Meu coração
sangra, sinto uma dor aguda assim como a de um espinho perfurando a pele, toda
vez que percebo o dia entardecer. O sol em sua magnitude de astro rei desce
atrás das casas, do fim da rua, todas com a mesma arquitetura, diferenciadas
apenas pela cor, cada uma pintada com cores suaves cada cor divergente uma da
outra. Uma casinha me chamava à atenção, a segunda da direita, uma onde há uma
árvore de frutos amarelados no jardim. Quando as luzes do crepúsculo acariciam
suas paredes singelas formam um misto de cores que contrastam entre o vermelho
e o amarelo, por um instante ela parece brilhar. Costumo olhar as nuvens que
adquirem as mesmas cores da casinha, tão pacificas, levitam com tanta
suavidade, sendo levadas em todas as direções pelo vento, será que uma nuvem é
feliz em ser nuvem? Meu rosto está refletido na janela de vidro que é dividida
em duas partes. Não entendo o porquê, tento forçar um sorriso contraindo os
músculos da face, os dentes até aparecem, mas os meus olhos continuam
enuviados, com a constante expressão de tristeza, não respondem aos meus
comandos são como um adolescente rebelde, expressam o real sentimento sem
importarem-se com qualquer exigência. O antigo cuco afixado solitário na parede
cinza do quarto faz o seu alerta, indicando o horário que eu esperava
ansiosamente. Por alguns instantes retiro a minha atenção das ruas encobertas
pelo manto de folhas e do sol que termina de esconder-se, volto a atentar-me ao
quarto nu, onde não existe nada mais além das paredes frias e do já descrito
cuco na parede. Estranho como sinto uma atração inexplicável por esse ambiente
embebido de trevas, clareado apenas pelos últimos raios de sol que hoje parece
demorar mais que de costume a ir-se. O chão de madeira velha range a cada passo
que se dá, algumas teias de aranha bordam a parede com sua renda fina. Ouço as
risadas e logo todo meu metabolismo se desregula, e lá estão elas as famosas
borboletas no estômago, apressado volto à janela e mais uma vez minha figura
está projetada na vidraça, vestimentas turvas como se estivesse de luto por se
próprio ou pela humanidade, a pele pálida e os lábios avermelhados devido às
mordidas de ansiedade, distribuídas ao longo do dia. Seus passos são lentos,
ele desfila pela rua calmamente, como uma bailarina que se apresenta, sempre
atenta aos movimentos, aos menores, almejando ser agraciada pela perfeição. Ele
ri gargalhadas estridentes, vivas, distribuídas e espalhadas ao sabor do vento,
o seu rosto se torna tão lindo que meus olhos chegam a serem indignos de captar
tamanha beleza, as maçãs do seu rosto se contraem e os olhos de cílios grandes
apertam-se, faces angelicais. Assim como costuma fazer todos os dias, pula
aquelas faixas amarelas pintadas com todo capricho ao meio do asfalto da viela
estreita. Eu o observo sempre no mesmo horário, sempre andando com seus gracejos,
e eu nessa janela, todos os dias, ouvindo seus risos sem motivo aparente, ele
cheira felicidade, sempre vendo sua linda pele rosada, seus cabelos escuros que
se movem com a menor brisa do entardecer. Queria que soubesse que estou sempre
aqui, continuo parado, um mero espectador, um mero observador da vida, talvez
da minha própria vida, um mero sonhador, cambaleando a beira do delicado abismo
da loucura. Ele continua a caminhar, fazendo movimentos faceiros, ágil e suave
como uma pluma. Ele some ao longe, mais uma vez. O piso range novamente
enquanto me afasto da janela, voltarei amanhã para sentir o doce sabor da
ambrosia de tua presença, nem que a distancia e por alguns segundos vê-lo
passar, abençoado pelo sol. O mais belo lírio que já se houve noticia.

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