Olá
senhorita, estava esperando por você... Essa frase é meio esdruxula não acha? Me
lembra uma daquelas mulheres metidas a cigana, mas que não sabem nem o que isso
quer dizer, com aqueles brincos enormes nas orelhas e o seu velho e surrado
baralho de tarô desgastado de tanto enganar pobres desesperados, não que eu já
tenha visitado alguma delas, na verdade tenho até uma certa curiosidade, mas
nunca fui, é que vejo na TV que por um acaso fica sempre ligada, assim não me
sinto o tempo inteiro sobre a tua influencia. Há algum tempo não a vejo, e pelo
que me lembro você não estava tão sorridente da ultima vez. Está toda
enfeitada, fez isso tudo só para me ver? Que honra! Afinal de contas tu
continuas a ser uma visita mais que ilustre. Conheço esse meio sorriso, sei que
ficas feliz quando conjugo tão vivamente os verbos. Não agradeça isso não é
muito do seu feitio. Não repare na bagunça. Sei que você até gosta desse lugar
do jeito que está, cheio de restos de comida espalhados, cinzeiros cheios e com
aquele ar meio pesado. Mas me fale de você. Aceita um pouco de chá é aquele com
a mistura de ervas, não faz tanto tempo que você se foi... É verdade, que você
foi expulsa, mas isso já passou, já somos adultos o bastante pra lidar com isso
– essa é outra daquelas frases, até parece que porque deixamos de crescer
fisicamente nos tornamos soberanos, porem você entendeu o que eu quis dizer –
então continuaremos, certo? Esse perfume é francês? Creio que sim, tu continuas
a ser muito elegante, vi quando você entrou com todos esses rubis enormes nas
orelhas e no pescoço, são rubis não são? Ou é alguma daquelas pedras raríssimas
de que nunca ouvi falar? Porque estou rindo? É que quando nunca a tinha visto,
apenas havia ouvido falar de ti, ou então lido em um livro como você tratava as
pessoas, imaginava tuas faces de outra forma, perdoe pelo que vou dizer, mas te
imaginava feia e decrepita, me enganei absurdamente, se eu fosse uma mulher
queria ser assim como você, queria ter esse olhar meio felino que tu tens, e
essa voz, meio estalada, e claro todas essas joias que tilintam quando você anda,
como agora. Acho muito engraçado o jeito como você se senta, não sei se já percebeu,
mas sempre passa a mão na parte detrás das saias em seguida inclina levemente a
cabeça para traz e olha quem está sentado, de cima, num gesto meio soberano,
depois se senta calmamente, e por fim cruza as pernas ainda muito bonitas para
sua idade. Não, não vá, desculpe não queria te analisar novamente e nem tão
pouco te chamar de velha, por favor, fique, estava sentindo sua falta. Temos
muito que conversar, parece que nos distanciamos nesse tempo que passamos
separados, estou me sentindo um pouco desconfortável contigo, como se nos
conhecêssemos agora, estranhos que se apresentam, quero reavivar nossa amizade,
nossa cumplicidade, você voltou a ser tudo o que eu tenho. Não me olhe com esse
maldito olhar de piedade, você sabe que eu odeio! Tudo bem eu me acalmo. Senti
tanta falta do teu abraço, das nossas conversas até tarde da noite, das nossas
risadas do mundo lá fora, de você me dizendo que eu seria mais feliz aqui
contigo, você estava certa... Deixe que eu chore, eu só quero chorar agora
jogado no chão. Levante-se você está acima de mais para sentar-se ao chão além
do mais irá sujar seu lindo vestido. Por que não acreditei em você? Olha só o
que fiz quebrei meu ultimo aparelho de chá, odeio ser um maldito desastrado,
será que nunca vou conseguir manter nada? Até você que eu pensei que nunca
fosse embora eu consegui expulsar, continuo assim expelindo as pessoas da minha
vida, fazendo caminhos para longe de mim. Eu me acostumei a viver sem tua
presença, me habituei a viver seu seus conselhos, agora me sinto o maior dos
idiotas em te pedir que volte que me ajude a voltar a ter somente a ti. Eu sei,
