domingo, 3 de agosto de 2014

Cinco Minutos de um Cigarro




Algumas fotos rabiscadas no verso; odeio essa nostalgia, essa expressão de quem sofre estampada eternizada nas mesmas, todas elas em monologo, de boca e olhos costurados, não literalmente é claro. E as rasuras nas partes detrás das fotos, há alguma coisa mais triste do que uma planta que morre sozinha, esquecida em um vaso na janela? Sentindo a chuva cair a poucos metros sem poder tomar um belo banho de água fria sem ter medo de ficar resfriada. Colhida e aprisionada em um futuro escrito em livros de quinta serie, nasce, cresce se tiver sorte reproduz e com certeza morre. Li hoje no jornal que um menino que logo ficará cego está em uma aventura pelo mundo para ter a maior quantidade possível de imagens a se lembrar, agora me pergunto, é melhor se apegar as lembranças ou é menos doloroso não ter lembrança alguma? Os heróis só são heróis porque não podem ser alcançados, quando são alcançados se tornam apenas mais alguns filhos da puta que tiveram o que alguns chamam de sorte, ou acaso ou essa palavra feia destino. E o que fazer com o sol que não consegue olhar os homens do alto mais do que 12 horas? Faz o seu trabalho e vai embora. E esses pensamentos desordenados aparentemente sem nexo? O que na verdade há nexo? O que na verdade é verdade? O que você é? Quem te fez? Para que serve? Por que eu? Por que não? Canso-me dos dedos amarelados da nicotina do cigarro, mas nunca dos movimentos da fumaça contra a luz e nem do vermelho incandescente da brasa, gosto do fogo. É melhor caminhar em direção à cama de lenções desarrumados de uma vez, antes que me puna ainda mais por não ter um sorriso tão largo e um rosto tão brilhante, quem sabe se forçasse como os palhaços e suas maquiagens de boca? O ócio me corrói como formigas carnívoras que devoram um bebê passarinho que caiu do ninho, vivo e quente. Preciso me experimentar, mas acabo percebendo o limiar da pouca força vital que consegui armazenar em uma bolha guardada ao lado de lembranças inúteis, como se o grande e fabuloso mundo que construí ao longo de milhões de vidas sacrificadas de evolução tivesse se resumido a uma pequena partícula de cinza de um corpo cremado. Estapeado pelo próprio monstro que alimentei com tanto carinho. Um espírito de gigante aprisionado em um frágil corpo de pigmeu com movimentos limitados. É muito mais difícil aprender a voar novamente do que aprender a voar pela primeira vez, estou certo disso.

sábado, 7 de junho de 2014

Tudo Se Vai


Sinto que estou indo embora, e não adianta dizer que não, não adianta derramar às lagrimas quentes guardadas por tanto tempo em uma espécie de casca dura escondida em uma caixa cristalizada no fundo dos olhos levemente puxados. Tenho sentido uma perturbação aguda abaixo do peito esquerdo, talvez a mesma perturbação que uma fruta sofre ao ser devorada por uma larva de mosca, posta sem autorização ou aviso prévio. Às vezes ainda sinto um daqueles sentimentos bons, tal qual a alegria, ou a esperança, mas são bons de verdade? Continuo a dizer que estou indo embora, sozinho e mais devagar do que sempre imaginei que seria. Pensei insensatamente em como tudo isso aconteceria, em quanto tempo estaria eu aqui onde estou ouvindo apenas o tic-tac do relógio que não desististe de trabalhar, misturado com o som das teclas da maquina de escrever não aceita mais na sociedade moderna. Esta mistura sonora que às vezes soa estranha no espaço aberto do quarto abafado pelo forro de madeira. Fiz uma lista com as pretensões mais mirabolantes que alguém pode ter, não sei ao certo o porquê desta ação, mas talvez sirva para alguém que não tenha pretensões, ou pelo menos não tenha tantas quanto eu tive, é triste pensar que elas se resumem a isso, pretensões. É bizarro como somos expulsos dos corpos de nossos pais, e lançados para sobreviver à mercê da sorte ou da vontade divina, esmagados por nossas próprias frustrações, somos amaldiçoados com o dom da ganancia, da vontade de viver. Talvez os ignorantes sejam mais felizes, afinal de contas um mundo pequeno é mais fácil de manter-se organizado. Uma das coisas que ainda me conforta é ver o pôr-do-sol, ou às vezes quando chove, e aqui chove quase todos os dias, sentir o cheiro da terra molhada. É interessante perceber o grau de importância que a sua presença exerce nas pessoas, e mais interessante ainda é saber que quando tudo estiver acabado o que em primeiro momento parecia uma montanha intransponível se torna gradativamente leve até virar de vez uma pluma, leve, esvoaçante, fácil de carregar, talvez seja esse um dos mecanismos de defesa das pessoas humanas, essa memoria curta, o que hoje é importante amanha não é mais, e logo depois se substitui por outra peça praticamente igual, apenas com algumas divergências. Sei que você não pensa assim, e acredita que pelo simples fato de algumas partes da biologia dos homens não serem compatíveis nos tornamos únicos, mas não é bem assim, tudo o que você já disse alguém anteriormente já havia falado da mesma forma, tudo que você pensou a vida toda outra pessoa já havia pensado exatamente igual, até mesmo as angústias que agora esmagam devagar a caixa pulsante do peito, não são obras suas. Volto a informar que estou indo embora e talvez isso tenha se tornado chato, mas a cada palavra solta, a cada hora que passa é uma gota de vida que escorre e é absorvida pela terra, de onde sinceramente nunca deveria ter saído. Parei subitamente para analisar o porquê (venho eu novamente com meus porquês) desse aglomerado de palavras pulsando na folha branca, talvez seja isso! Não consigo aceitar esse destino de acabar na gaveta de historias esquecidas de alguém, como eu já disse que nada é novo, tudo é reproduzido, renomeado, talvez essas palavras sirvam de algum conforto. Sei que agora você está com uma bola de sentimentos na garganta, e algumas lagrimas que no começo eu disse é repeti que não era a hora de serem expulsas, imaginei que seria dessa forma. Ainda sinto vontade de fazer aquela tatuagem, de ter mais livros na estante, alguns gatos na casa, uma vitrola que funcione, o cabelo mais branco, uma voz mais potente, mais brilho nos olhos... Quem sabe na próxima vida.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Pedro e o Vento




Pedro não tinha mais do que seis ou sete anos e o coração cheio de sonhos. Gostava de tardes frias e do som que o vento fazia nas árvores do parque próximo de onde morava, aliás, o vento era o mais fascinante de todos os elementos segundo ele, criou uma teoria bem no fundo dos olhos negros meio caído dos lados que muito se assemelhavam ao velho pierrô de porcelana que enfeitava a parede em tons de terra do quarto que ainda conservava um cheiro de quarto de bebê, acreditava que o mais abstrato dos elementos era nada mais nada menos do que sentimentos de todos os tipos que não se contentavam em existir apenas em um ser pensante, precisavam percorrer a terra, acreditava que eram sentimentos que não se contentavam com a prisão do homem, eram livres. Pedro gostava de cuidar das flores do pequeno jardim, que quase sempre morriam após o terceiro dia o que era um tanto frustrante, mesmo assim nunca desistiu delas, as mais frágeis o cativava mais recebendo atenção maior e também nomes estranhos quase sempre imemoráveis criados apenas com a junção desordenada de silabas que mais pareciam palavras em alemão quando faladas depressa. O menino via o mundo de uma forma impar, como se cada nuvem no céu não fosse apenas um aglomerado de água gasosa como alguém com más intenções quis lhe impor um dia, mas um projeto, um rascunho de alguém que usava a imensidão azul como folha em branco e não importava a nomenclatura o importante era que existe, pelo menos pra ele existia, o que já era mais do que suficiente. Em um dos dias comuns, como eram taxados qualquer um dos dias que não eram sábados, domingos ou feriados, após chegar em casa com as primeiras frases completas feitas por ele sem auxilio rasuradas no pequeno caderno de capa grossa com simples detalhes em vermelho, olhou admirado o feito novo, se trancou no quarto e sentou na escrivaninha com aparência um tanto velha para o quarto de alguém que ainda não tinha atingido nem os dois dígitos de idade cronológica, repetiu incessantemente, refazendo e desenhando cada uma das letras com todo capricho. Os dias subsequentes foram todos preenchidos com essa rotina, cada dia com uma frase diferente cheia de emoção. Pedro gostava das letras, mas queria entender o seu real proposito na vida dos homens, em uma conversa franca com a professora, que assustava um pouco pelas suas sobrancelhas grossas que pareciam sempre expressar um descontentamento, foi bombardeado por um discurso gigante, ao qual conseguiu retirar uma parte importante para ele, Pedro descobriu que poderia escrever o que sentia e eternizar seus pensamentos, o menino ficou fascinado e tratou logo de capturar cada um dos pensamentos que surgiam atrás dos seus pequenos olhos escuros, escreveu todos que sabia em pequenos papeis cortados em quadrado e guardou com carinho cada um deles em uma caixinha enfeitada com algumas de suas flores mortas coladas, por vários dias se dedicou exaustivamente a essa missão. Se esquivando do olhar atendo de sua mãe, ousou subir no ponto mais alto do prédio era fim de tarde e o sol já se despedia, sentiu uma extrema sensação de liberdade, e munido de todos os seus sonhos escritos na caixinha, despejou ao sabor do vento, e deixou que os sentimentos libertos levassem seus sonhos a quem pudesse ler, e talvez tivessem os mesmos, ou talvez passassem a ter, era esvaziar a caixinha para dar espaço a novos pensamentos.