quarta-feira, 23 de maio de 2012

Espelhos Internos




Imaginar... Foi sempre o que eu fiz de melhor - se é que fiz alguma coisa em minha vida - sempre criava na mente outras vidas, via cada detalhe; como eu seria se fosse outra pessoa, em outra época, via a mim como um mendigo morando em um beco úmido, logo em seguida me idealizava  como um faraó vivendo em um grande palácio no antigo Egito. Talvez até pareça um pouco monótono, solitário, frio e desesperado e de certa forma é. Apesar de querer me mostrar para o mundo à solidão era a minha maior companhia, sempre me deixava à vontade, ria e conversava sozinho. Sentia como se eu pudesse fazer tudo; sem conseqüências, tinha o que eu conhecia como “síndrome de Deus” e para a surpresa de todos, eu adorava. Uma coisa que me fazia muito bem era desprezar as pessoas, sentia o poder pulsar em minhas veias, para mim os outros eram apenas vaginas e bundas ambulantes, eu vivia em um mundo paralelo onde eu me sustentava; as ruas e cidades do meu mundo eram repletas de pessoas como eu, o surfista na praia era eu, o balconista da loja era eu, as pessoas que faziam sexo ali, na rua, eram eu também, o rei que estava sendo no trono, o deus a quem todos esses “eu” rezavam a noite, todos eram eu. Fantasiei muito e acho que um dos meus maiores devaneios sem dúvida era o desejo que sentia de fazer sexo comigo mesmo, assim como se eu pudesse de repente me transformar em dois e sentir minha pele a tocar ela mesma, meus lábios sentindo seu próprio sabor; meu próprio calor. Admito que isso de fato é muito estranho, porém não me envergonho. Creio que seja uma coisa minha. Como se fosse uma digital?
 Sabe uma coisa eu sempre quis muito? Queria entrar na cabeça das pessoas saber tudo aquilo que elas escondem de todo mundo; e às vezes até delas mesmas, suas luxurias e medos. Em falar em medo tenho pra mim que esse é o sentimento mais humano; e tendo a não gostar de ser humano pelo fato do tal medo existir. Fragiliza, concordas? Às vezes te olho assim profundamente e sei que te assusto, logo por que minha figura não é das mais agradáveis. Acredita que virei todos os espelhos de minha casa em direção à parede porque não quero ver meu rosto, o meu corpo? Por quê? Ainda pergunta? Veja só este homem, não sou mais eu, bom talvez eu nunca tenha sido quem sonhei ser. Pode parecer audácia minha, mas fui o jovem mais belo que conheci.Você sabe, não sabe? Então; tinha olhos lindos cheios de magia e talvez tenha me apaixonado por eles, passava horas os olhando e parecia que a minha imagem refletida no espelho tomava vida própria e me manipulava. Sei, sei estou voltando com essa psicose, mas é que não consigo evitar, não consigo parar de pensar no que eu fui. Maldita nostalgia. Quero mais um copo de uísque! Sim; como eu estava te falando antes de entrar de novo nessa viagem. Tinha olhos lindos que cintilavam a luz do sol, um cabelo de toque aveludado, minha boca tinha traços delicados como um pêssego maduro, minha pele era rosada, tinha cheiro agradável. Alegro-me em saber que todos e todas me desejavam desesperadamente. Linda juventude! Minha voz tinha um tom solene. Porém o tempo veio até mim como vai a todo mundo, foi cruel tirou de mim o único amor que tive a vida toda, entende? Creio que não. Frustrei-me de uma forma insana, pensava que eu tinha algum tipo de privilégio, que podia burlar o tempo, fantasiei que se negasse para todo mundo -inclusive para mim - nunca iria envelhecer. Tornar-se-ia verdade.
Não sonho mais, findei minha imaginação, não a uso, ela não me traz coisas boas, agora só consigo pensar na morte. Depressivo não achas? Não se podia esperar muita coisa de um velho ferido pela perda do próprio narcisismo. O lago voltou-se contra mim... Olha só essa face cheia de marcas, linhas malditas! Minha voz; sei que está seca não é mais melodiosa, é triste, decrépita. Eu não deveria sofrer tanto porque sei que meu coração morreu quando percebi que não era mais atraente. As pessoas começaram a me tratar com desprezo, tinham nojo de mim. Os meus subordinados riam de mim, virei alvo da ponta dos dedos. Talvez eu tenha um grande defeito, meu corpo sofre a ação dos dias e noites porem meu espirito é jovem, sou um jovem aprisionado pelo tempo em um corpo que se decompõe em vida. Os meus pés e costas doem fiz muito esforço para estar aqui, mas eu precisava vir. O sol está lindo nessa tarde não acha? Adoro essa brisa constante que só posso sentir aqui em cima, as pessoas parecem tão pequenas daqui, e na verdade são, almas anãs em corpos de gigante. São um monte de cabecinhas andando em cima de pontinhos coloridos, umas vão outras vem, sempre procurando alguma coisa que nunca vão achar. Sempre admirei os pássaros e quando criança pedia a Deus todos os dias para que me desse um belo par de asas negras, queria desfilar a minha beleza pelo céu e brilhar mais que o próprio sol. Olhando daqui, com o vento nos meus ralos cabelos brancos, me deu aquela vontade de pular, talvez eu ainda escute o barulho dos ossos se quebrando no asfalto ainda quente, gosto do barulho das coisas. Mas agora nada disso importa, estou condenado a perecer aqui sozinho, naquela  casa escura tendo que me deparar com essa cara, fétida, suja cheia de deformidades e delirar constantemente contando a ti repetidamente essa mesma historia, e me martirizando ainda mais vendo a tuas faces perfeitas, de certa forma me alegro por saber que tu sou eu, ou melhor, que já fui você.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Confronto



