Imaginar...
Foi sempre o que eu fiz de melhor - se é que fiz alguma coisa em minha vida -
sempre criava na mente outras vidas, via cada detalhe; como eu seria se fosse
outra pessoa, em outra época, via a mim como um mendigo morando em um beco
úmido, logo em seguida me idealizava como um faraó vivendo em um grande palácio no
antigo Egito. Talvez até pareça um pouco monótono, solitário, frio e desesperado
e de certa forma é. Apesar de querer me mostrar para o mundo à solidão era a
minha maior companhia, sempre me deixava à vontade, ria e conversava sozinho. Sentia
como se eu pudesse fazer tudo; sem conseqüências, tinha o que eu conhecia como
“síndrome de Deus” e para a surpresa de todos, eu adorava. Uma coisa que me fazia
muito bem era desprezar as pessoas, sentia o poder pulsar em minhas veias, para
mim os outros eram apenas vaginas e bundas ambulantes, eu vivia em um mundo
paralelo onde eu me sustentava; as ruas e cidades do meu mundo eram repletas de
pessoas como eu, o surfista na praia era eu, o balconista da loja era eu, as
pessoas que faziam sexo ali, na rua, eram eu também, o rei que estava sendo no
trono, o deus a quem todos esses “eu” rezavam a noite, todos eram eu. Fantasiei
muito e acho que um dos meus maiores devaneios sem dúvida era o desejo que
sentia de fazer sexo comigo mesmo, assim como se eu pudesse de repente me
transformar em dois e sentir minha pele a tocar ela mesma, meus lábios sentindo
seu próprio sabor; meu próprio calor. Admito que isso de fato é muito estranho,
porém não me envergonho. Creio que seja uma coisa minha. Como se fosse uma
digital?
Sabe uma coisa eu sempre quis muito? Queria
entrar na cabeça das pessoas saber tudo aquilo que elas escondem de todo mundo;
e às vezes até delas mesmas, suas luxurias e medos. Em falar em medo tenho pra
mim que esse é o sentimento mais humano; e tendo a não gostar de ser humano pelo
fato do tal medo existir. Fragiliza, concordas? Às vezes te olho assim
profundamente e sei que te assusto, logo por que minha figura não é das mais
agradáveis. Acredita que virei todos os espelhos de minha casa em direção à
parede porque não quero ver meu rosto, o meu corpo? Por quê? Ainda pergunta?
Veja só este homem, não sou mais eu, bom talvez eu nunca tenha sido quem sonhei
ser. Pode parecer audácia minha, mas fui o jovem mais belo que conheci.Você
sabe, não sabe? Então; tinha olhos lindos cheios de magia e talvez tenha me
apaixonado por eles, passava horas os olhando e parecia que a minha imagem
refletida no espelho tomava vida própria e me manipulava. Sei, sei estou
voltando com essa psicose, mas é que não consigo evitar, não consigo parar de
pensar no que eu fui. Maldita nostalgia. Quero mais um copo de uísque! Sim;
como eu estava te falando antes de entrar de novo nessa viagem. Tinha olhos
lindos que cintilavam a luz do sol, um cabelo de toque aveludado, minha boca
tinha traços delicados como um pêssego maduro, minha pele era rosada, tinha
cheiro agradável. Alegro-me em saber que todos e todas me desejavam desesperadamente.
Linda juventude! Minha voz tinha um tom solene. Porém o tempo veio até mim como
vai a todo mundo, foi cruel tirou de mim o único amor que tive a vida toda,
entende? Creio que não. Frustrei-me de uma forma insana, pensava que eu tinha
algum tipo de privilégio, que podia burlar o tempo, fantasiei que se negasse
para todo mundo -inclusive para mim - nunca iria envelhecer. Tornar-se-ia
verdade.
Não
sonho mais, findei minha imaginação, não a uso, ela não me traz coisas boas,
agora só consigo pensar na morte. Depressivo não achas? Não se podia esperar
muita coisa de um velho ferido pela perda do próprio narcisismo. O lago voltou-se
contra mim... Olha só essa face cheia de marcas, linhas malditas! Minha voz;
sei que está seca não é mais melodiosa, é triste, decrépita. Eu não deveria
sofrer tanto porque sei que meu coração morreu quando percebi que não era mais
atraente. As pessoas começaram a me tratar com desprezo, tinham nojo de mim. Os
meus subordinados riam de mim, virei alvo da ponta dos dedos. Talvez eu tenha
um grande defeito, meu corpo sofre a ação dos dias e noites porem meu espirito
é jovem, sou um jovem aprisionado pelo tempo em um corpo que se decompõe em
vida. Os meus pés e costas doem fiz muito esforço para estar aqui, mas eu
precisava vir. O sol está lindo nessa tarde não acha? Adoro essa brisa constante
que só posso sentir aqui em cima, as pessoas parecem tão pequenas daqui, e na
verdade são, almas anãs em corpos de gigante. São um monte de cabecinhas
andando em cima de pontinhos coloridos, umas vão outras vem, sempre procurando
alguma coisa que nunca vão achar. Sempre admirei os pássaros e quando criança
pedia a Deus todos os dias para que me desse um belo par de asas negras, queria
desfilar a minha beleza pelo céu e brilhar mais que o próprio sol. Olhando daqui,
com o vento nos meus ralos cabelos brancos, me deu aquela vontade de pular,
talvez eu ainda escute o barulho dos ossos se quebrando no asfalto ainda
quente, gosto do barulho das coisas. Mas agora nada disso importa, estou
condenado a perecer aqui sozinho, naquela
casa escura tendo que me deparar com essa cara, fétida, suja cheia de
deformidades e delirar constantemente contando a ti repetidamente essa mesma
historia, e me martirizando ainda mais vendo a tuas faces perfeitas, de certa
forma me alegro por saber que tu sou eu, ou melhor, que já fui você.

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