eu sei de tudo que eu fiz! Acreditei nele... Era tão convincente, dizia tantas
coisas bonitas, eu queria ser feliz. Eu sei o que você me disse sobre ela, que
ela não é confiável, mas todo mundo fala tão bem dela, queria vê-la com meus
próprios olhos, como será a Dona Felicidade? Na certa uma daquelas velhas donas
de cabaré. Vamos esquecê-los por um instante, vamos para a sacada, é o meu
lugar favorito, e o mais limpo também. Espere só um instante enquanto preparo
um copo com conhaque, aceita? Você fica muito mais linda com a luminosidade da
lua, eu já havia dito isto a ti, não? Deixe que te olhe novamente, sempre me
perdi nos teus cabelos escuros que escorrem ligeiros sobre os ombros e na tua
boca de imensa delicadeza e nesse corpo de mulher madura que já possuiu tantos
como eu. Sei que você gosta desse silêncio que se instala quando nos faltam as
palavras, mas eu queria ouvir um pouco de musica se não se importa. É um
daqueles Blues antigos que te fazem tão bem, lembro que uma vez você me disse que
gostava por que te lembrava das vidas que são suas. O dia está calmo é nesses
dias que te vejo brilhar. Às vezes queria ver pelos teus olhos, ver todo mundo
que já foi teu, como viveram, queria saber de quantos rostos você já teve. Eu
olhando para o telefone? Claro que eu não estou olhando para ele. Não eu não estou
esperando nenhuma ligação! Sei, sei tenho que ouvir somente você, sei que você
é minha melhor companhia, nunca mais vou deixar-te, eu prometo, sei que você é
a mulher da minha vida. Posso dançar um pouco contigo? Essa é aquela musica que
ouvíamos juntos, sempre, você gostava porque ela grita a plenos pulmões que o
amor é um jogo de azar, e você dizia para que eu me afastasse dele, por que o
conhecia muito bem. Como fui tolo! Eu já te contei como foi que tudo aconteceu?
Pois bem, era um dia daqueles que acordava de mau humor por te encontrar sempre
por aqui, você lembra? Disse que não a queria vê-la aquele dia, me arrumei e
coloquei meu melhor sorriso no rosto e comecei a andar sem saber ao certo para
onde ia, e em uma daquelas esquinas em que as calçadas são cheias daquelas árvores
de flores muito coloridas que nessa época do ano desabrocham e enchem a rua de
perfume, eu andava e olhava para o céu que estava muito azul e sem nem uma
nuvem o que é raro onde vivemos, quando atravessei a rua lá estava ele, com
aquele maldito sorriso perfeito, tinha até covinhas nas bochechas que eu devo
confessar achava muito brega, mas nele estavam lindas, ele fez um gesto com as
mãos me convidando a sentar na mesa de um barzinho daqueles que as cadeiras são
de madeira e eles sempre põem uma flor em um pequeno jarro de vidro com uma
fina cintura, desta vez era uma margarida. Sabe uma vez li em um livro de Caio
Fernando Abreu que ele dizia assim: “E de repente olhaste uma flor sobre uma sepultura
e disseste que gostava tanto de amarelo e eu disse que amarelo era tão vida e
sorriste compreendendo e eu sorri conseguindo e vimos uma margarida e nem
sequer era primavera e disseste que margarida era amarelo e branco e eu disse
que branco era paz e disseste que amarelo era desespero e dissemos quase juntos
que margarida era então desespero cercado de paz por todos os lados”. Pensei em
citar essa parte que sabia decorado, quando ele gentilmente tirou a flor
delicada do vasinho e me entregou embalada em um outro sufocante sorriso, mas
me contive não queria parecer abusado, ou dá uma de intelectual, acho que me
deu aquela velha vontade de agradar, sabe? Conversamos por muito tempo e nem vi
o tempo passar, eu o olhava fazendo uma linha com os olhos sempre saindo do
olho esquerdo em direção ao direito depois a boca, depois os olhos novamente e
ficava gulosamente tentando ver tudo de uma vez só, acho que até me atrapalhei