E de repente quando me vi estava no meio do campo verde e corria desesperado, sentia o medo impor seu sabor ao meu coração que batia descontroladamente suplicando pela ausência daquele sentimento. Minhas pernas davam passadas largas e tremiam freneticamente, minhas vestimentas escuras se confundiam com o negro da noite, que parecia rir do meu pavor. E quanto mais corria mais se aproximava de mim e meus pelos se ouriçavam de pavor enquanto gritos abafados saiam estridentes de minha garganta, que doía. Continuava correndo pelos campos que não eram mais verdes, agora estavam completamente em meio às trevas, minhas pupilas se esforçavam para encontrar o mínimo de luz possível, mas parecia inútil. A terra começou a tremer e eu parei e observei, uma luz avermelhada começava sair das fendas criadas no solo, só então eu pude ver que minhas roupas estavam rasgadas e minha pele embebida em sangue, ele era atraente e tinha cheiro bom, um vermelho vívido. Desviei minha atenção de volta as fendas que formavam desenhos no chão, e por elas saíram dedos e depois mãos e pés, muitos pés e mãos, em seguidas braços e olhos, bocas e cabelos, asas de morcego. Pareciam pessoas só que de uma beleza sobrenatural, altos e de olhos grandes, tinham todas as variantes de cores humanas, uns riam com a boca fechada, outros apenas olhavam com ternura, se aproximaram de mim sem tocar o chão usando suas enormes asas de morcego, o meu pavor aumentava gradativamente enquanto eles se aproximavam de mim, até que o maior deles voou rápido e se pôs a minha frente, o vento do movimento de suas asas me derrubou ao chão, homens e mulheres me olhavam. Ele se aproximou e me estendeu a mão e eu em um impulso aceitei o convite velado, levantei-me com sua ajuda, e ele apontou com o dedo indicador da mão esquerda que tinha um anel enorme com uma pedra azul, ele apontava para onde anteriormente estariam as fendas, elas agora não mais existiam o campo votou a ser verde agora iluminado pela lua cheia, os homens e mulheres, que juntamente com ele saíram da fenda, se entrelaçavam fundidos pelo sexo, rolavam e gemiam na grama e pareciam serem células de um só corpo gigantesco que se espalhava pelo campo inteiro, formava uma figura conhecida, porem não consegui identificar qual era. Ele me olhava enquanto continuava a apontar, voltei minha atenção as minhas roupas e aos cortes de minha pele e eles continuavam a sangrar e a ter cheiro bom. Eu observava com um temor sorridente, comecei a ri descontrolado, e minha gargalhada era seca e tenebrosa, tive medo de mim mesmo. Eu o olhava e esperava que ele falasse alguma coisa, mas ele mantia-se mudo e isso me deixava a cada momento mais irritado, meus olhos doíam, pareciam estar em chamas, queria entender o que acontecia, o porquê daquilo tudo, o porquê de eu estar ali. Voltei minha atenção mais uma vez para meu corpo que continuava a sangrar, e quando olhei de novo para a orgia, não estava mais lá, nem mesmo ele estava lá. Tudo tornou-se escuro novamente e o pavor mais uma vez persegue meu coração, tentei correr e não consegui, estava preso ao chão, teve novamente a sensação de que algo me perseguia e me assombrava, ouvi gargalhadas secas e tenebrosas e percebi que elas eram minhas, porem eu não tinha rido, parecia estarem dentro de minha cabeça. De repente a lua novamente sai dentre as nuvens e meus olhos conseguem detectar pequenos focos de luzes ao meu redor, parecia luz refletida em espelho, e era. Com a luz do luar pude ver que eu estava preso em uma redoma de espelhos que tinham apenas uma abertura por cima, fiquei sufocado por um instante, logo me acalmei e olhei fixamente nos espelhos e em vez de refletirem a minha imagem refletiam a imagem dos homens e mulheres que saíram da fenda, olhavam para mim com fome de poder, fui virando formando um circulo perfeito prestando atenção em cada imagem, cada figura, eles pareciam-se comigo, e cada um parecia-se com o próximo e assim sucessivamente fiquei meio assustado e logo me deparei com o maior de todos os espelhos e ele estava lá, imóvel fitando-me com seus olhos gélidos, olhei com surpresa e o confrontei com um olhar, senti vontade de fugir e parecia não ter como, senti o vento que vinha de cima da redoma e esfriava a minha pele, então tive um louco pensamento e comecei a tentar voar com asas que não tinha, batia os braços loucamente, meus pés se desligavam do solo vagarosamente e eu sentia uma ânsia que nunca na vida havia sentido, a altura foi aumentando  e eu batia os braços mais rápido, sentia o cheiro do vento entrar pelas minhas narinas sentia uma felicidade incontrolável, na verdade não queria controlá-la, voava mais auto a esperança traspassava meu coração como uma flecha, parecia que eu enfim deixaria para traz todos os meus demônios. Logo toda minha esperança torna se pó quando sinto uma força puxar-me para baixo, bato os braços mais rápido ainda mesmo assim continuo a descer me sinto desesperado como se tivesse morrendo afogado; eles voltam a me puxar, e quando enfim caio ao chão bato com violência a cabeça no espelho em que ele está reduzindo-o a minúsculos cacos, os outros se quebrando um a um. Minha vista vai ficando turva e logo não enxergo nada, apenas ouço o barulho dos espelhos se espatifando. O que me lembro depois é de ter acordado sendo apenas eu, sem espelhos, ou demônios, cortes ou sangue.