas com todo capricho ao meio do asfalto da viela estreita. Eu o observo sempre no mesmo horário, sempre andando com seus gracejos, e eu nessa janela, todos os dias, ouvindo seus risos sem motivo aparente, ele cheira felicidade, sempre vendo sua linda pele rosada, seus cabelos escuros que se movem com a menor brisa do entardecer. Queria que soubesse que estou sempre aqui, continuo parado, um mero espectador, um mero observador da vida, talvez da minha própria vida, um mero sonhador, cambaleando a beira do delicado abismo da loucura. Ele continua a caminhar, fazendo movimentos faceiros, ágil e suave como uma pluma. Ele some ao longe, mais uma vez. O piso range novamente enquanto me afasto da janela, voltarei amanhã para sentir o doce sabor da ambrosia de tua presença, nem que a distancia e por alguns segundos vê-lo passar, abençoado pelo sol. O mais belo lírio que já se houve noticia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário