sábado, 24 de março de 2012

Dente-de-Leão



   Acordei outra vez com aquela maldita dor de cabeça bebi muito ontem e fiz outras coisas que se você estive aqui tenho certeza não aprovaria. O velho relógio do quarto marca três horas da tarde eu ainda não levantei da cama não sei se por não conseguir ou por não querer, não ter para onde ir, também não quero tentar, só quero ficar aqui sentindo o pouco que sobrou do teu perfume nos lenções da cama; achei um frasco atrás daquela velha penteadeira, ponho algumas gotas no travesseiro todas as noites antes de pegar no sono. Eu adorava te observar enquanto escovava os teus longos cabelos louros, meus olhos brilhavam, sentia como se admirasse uma obra de arte e de certa forma era, uma obra divina. Sabia que depois que você foi embora eu coloquei em todas as paredes a tua fotografia, não tenho feito nada mais além te ver; a tua boca marcada de batom vermelho, os olhos, ah! os olhos negros e brilhantes que contrastam com a pele branca. Gosto de pôr aquele velho disco com a música que costumávamos dançar juntos imaginando estar em um baile dos anos 20, você em cima dos meus pés, rio todas as vezes que me lembro, parecíamos duas crianças que brincavam de viver. A primeira vez que a vi, eu estava sentado na grama observava o pôr-do-sol de um dia estranho, o céu parecia triste, bom! pelo menos eu estava não me recordo o motivo, talvez fosse à velha saudade do futuro, você olhou para mim enquanto o vento se entrelaçava nos teus cabelos como cobras em cópula, teu rosto parecia brilhar impulsionado pela luz do sol, você me presenteou com um belíssimo sorriso, dizem que quando se morre é visto um filme com toda a sua vida, isso aconteceu comigo naquele momento, só que eu nunca tinha vivido aquele tal filme, mas algo me dizia, gritava, que não era uma visão do passado era do futuro, um futuro próximo eu sabia dentro de mim. Você sentou do meu lado, o meu rosto queimava, devo ter ficado vermelho, então colheu um dente-de-leão, estava bem perto e com toda à delicadeza de moçoila disse que era a sua flor favorita mesmo sem ter certeza se era mesmo uma flor, disse ainda que ela estimulava o desapego, o recomeço, a novos encontros, eu fiquei ouvindo com tanta atenção como se você estivesse me dando à solução para todos os problemas da humanidade, guardei cada uma daquelas palavras, então você soprou e ele se dispersou e foi conduzido pelo vendo, ficamos observando até que não restasse mais nem um, começamos a conversar estava tão empolgada me contando os lugares onde já tinha ido e as pessoas que tinha conhecido. As gargalhadas faziam meu coração disparar, e eu me perguntava como era possível?  Tinha te conhecido há poucos minutos. Eu sonhei uma vida para nós, queria ficar velhinho do teu lado, e espalhar para o mundo inteiro que você era minha, que aqueles olhos cantavam para mim, mas como eu já dizia antes e só comprovei: os sonhadores não são felizes. Essa casa parece tão grande sem você, tão escura como uma tumba em que fui sepultado vivo, eu ainda vivo? Hoje está chovendo, enquanto eu vejo as gotas descerem pela vidraça da porta eu me pergunto, e rezo para quem quer que seja, para trazer-te de volta, para deixar-te aqui comigo, para que nos tornemos um só novamente, para que eu te envolva novamente como uma ostra que guarda sua pérola. Estou cansado dessa casa com paredes de cores alegres, você era meu sol, por que me deixou? Eu a amava tanto. Agora não tenho mais nada além de cinzeiros cheios e o sentimento de que falta uma parte de mim, uma parte vital; de repente o céu e as estrelas deram as costas e se foram sem dizer para onde iam. Procuro-te em todos os braços, todos os beijos, inútil! Eu só queria que você agora abrisse aquela porta e com um lindo sorriso me dissesse para não chorar mais, secasse as minhas lágrimas e me beijasse dizendo que nunca mais iria me deixar, aliás, você prometeu... Muitas coisas foram ditas. Eu só queria exorcizar essa dor que me força a ser fraco, me força a tremer, me força a gritar todas as vezes que acordo e com uma das mãos procuro teu corpo e não encontro, essa dor dilacera o coração, faz sangrar, reprime. Ontem enquanto descia a rua, eu observava as pessoas, pareciam tão contentes, comecei a odiá-las, por estarem felizes, aquela felicidade era minha e sua, lembra? Porque me esqueceu? Eu queria não ter um coração agora, melhor, eu queria não ter te dado meu coração, você me disse que o guardaria com todo o amor, mas será que até um sentimento tão nobre tem prazo de validade? Quando é que irei sentir teus cílios acariciarem meu rosto novamente? Chega de tantas perguntas, o vento não vai me responder nenhuma delas; eu aqui misturando texto com pensamentos, já tinha prometido para mim mesmo que não iria falar sozinho de novo, acho isso deprimente. Eu queria dormir agora e só acordar quando as feridas secassem, quando eu recompusesse meu espírito rasgado. O ser humano não vive só. Na teoria parece tudo bem mais fácil, eu cheguei a pensar que se um dia algo desse tipo acontecesse comigo eu logo me levantaria, sacodiria a poeira e continuaria de pé, só que eu não sabia que quando acontecesse tirariam as minhas pernas, o meu apoio, meu porto seguro. Olhar-me no espelho agora é contemplar um ser em decadência, magro com olheiras profundas, não consigo mais fazer nada, minha força foi levada embora, tudo foi embora quando você passou por aquela porta, se você sabia que tinha que ir porque ficou comigo, porque sorriu pra mim, porque entrou na minha vida? Eu não tinha muita coisa naquela época, mas pelo menos eu tinha a mim. Você me deu um mundo depois tomou de volta. É meio desconcertante precisar da ajuda de alguém que invés de ti fazer emergir da lama podre de sofrimento, faz o contrario e sem qualquer esforço. Talvez eu não tenha te conhecido, talvez você tenha usado o tempo inteiro aquela máscara que compramos perto do carnaval se lembra? Aquela que tinha expressão triste, mas ou mesmo tempo sarcástica. Eu poderia te odiar, mas me sinto fraco até mesmo pra isso, estou desfalecendo, secando como às arvores do outono, lentamente. Me sinto mascado, rejeitado, excluído, nem se quer pude ser engolido, porque se assim fosse, de alguma forma estaria dentro de ti mais do que na forma física, em uma forma transcendente, límpida, pura. Entreguei-me sem saber que estava entregando meu pescoço ao carrasco. No começo eu senti medo, o que é muito natural nós sempre temos medo, uns tem medo do escuro, outros de monstros nos armários, outros de bichos como ratos e baratas, eu tinha medo de me deixar levar, de deixar sentir, ser vulnerável, tirar minha armadura e fingir que tudo bem, mas às vezes pelo que se vê o medo é mais do que um sentimento, é um alerta. Eu gostava às vezes nas tardes de domingo quando nos deitávamos na grama do jardim, (é de novo à grama, talvez tenha algum significado pra nós) e ficávamos trocando risadas tentando decifrar as nuvens, aquela velha historia de tentar adivinhar qual coisa às nuvens se tornavam, e você sempre dizia que as pessoas eram como nuvens e os sentimentos eram os ventos que conduziam elas, eu dizia que o nosso vento havia trazido você pra mim. Oh senhor vento, me desculpa se eu te magoei, não queria que a levasse, queria ela por toda minha vida. Agora as manchas, a lacuna ficou aberta sem que haja uma solução aparente, sem que haja uma solução plausível, digna. E o amor que antes era completo e sólido se espatifou e eu nem sei em que, se tornou migalhas, como aquelas que as velhinhas costumam atirar aos pombos no parque, e se transformou em pequenos vermes que me corroem que desmancham, que me fazem chorar, homens não deviam chorar... Não consigo parar de beber, na pior das hipóteses quando eu imagino levemente em um dia perder o que tinha eu, nunca pensei que pudesse ser tão clichê, bebendo, fumando achei que reagiria de outra forma menos comum, decepção até comigo próprio. Será que minha voz deixou de ser excitante? Será que meus olhos deixaram de ser desnorteantes? Será que minha pele acabou gélida? Bom! Pelo menos agora ela está, cada pedaço meu sente sua falta. No começo da semana, à noite, quando não tinha nada de interessante para fazer ficávamos calados deitados no chão da sala, dávamos as mãos e simplesmente o silêncio, apenas as respirações, o cheiro de incenso no ar e o barulho dos bichos no jardim, só a presença do outro já era o suficiente, me tornei insuficiente? Sabia que meu paladar ainda sente teu sabor, o sabor salgado do suor na hora em que nos tornávamos um só, o meu olfato ainda sente teu cheiro, o cheiro de desejo, de malicia angélica, o meu tato ainda sente a textura da tua pele macia como uma delicada pluma, a minha visão implora pelo teu semblante, meu corpo e minha alma querem a tua presença. Se eu soubesse que seria assim eu preferia não ter descoberto o bom da vida. Vou fazer o que já devia ter feito fechar a porta de vez, eu ainda deixo aberta no caso de você voltar, vou afogar esse amor em minhas lágrimas e voltar a minha atenção para mim mesmo novamente, eu sou o único que nunca vai me decepcionar, sou o único que nunca vai me deixar sozinho, eu sou o único que merece os meus sentimentos divinos.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Na Janela





Meu coração sangra, sinto uma dor aguda assim como a de um espinho perfurando a pele, toda vez que percebo o dia entardecer. O sol em sua magnitude de astro rei desce atrás das casas, do fim da rua, todas com a mesma arquitetura, diferenciadas apenas pela cor, cada uma pintada com cores suaves cada cor divergente uma da outra. Uma casinha me chamava à atenção, a segunda da direita, uma onde há uma árvore de frutos amarelados no jardim. Quando as luzes do crepúsculo acariciam suas paredes singelas formam um misto de cores que contrastam entre o vermelho e o amarelo, por um instante ela parece brilhar. Costumo olhar as nuvens que adquirem as mesmas cores da casinha, tão pacificas, levitam com tanta suavidade, sendo levadas em todas as direções pelo vento, será que uma nuvem é feliz em ser nuvem? Meu rosto está refletido na janela de vidro que é dividida em duas partes. Não entendo o porquê, tento forçar um sorriso contraindo os músculos da face, os dentes até aparecem, mas os meus olhos continuam enuviados, com a constante expressão de tristeza, não respondem aos meus comandos são como um adolescente rebelde, expressam o real sentimento sem importarem-se com qualquer exigência. O antigo cuco afixado solitário na parede cinza do quarto faz o seu alerta, indicando o horário que eu esperava ansiosamente. Por alguns instantes retiro a minha atenção das ruas encobertas pelo manto de folhas e do sol que termina de esconder-se, volto a atentar-me ao quarto nu, onde não existe nada mais além das paredes frias e do já descrito cuco na parede. Estranho como sinto uma atração inexplicável por esse ambiente embebido de trevas, clareado apenas pelos últimos raios de sol que hoje parece demorar mais que de costume a ir-se. O chão de madeira velha range a cada passo que se dá, algumas teias de aranha bordam a parede com sua renda fina. Ouço as risadas e logo todo meu metabolismo se desregula, e lá estão elas as famosas borboletas no estômago, apressado volto à janela e mais uma vez minha figura está projetada na vidraça, vestimentas turvas como se estivesse de luto por se próprio ou pela humanidade, a pele pálida e os lábios avermelhados devido às mordidas de ansiedade, distribuídas ao longo do dia. Seus passos são lentos, ele desfila pela rua calmamente, como uma bailarina que se apresenta, sempre atenta aos movimentos, aos menores, almejando ser agraciada pela perfeição. Ele ri gargalhadas estridentes, vivas, distribuídas e espalhadas ao sabor do vento, o seu rosto se torna tão lindo que meus olhos chegam a serem indignos de captar tamanha beleza, as maçãs do seu rosto se contraem e os olhos de cílios grandes apertam-se, faces angelicais. Assim como costuma fazer todos os dias, pula aquelas faixas amarelas pintadas com todo capricho ao meio do asfalto da viela estreita. Eu o observo sempre no mesmo horário, sempre andando com seus gracejos, e eu nessa janela, todos os dias, ouvindo seus risos sem motivo aparente, ele cheira felicidade, sempre vendo sua linda pele rosada, seus cabelos escuros que se movem com a menor brisa do entardecer. Queria que soubesse que estou sempre aqui, continuo parado, um mero espectador, um mero observador da vida, talvez da minha própria vida, um mero sonhador, cambaleando a beira do delicado abismo da loucura. Ele continua a caminhar, fazendo movimentos faceiros, ágil e suave como uma pluma. Ele some ao longe, mais uma vez. O piso range novamente enquanto me afasto da janela, voltarei amanhã para sentir o doce sabor da ambrosia de tua presença, nem que a distancia e por alguns segundos vê-lo passar, abençoado pelo sol. O mais belo lírio que já se houve noticia.

terça-feira, 6 de março de 2012

Minha Doce Luiza



 Hoje sonhei contigo mais uma vez, na verdade, acho que era mais uma lembrança adormecida. Lembrei-me de quando éramos crianças e corríamos pelados pelos campos sem vergonha ou pudores; os capins esfregando suas ramas verdes em nossas pernas, aquilo dava uma sensação engraçada, e você sempre ria descontrolada. O vento parecia tentar levar nossos cabelos a caminhos que só ele conhece. Devo confessar que ainda sinto muita vontade de repetir essas nossas experiências malucas. Você deve ter se tornado uma linda mulher, quando criança, tua beleza já era admirável, creio que o tempo tenha moldado teu corpo trazendo protuberantes formas, linda e altiva... Engraçado como eu te imagino. Nunca entendi as crianças, sempre costumava dizer isso, lembras? Tu rias e me dizias que como eu não poderia saber se eu era uma. Nossas conversas eram adultas de mais pra nós. Sexo era assunto favorito, estávamos sempre mergulhados numa luxúria infantil; às vezes penso que nunca fomos crianças.
Lembra quando fugi a noite e fui até sua casa, subi na sacada do quarto e entrei pela janela, você estava linda adormecida com uma camisola de seda branca que deixava escapar partes de tua pele, também muito branca. No quarto estavam espalhadas bonecas de porcelana com cabelo de verdade, eram teus cabelos, sua mãe costumava costurar mechas a elas. Caminhei cuidadosamente até a beirada da cama e me ajoelhei, por um segundo admirei o teu rosto; o tempo parecia ter parado como em uma fotografia. Senti uma vontade inexplicável de beijar-te a boca tive a impressão que alguém falava aos meus ouvidos. Me aproximei devagar, meus lábios estavam avermelhados devido o frio do outono; a luz da lua entrava sorrateira pela janela, que deixei aberta por descuido ou propositalmente, não sei ao certo. Tua boca rosada, carnuda, aquecida pelo sono. Feixei os olhos lentamente como por instinto, senti tua respiração pesada e toquei levemente meus lábios aos teus, não conseguia deixar de pensar naquele velho conto de fadas. Os meus pêlos finos de menino ouriçaram-se, teus olhos se abriram e pareciam me hipnotizar com o verde esmeralda que emanava deles; tu esboçaste um leve sorriso com o canto da boca movimento tão teu. Deitei-me ao teu lado, em sua cama, e com movimentos leves tu te despias; beijos com mais volúpia eram trocados por nossos corpos em formação. Minha boca percorria teu ventre, e chegando ao fim de tudo, no teu sexo úmido, era a primeira vez que o via tão de perto, alguns pêlos aloirados denunciavam que a infância dava espaço a adolescência, enquanto teu corpo se retorcia como uma cobra apressada em capturar sua presa. Eu saboreava o gosto de mulher que trazia entre as pernas; lambia como se quisesse devorá-la, queria que fosse só minha, doce Luiza, assim que eu sempre a chamava não é mesmo?
Agora depois de tudo que passou, me arrependo de algumas coisas não feitas, não vividas. A maior delas é não ter falado que a amava desesperadamente, eu te amava, minha doce Luiza...
Oh, que indelicadeza a minha falando freneticamente do nosso passado, esqueci-me de dizer como estou no que me tornei. Bom, eu sempre fui o garoto estranho sem amigos - a não ser você minha querida - a melhor de todas as amizades. Introspectivo, não mudei em muita coisa, a não ser a aparência física, eu era franzino, hoje sou forte, forte no sentido de músculos - não no sentido de gordo - tia Maria sempre gostava de usar essa expressão para não ser indelicada. No que diz respeito ao meu interior continua o mesmo, o mesmo menino-homem; não tenho muita coisa, apenas uma casa antiga com moveis antigos; até eu já estou me tornando antigo em conviver com tanta velharia. Ás vezes eu penso em ter uma casa moderna, com paredes de cores vibrantes, deixar um pouco meus blues e ouvir musica nova, mas se o fizesse penso que não seria eu, entende? Também comecei a escrever, estava ansioso para falar isso para ti. Sinto-me bem quando escrevo, acho que se tornou minha válvula de escape. Costumo escrever coisas tristes e melancólicas, talvez minha alma seja assim sombria, remota. Tenho uma vida promiscua e não entendo isso como uma coisa ruim, “ela” não é tão feia quanto às pessoas pintam, dizem que a alma não tem sexo, mas e se tiver?
Nas festas de família que meu pai sempre insistia em organizar você sempre estava lá. Achei uma caixa com varias fotografias, você sempre aparece segurando minha mão, rosto pacifico, beleza incontestável. Um dia me disse que adorava ser fotografada, pois queria que sua beleza fosse eternizada; falou-me também que queria ser pintada em um quadro bem grande, e que fosse deixado, de herança para os netos e bisnetos, como se mostrasse a primeira de uma grande raça. Em falar nisso, conseguiste tua pintura?
Lembra-te do dia do lago? Saímos à tardinha, você e eu em direção ao lago de águas límpidas, que chegavam a se assemelhar com cristal, enquanto admirava as águas do lago, tu despias a ti rapidamente, mergulhando ágio no lago; parecia ser o seu elemento, estava tão à vontade... Eu por minha vez, fiz o mesmo, deixando a mostra meu corpo imaturo, agora com pêlos que ainda não tinha me acostumado em tê-los. Mergulhei também, sendo envolvido pela água morna e cintilante, nadei em tua direção você estava numa pedra, nua, os cabelos vermelhos contrastavam com a pele pálida, os cachos desfeitos pela água, estava tão linda, subi na pedra, nos olhávamos como se um procurasse no outro as diferenças entre masculino e feminino. Senti mais uma vez como se vozes soprassem meus ouvidos, então me aproximei de ti, beijei como se o mundo fosse acabar ali, e se assim sucedesse sei que estaria feliz. Tuas mãos pequenas passeavam por minha pele fazendo caminhos desconhecidos, intocados, minha boca subia e descia no teu pescoço, misturando minha saliva a água doce do lago prateado, meu corpo comprimia o teu sobre a pedra, enquanto éramos cobertos por um manto de gotículas de água que caiam da cachoeira, que desaguava ao nosso lado. O sol que também participava, nos iluminava com a luz do entardecer; o céu refletia no lago suas cores de vários tons azul, vermelho e laranja. Rolavamos na pedra lavada, tuas pernas me abraçaram como se além de mim quisessem abraçar o mundo, então senti o teu calor, calor de mulher, maciez libidinosa, enquanto eu me punha dentro de ti, teu sangue de pureza escorria sobre a rocha, e se fundia com a água morna. Os movimentos de minha anca com delicadeza ia nos transformando em seres que foram feitos para o sexo, teus seios recém-saídos do corpo simbolizavam a luta da  menina que sonhava em ser mulher, meus sentidos pareciam ter sido aumentados. Tudo ali era novo, tudo era encantado, sentia teu coração pulsar mais forte, bombeando a vida que corria em tuas veias.
Depois que tudo cessou fiquei abraçado a ti, abraçado a minha doce Luiza. Apesar da água, ainda conseguia sentir o cheio dos teus cabelos. Naquele instante tive a certeza que eu tinha nascido pra viver esse momento.
No dia seguinte fui à tardinha a tua casa, ansioso em vê-la queria te abraçar e te dizer o quanto a amava. Sentia como se naquela única vez que fiz amor, tivesse envelhecido 10 anos. O meu rosto queimava, um sorriso insistente, porem ao chegar tive a noticia de que não havia mais Luiza. Porque me deixou? Porque não disseste-me que a tua palidez que tanto me fascinava era uma palidez doentia? A morte a tinha lambido com seu manto escuro; e eu sem ter mais a quem amar, escrevi essa carta imaginando como você seria se não tivesse partido, daria tudo pra sentir a ti nem que por um segundo sequer. Porque te foste, minha doce Luiza? Eu ainda te amo, e sei que minha vida ainda está conectada a sua transcendendo o abismo da morte.