Acordei outra vez com aquela maldita dor de
cabeça bebi muito ontem e fiz outras coisas que se você estive aqui tenho
certeza não aprovaria. O velho relógio do quarto marca três horas da tarde eu
ainda não levantei da cama não sei se por não conseguir ou por não querer, não
ter para onde ir, também não quero tentar, só quero ficar aqui sentindo o pouco
que sobrou do teu perfume nos lenções da cama; achei um frasco atrás daquela
velha penteadeira, ponho algumas gotas no travesseiro todas as noites antes de
pegar no sono. Eu adorava te observar enquanto escovava os teus longos cabelos
louros, meus olhos brilhavam, sentia como se admirasse uma obra de arte e de
certa forma era, uma obra divina. Sabia que depois que você foi embora eu
coloquei em todas as paredes a tua fotografia, não tenho feito nada mais além
te ver; a tua boca marcada de batom vermelho, os olhos, ah! os olhos negros e
brilhantes que contrastam com a pele branca. Gosto de pôr aquele velho disco
com a música que costumávamos dançar juntos imaginando estar em um baile dos
anos 20, você em cima dos meus pés, rio todas as vezes que me lembro,
parecíamos duas crianças que brincavam de viver. A primeira vez que a vi, eu
estava sentado na grama observava o pôr-do-sol de um dia estranho, o céu
parecia triste, bom! pelo menos eu estava não me recordo o motivo, talvez fosse
à velha saudade do futuro, você olhou para mim enquanto o vento se entrelaçava
nos teus cabelos como cobras em cópula, teu rosto parecia brilhar impulsionado
pela luz do sol, você me presenteou com um belíssimo sorriso, dizem que quando
se morre é visto um filme com toda a sua vida, isso aconteceu comigo naquele
momento, só que eu nunca tinha vivido aquele tal filme, mas algo me dizia,
gritava, que não era uma visão do passado era do futuro, um futuro próximo eu
sabia dentro de mim. Você sentou do meu lado, o meu rosto queimava, devo ter
ficado vermelho, então colheu um dente-de-leão, estava bem perto e com toda à
delicadeza de moçoila disse que era a sua flor favorita mesmo sem ter certeza
se era mesmo uma flor, disse ainda que ela estimulava o desapego, o recomeço, a
novos encontros, eu fiquei ouvindo com tanta atenção como se você estivesse me
dando à solução para todos os problemas da humanidade, guardei cada uma
daquelas palavras, então você soprou e ele se dispersou e foi conduzido pelo
vendo, ficamos observando até que não restasse mais nem um, começamos a
conversar estava tão empolgada me contando os lugares onde já tinha ido e as
pessoas que tinha conhecido. As gargalhadas faziam meu coração disparar, e eu
me perguntava como era possível? Tinha
te conhecido há poucos minutos. Eu sonhei uma vida para nós, queria ficar
velhinho do teu lado, e espalhar para o mundo inteiro que você era minha, que
aqueles olhos cantavam para mim, mas como eu já dizia antes e só comprovei: os
sonhadores não são felizes. Essa casa parece tão grande sem você, tão escura
como uma tumba em que fui sepultado vivo, eu ainda vivo? Hoje está chovendo,
enquanto eu vejo as gotas descerem pela vidraça da porta eu me pergunto, e rezo
para quem quer que seja, para trazer-te de volta, para deixar-te aqui comigo,
para que nos tornemos um só novamente, para que eu te envolva novamente como
uma ostra que guarda sua pérola. Estou cansado dessa casa com paredes de cores
alegres, você era meu sol, por que me deixou? Eu a amava tanto. Agora não tenho
mais nada além de cinzeiros cheios e o sentimento de que falta uma parte de mim,
uma parte vital; de repente o céu e as estrelas deram as costas e se foram sem
dizer para onde iam. Procuro-te em todos os braços, todos os beijos, inútil! Eu
só queria que você agora abrisse aquela porta e com um lindo sorriso me
dissesse para não chorar mais, secasse as minhas lágrimas e me beijasse dizendo
que nunca mais iria me deixar, aliás, você prometeu... Muitas coisas foram
ditas. Eu só queria exorcizar essa dor que me força a ser fraco, me força a
tremer, me força a gritar todas as vezes que acordo e com uma das mãos procuro
teu corpo e não encontro, essa dor dilacera o coração, faz sangrar, reprime.
Ontem enquanto descia a rua, eu observava as pessoas, pareciam tão contentes,
comecei a odiá-las, por estarem felizes, aquela felicidade era minha e sua,
lembra? Porque me esqueceu? Eu queria não ter um coração agora, melhor, eu
queria não ter te dado meu coração, você me disse que o guardaria com todo o
amor, mas será que até um sentimento tão nobre tem prazo de validade? Quando é
que irei sentir teus cílios acariciarem meu rosto novamente? Chega de tantas
perguntas, o vento não vai me responder nenhuma delas; eu aqui misturando texto
com pensamentos, já tinha prometido para mim mesmo que não iria falar sozinho
de novo, acho isso deprimente. Eu queria dormir agora e só acordar quando as
feridas secassem, quando eu recompusesse meu espírito rasgado. O ser humano não
vive só. Na teoria parece tudo bem mais fácil, eu cheguei a pensar que se um
dia algo desse tipo acontecesse comigo eu logo me levantaria, sacodiria a
poeira e continuaria de pé, só que eu não sabia que quando acontecesse tirariam
as minhas pernas, o meu apoio, meu porto seguro. Olhar-me no espelho agora é
contemplar um ser em decadência, magro com olheiras profundas, não consigo mais
fazer nada, minha força foi levada embora, tudo foi embora quando você passou
por aquela porta, se você sabia que tinha que ir porque ficou comigo, porque
sorriu pra mim, porque entrou na minha vida? Eu não tinha muita coisa naquela
época, mas pelo menos eu tinha a mim. Você me deu um mundo depois tomou de
volta. É meio desconcertante precisar da ajuda de alguém que invés de ti fazer
emergir da lama podre de sofrimento, faz o contrario e sem qualquer esforço.
Talvez eu não tenha te conhecido, talvez você tenha usado o tempo inteiro
aquela máscara que compramos perto do carnaval se lembra? Aquela que tinha
expressão triste, mas ou mesmo tempo sarcástica. Eu poderia te odiar, mas me
sinto fraco até mesmo pra isso, estou desfalecendo, secando como às arvores do
outono, lentamente. Me sinto mascado, rejeitado, excluído, nem se quer pude ser
engolido, porque se assim fosse, de alguma forma estaria dentro de ti mais do
que na forma física, em uma forma transcendente, límpida, pura. Entreguei-me
sem saber que estava entregando meu pescoço ao carrasco. No começo eu senti
medo, o que é muito natural nós sempre temos medo, uns tem medo do escuro,
outros de monstros nos armários, outros de bichos como ratos e baratas, eu
tinha medo de me deixar levar, de deixar sentir, ser vulnerável, tirar minha
armadura e fingir que tudo bem, mas às vezes pelo que se vê o medo é mais do
que um sentimento, é um alerta. Eu gostava às vezes nas tardes de domingo
quando nos deitávamos na grama do jardim, (é de novo à grama, talvez tenha
algum significado pra nós) e ficávamos trocando risadas tentando decifrar as
nuvens, aquela velha historia de tentar adivinhar qual coisa às nuvens se
tornavam, e você sempre dizia que as pessoas eram como nuvens e os sentimentos
eram os ventos que conduziam elas, eu dizia que o nosso vento havia trazido
você pra mim. Oh senhor vento, me desculpa se eu te magoei, não queria que a
levasse, queria ela por toda minha vida. Agora as manchas, a lacuna ficou
aberta sem que haja uma solução aparente, sem que haja uma solução plausível,
digna. E o amor que antes era completo e sólido se espatifou e eu nem sei em
que, se tornou migalhas, como aquelas que as velhinhas costumam atirar aos
pombos no parque, e se transformou em pequenos vermes que me corroem que
desmancham, que me fazem chorar, homens não deviam chorar... Não consigo parar
de beber, na pior das hipóteses quando eu imagino levemente em um dia perder o
que tinha eu, nunca pensei que pudesse ser tão clichê, bebendo, fumando achei
que reagiria de outra forma menos comum, decepção até comigo próprio. Será que
minha voz deixou de ser excitante? Será que meus olhos deixaram de ser
desnorteantes? Será que minha pele acabou gélida? Bom! Pelo menos agora ela
está, cada pedaço meu sente sua falta. No começo da semana, à noite, quando não
tinha nada de interessante para fazer ficávamos calados deitados no chão da
sala, dávamos as mãos e simplesmente o silêncio, apenas as respirações, o
cheiro de incenso no ar e o barulho dos bichos no jardim, só a presença do
outro já era o suficiente, me tornei insuficiente? Sabia que meu paladar ainda
sente teu sabor, o sabor salgado do suor na hora em que nos tornávamos um só, o
meu olfato ainda sente teu cheiro, o cheiro de desejo, de malicia angélica, o
meu tato ainda sente a textura da tua pele macia como uma delicada pluma, a
minha visão implora pelo teu semblante, meu corpo e minha alma querem a tua
presença. Se eu soubesse que seria assim eu preferia não ter descoberto o bom
da vida. Vou fazer o que já devia ter feito fechar a porta de vez, eu ainda
deixo aberta no caso de você voltar, vou afogar esse amor em minhas lágrimas e
voltar a minha atenção para mim mesmo novamente, eu sou o único que nunca vai
me decepcionar, sou o único que nunca vai me deixar sozinho, eu sou o único que
merece os meus sentimentos divinos.
sábado, 24 de março de 2012
quinta-feira, 15 de março de 2012
Na Janela
Meu coração
sangra, sinto uma dor aguda assim como a de um espinho perfurando a pele, toda
vez que percebo o dia entardecer. O sol em sua magnitude de astro rei desce
atrás das casas, do fim da rua, todas com a mesma arquitetura, diferenciadas
apenas pela cor, cada uma pintada com cores suaves cada cor divergente uma da
outra. Uma casinha me chamava à atenção, a segunda da direita, uma onde há uma
árvore de frutos amarelados no jardim. Quando as luzes do crepúsculo acariciam
suas paredes singelas formam um misto de cores que contrastam entre o vermelho
e o amarelo, por um instante ela parece brilhar. Costumo olhar as nuvens que
adquirem as mesmas cores da casinha, tão pacificas, levitam com tanta
suavidade, sendo levadas em todas as direções pelo vento, será que uma nuvem é
feliz em ser nuvem? Meu rosto está refletido na janela de vidro que é dividida
em duas partes. Não entendo o porquê, tento forçar um sorriso contraindo os
músculos da face, os dentes até aparecem, mas os meus olhos continuam
enuviados, com a constante expressão de tristeza, não respondem aos meus
comandos são como um adolescente rebelde, expressam o real sentimento sem
importarem-se com qualquer exigência. O antigo cuco afixado solitário na parede
cinza do quarto faz o seu alerta, indicando o horário que eu esperava
ansiosamente. Por alguns instantes retiro a minha atenção das ruas encobertas
pelo manto de folhas e do sol que termina de esconder-se, volto a atentar-me ao
quarto nu, onde não existe nada mais além das paredes frias e do já descrito
cuco na parede. Estranho como sinto uma atração inexplicável por esse ambiente
embebido de trevas, clareado apenas pelos últimos raios de sol que hoje parece
demorar mais que de costume a ir-se. O chão de madeira velha range a cada passo
que se dá, algumas teias de aranha bordam a parede com sua renda fina. Ouço as
risadas e logo todo meu metabolismo se desregula, e lá estão elas as famosas
borboletas no estômago, apressado volto à janela e mais uma vez minha figura
está projetada na vidraça, vestimentas turvas como se estivesse de luto por se
próprio ou pela humanidade, a pele pálida e os lábios avermelhados devido às
mordidas de ansiedade, distribuídas ao longo do dia. Seus passos são lentos,
ele desfila pela rua calmamente, como uma bailarina que se apresenta, sempre
atenta aos movimentos, aos menores, almejando ser agraciada pela perfeição. Ele
ri gargalhadas estridentes, vivas, distribuídas e espalhadas ao sabor do vento,
o seu rosto se torna tão lindo que meus olhos chegam a serem indignos de captar
tamanha beleza, as maçãs do seu rosto se contraem e os olhos de cílios grandes
apertam-se, faces angelicais. Assim como costuma fazer todos os dias, pula
aquelas faixas amarelas pintadas com todo capricho ao meio do asfalto da viela
estreita. Eu o observo sempre no mesmo horário, sempre andando com seus gracejos,
e eu nessa janela, todos os dias, ouvindo seus risos sem motivo aparente, ele
cheira felicidade, sempre vendo sua linda pele rosada, seus cabelos escuros que
se movem com a menor brisa do entardecer. Queria que soubesse que estou sempre
aqui, continuo parado, um mero espectador, um mero observador da vida, talvez
da minha própria vida, um mero sonhador, cambaleando a beira do delicado abismo
da loucura. Ele continua a caminhar, fazendo movimentos faceiros, ágil e suave
como uma pluma. Ele some ao longe, mais uma vez. O piso range novamente
enquanto me afasto da janela, voltarei amanhã para sentir o doce sabor da
ambrosia de tua presença, nem que a distancia e por alguns segundos vê-lo
passar, abençoado pelo sol. O mais belo lírio que já se houve noticia.
terça-feira, 6 de março de 2012
Minha Doce Luiza
Hoje sonhei contigo mais uma vez, na verdade, acho
que era mais uma lembrança adormecida. Lembrei-me de quando éramos crianças e
corríamos pelados pelos campos sem vergonha ou pudores; os capins esfregando
suas ramas verdes em nossas pernas, aquilo dava uma sensação engraçada, e você
sempre ria descontrolada. O vento parecia tentar levar nossos cabelos a
caminhos que só ele conhece. Devo confessar que ainda sinto muita vontade de
repetir essas nossas experiências malucas. Você deve ter se tornado uma linda
mulher, quando criança, tua beleza já era admirável, creio que o tempo tenha
moldado teu corpo trazendo protuberantes formas, linda e altiva... Engraçado
como eu te imagino. Nunca entendi as crianças, sempre costumava dizer isso,
lembras? Tu rias e me dizias que como eu não poderia saber se eu era uma. Nossas
conversas eram adultas de mais pra nós. Sexo era assunto favorito, estávamos
sempre mergulhados numa luxúria infantil; às vezes penso que nunca fomos crianças.
Lembra quando fugi a noite e fui até sua casa, subi
na sacada do quarto e entrei pela janela, você estava linda adormecida com uma
camisola de seda branca que deixava escapar partes de tua pele, também muito
branca. No quarto estavam espalhadas bonecas de porcelana com cabelo de verdade,
eram teus cabelos, sua mãe costumava costurar mechas a elas. Caminhei
cuidadosamente até a beirada da cama e me ajoelhei, por um segundo admirei o
teu rosto; o tempo parecia ter parado como em uma fotografia. Senti uma vontade
inexplicável de beijar-te a boca tive a impressão que alguém falava aos meus
ouvidos. Me aproximei devagar, meus lábios estavam avermelhados devido o frio
do outono; a luz da lua entrava sorrateira pela janela, que deixei aberta por
descuido ou propositalmente, não sei ao certo. Tua boca rosada, carnuda,
aquecida pelo sono. Feixei os olhos lentamente como por instinto, senti tua
respiração pesada e toquei levemente meus lábios aos teus, não conseguia deixar
de pensar naquele velho conto de fadas. Os meus pêlos finos de menino ouriçaram-se,
teus olhos se abriram e pareciam me hipnotizar com o verde esmeralda que
emanava deles; tu esboçaste um leve sorriso com o canto da boca movimento tão
teu. Deitei-me ao teu lado, em sua cama, e com movimentos leves tu te despias;
beijos com mais volúpia eram trocados por nossos corpos em formação. Minha boca
percorria teu ventre, e chegando ao fim de tudo, no teu sexo úmido, era a
primeira vez que o via tão de perto, alguns pêlos aloirados denunciavam que a
infância dava espaço a adolescência, enquanto teu corpo se retorcia como uma
cobra apressada em capturar sua presa. Eu saboreava o gosto de mulher que
trazia entre as pernas; lambia como se quisesse devorá-la, queria que fosse só
minha, doce Luiza, assim que eu sempre a chamava não é mesmo?
Agora depois de tudo que passou, me arrependo de
algumas coisas não feitas, não vividas. A maior delas é não ter falado que a
amava desesperadamente, eu te amava, minha doce Luiza...
Oh, que indelicadeza a minha falando freneticamente
do nosso passado, esqueci-me de dizer como estou no que me tornei. Bom, eu
sempre fui o garoto estranho sem amigos - a não ser você minha querida - a
melhor de todas as amizades. Introspectivo, não mudei em muita coisa, a não ser
a aparência física, eu era franzino, hoje sou forte, forte no sentido de
músculos - não no sentido de gordo - tia Maria sempre gostava de usar essa
expressão para não ser indelicada. No que diz respeito ao meu interior continua
o mesmo, o mesmo menino-homem; não tenho muita coisa, apenas uma casa antiga
com moveis antigos; até eu já estou me tornando antigo em conviver com tanta
velharia. Ás vezes eu penso em ter uma casa moderna, com paredes de cores
vibrantes, deixar um pouco meus blues e ouvir musica nova, mas se o fizesse
penso que não seria eu, entende? Também comecei a escrever, estava ansioso para
falar isso para ti. Sinto-me bem quando escrevo, acho que se tornou minha
válvula de escape. Costumo escrever coisas tristes e melancólicas, talvez minha
alma seja assim sombria, remota. Tenho uma vida promiscua e não entendo isso
como uma coisa ruim, “ela” não é tão feia quanto às pessoas pintam, dizem que a
alma não tem sexo, mas e se tiver?