algumas vezes. Depois de alguns cafés ele parou de falar e me olhava como se eu
estivesse coberto por um código que ele tinha o dever de decifrar, e para ser
sincero eu acho que ele o fez, então ele respirou fundo e isso me assustou um
pouco, as pessoas sempre respiram fundo antes de fazer comunicados importantes,
em seguida perguntou delicadamente se podia tocar na minha mão, fiquei um pouco
surpreso e quis perguntar o porque daquilo, mas logo desisti, porque tive medo
que ele voltasse atrás no pedido, e com um gesto de cabeça dei o aval, ele
aproximou sua mão grande da minha que pareceu tão insignificante em comparação
com a dele, me deu aquele frio na barriga de quando andávamos eu e você, juntos
na roda gigante daquele velho parque, lembra? Eu senti uma modificação interna
instantânea e não sabia o que era, mas sabia que era bom, trocamos telefones e
voltei para casa, como nunca havia me sentido na vida. Você ainda estava aqui a
minha espera, pensei em contar-te, mas achei que você não receberia bem, então
me contive. Fizemos as pazes ainda aquela noite e dormimos abraçados como
costumávamos fazer todas as noites mas
ele não saia da minha cabeça. Encontramo-nos outras vezes sempre no mesmo
barzinho. Um dia ele me disse que queria me mostrar um lugar, andamos um pouco
numa trilha até chegar a um lugar onde tinha uma pedra em forma de coração,
achei essa parte um tanto quando adocicada de mais, mas estava tudo bem, acho
que já tinha absorvido muito de você, assistimos ao despedir do sol abraçados e
eis que acontece o primeiro beijo, na medida certa, senti até o elevar-se dos
pelos. Quando voltei ainda acordada como sempre a minha espera, gritou comigo
me impôs autoridade, eu já estava farto então falei com toda convicção que a
queria fora da minha vida. Joguei-te para fora dela, expulsa como um cão sarnento, estava errado... Depois nos
desentendemos, ele queria que eu mudasse alguma coisa em mim, porque se não ele
não conseguiria viver comigo daquele jeito, eu recusei, fiquei furioso e
resolvi te trazer de volta, estou envergonhado. Eu não estou esperando ligação
alguma! Você está ficando obsessiva com isso! Bom! Não falaremos mais nele
combinado? Vamos falar de nós. Lembra quando eu era criança? Costumávamos brincar
juntos embaixo daquela goiabeira, fazíamos desenhos no chão, lembra? Você sempre
tomava banho de rio comigo quando ninguém mais me queria por perto, me dava
conselhos de como lidar com as pessoas, bons concelhos, eu te falava das minhas
esperanças e você dizia que ela não iria fazer nada por mim. Eu já te falei que
gosto de ouvir o barulho dos bichos á noite? Eu sei que você detesta, mas eu
acho inspirador. Eu sei que não posso entender, mas deixa só dessa vez, não eu
não vou te mandar embora outra vez, só que eu preciso falar com ele, por favor!
Não fica chateada comigo... Ouviu o que ele disse? Disse que quer me ver.
Desculpa, mas eu tenho que ir. Quando chegar, te conto como foi.
Ainda está
acordada? Quando sai daqui me senti tão inseguro, ainda tentei voltar por duas
vezes, mas não podia, precisava vê-lo, meu coração palpitava de tanta
ansiedade, e quando dobrei a esquina lá estava ele de novo vestido com um belo
sorriso e mais uma margarida na mão, desta vez eu recitei aquele trecho do
livro, lembra? Que fala sobre as margaridas? Senti-me feliz, talvez ela não
seja tão feia assim, eu sei o que você pensa dela, mas eu permiti. Queria que você
me entendesse! Queria dividir minha vida entre vocês e me livrar finalmente
desses velhos penduricalhos que adquiri de forma meio invasiva ao longo da
vida. Você que também sou eu e ele que é
o meu Amor. Sei que quando alguém me quebrar ou fizer com que me perca, só você
minha querida solidão vai fazer com que me reconstrua e me erga novamente.