Nas festas de família que meu pai sempre insistia em
organizar você sempre estava lá. Achei uma caixa com varias fotografias, você
sempre aparece segurando minha mão, rosto pacifico, beleza incontestável. Um
dia me disse que adorava ser fotografada, pois queria que sua beleza fosse
eternizada; falou-me também que queria ser pintada em um quadro bem grande, e
que fosse deixado, de herança para os netos e bisnetos, como se mostrasse a
primeira de uma grande raça. Em falar nisso, conseguiste tua pintura?
Lembra-te do dia do lago? Saímos à tardinha, você e
eu em direção ao lago de águas límpidas, que chegavam a se assemelhar com
cristal, enquanto admirava as águas do lago, tu despias a ti rapidamente,
mergulhando ágio no lago; parecia ser o seu elemento, estava tão à vontade... Eu
por minha vez, fiz o mesmo, deixando a mostra meu corpo imaturo, agora com pêlos
que ainda não tinha me acostumado em tê-los. Mergulhei também, sendo envolvido
pela água morna e cintilante, nadei em tua direção você estava numa pedra, nua,
os cabelos vermelhos contrastavam com a pele pálida, os cachos desfeitos pela água,
estava tão linda, subi na pedra, nos olhávamos como se um procurasse no outro as
diferenças entre masculino e feminino. Senti mais uma vez como se vozes
soprassem meus ouvidos, então me aproximei de ti, beijei como se o mundo fosse
acabar ali, e se assim sucedesse sei que estaria feliz. Tuas mãos pequenas
passeavam por minha pele fazendo caminhos desconhecidos, intocados, minha boca
subia e descia no teu pescoço, misturando minha saliva a água doce do lago
prateado, meu corpo comprimia o teu sobre a pedra, enquanto éramos cobertos por
um manto de gotículas de água que caiam da cachoeira, que desaguava ao nosso
lado. O sol que também participava, nos iluminava com a luz do entardecer; o
céu refletia no lago suas cores de vários tons azul, vermelho e laranja. Rolavamos
na pedra lavada, tuas pernas me abraçaram como se além de mim quisessem abraçar
o mundo, então senti o teu calor, calor de mulher, maciez libidinosa, enquanto
eu me punha dentro de ti, teu sangue de pureza escorria sobre a rocha, e se
fundia com a água morna. Os movimentos de minha anca com delicadeza ia nos transformando
em seres que foram feitos para o sexo, teus seios recém-saídos do corpo simbolizavam
a luta da menina que sonhava em ser
mulher, meus sentidos pareciam ter sido aumentados. Tudo ali era novo, tudo era
encantado, sentia teu coração pulsar mais forte, bombeando a vida que corria em
tuas veias.
Depois que tudo cessou fiquei abraçado a ti, abraçado
a minha doce Luiza. Apesar da água, ainda conseguia sentir o cheio dos teus
cabelos. Naquele instante tive a certeza que eu tinha nascido pra viver esse
momento.
No dia seguinte fui à tardinha a tua casa, ansioso
em vê-la queria te abraçar e te dizer o quanto a amava. Sentia como se naquela
única vez que fiz amor, tivesse envelhecido 10 anos. O meu rosto queimava, um
sorriso insistente, porem ao chegar tive a noticia de que não havia mais Luiza.
Porque me deixou? Porque não disseste-me que a tua palidez que tanto me
fascinava era uma palidez doentia? A morte a tinha lambido com seu manto escuro;
e eu sem ter mais a quem amar, escrevi essa carta imaginando como você seria se
não tivesse partido, daria tudo pra sentir a ti nem que por um segundo sequer.
Porque te foste, minha doce Luiza? Eu ainda te amo, e sei que minha vida ainda
está conectada a sua transcendendo o abismo da morte.
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