domingo, 21 de junho de 2015

Laura e os insetos


 
 
Ela por fora era como todas as outras crianças, e quando eu digo por fora, quero dizer do material, do que as pessoas são feitas? É claro que havia suas particularidades e a que chamava mais a atenção eram os incríveis olhos enormes de um tom a ser definido, parecia uma junção de tudo, com um núcleo de um turvo profundo, que se olhado bem de perto observa-se uma ausência de brilho, triste? Laura tinha dedos pequenos e mãos delicadas que na maioria do tempo serviam para o transporte dos inúmeros insetos que colecionava dentro de velhos frascos de vidro de café, quando não era um belo suporte para os livros que estavam sempre sendo devorados pelos grandes olhos de Laura. Ela não gostava muito do sol, apesar de passar horas e horas pensando na sua importância e como seria se um dia conhecesse o temperamento dele, mas gostava de sentar no chão da sala e observar os raios que entravam pela janela e caminhavam lentos pelo assoalho, ralado dos sapatos altos de sua mãe, até a parede branca, até sumirem no fim de tarde. Nesse momento era a hora de sair de casa, com um vigor de dar inveja, com o intuito de capturar mais alguns fascinantes insetos. E os dias se alternavam assim como tudo no resto do mundo, e se passavam semanas, e vinham datas importantes, e a euforia repetitiva das pessoas, e suas loucuras comerciais, e Laura embriagada no seu mundo totalmente indiferente dos gritos ao seu redor, é possível? Esperava ansiosamente o seu resgate, que a princípio seria através de uma nave luminosa de homenzinhos verdes com olhos tão grandes quanto os dela, depois um alguém que ela não sabia onde morava, como era, ou como se chamava, mas sabia que existia e que a ajudaria com o seu maior sonho, o de quebrar a rotatividade do mundo, de libertar todo mundo do triste ciclo da vida. Um dia ao passear a procura de mais insetos viu uma menina brincando com uma boneca de pano, ao qual ela lançava incessantemente para o alto em um movimento exaustivo. Laura não tinha o hábito de conversar muitos com as pessoas somente o necessário, mas sentiu uma vontade incontrolável de perguntar qual o propósito daquilo, e se aproximou devagar com passos curtos e firmes, tocou no ombro da menina e perguntou por que ela lançava a boneca pra cima, uma nova brincadeira? A menina virou solícita e disse que a boneca estava voando. Laura frangiu a testa e se trancou por alguns segundos atrás dos seus olhos indefinidos, a ponto de nem perceber que o besouro que trazia entre os pequenos dedos escapava sorrateiro. Laura pensou como? Que inútil! E complementou o pensamento com a fala:
 - É inútil ela vai sempre cair, bonecas não voam.
A menina com um sorriso que se desfazia no rosto, respondeu com a voz meio trêmula de decepção.
 - Voam sim, se eu quiser que voem!
Ao tempo que se calava flexionava os joelhos para correr, e o fez, enquanto Laura via a poeira que se formava no correr da garotinha. Voltou pra casa sem os seus besouros, mas por algum motivo as palavras da menina não saiam de sua cabeça. No dia seguinte retornou para ver se encontrava a menina, e lá estava ela novamente no movimento de jogar a boneca que já se rasgava nas costuras por causa do intenso desgaste. Laura novamente tocou no ombro na garotinha que desta vez não ofereceu um sorriso, então se apressou a falar:
- eu entendi o que você quis dizer, não importa a quantidade do voo, certo? O que importa é que aconteça.
A menina que nunca tinha parado para pensar nisso, porque para ela só o fato de estar ali já era o suficiente, concordou com um aceno de cabeça. Laura então convidou a menina para procurar insetos com ela, à menina aceitou presenteando-a com um novo sorriso, Laura a partir dali explicava para a menina como os insetos eram fascinantes, e da espera dela de alguém que iria liberta-la do ciclo do mundo. Sem perceber Laura já tinha encontrado quem ela esperava só não entendia ainda, e talvez nunca entenda.

domingo, 14 de junho de 2015

Batom Vermelho Sangue




As vezes entre um click e outro do relógio enquanto o mundo inteiro parece sofrer de mudez aguda em um daqueles espaços de tempo que se pararmos e observarmos conseguimos ouvir o som de nossa própria respiração, coisa que quase sempre não nos atentamos, mas ela está sempre lá. Ressalva de quando levamos algum susto daqueles que deixam os pés mais leves como quando se desce bem rápido da montanha russa, ou como quando recebemos a noticia de que seu artista favorito foi mais uma vitima de seus próprios ais e por consequência morreu de overdose. O fato é que nesses espaços de tempo sempre passam atrocidades pelas nossas mentes, sempre em formação.
Lembro-me alguns anos atrás, quando descobria meu corpo e dos que lá estavam comigo, alguns pêlos que não pediam licença para aparecer em lugares que não eram tão notados anteriormente e confesso que em algumas vezes causavam, os pêlos, algum tipo de desconforto. Já não compartilhava meu total equilíbrio, mas os dias se iam tão lentos quanto às folhas que caiam das arvores do jardim mal cuidado da nossa casa de paredes grossas, que mantinham a frieza do ar feito uma caixa de isopor. Estranho, mas não tão estranho assim, pensar nisso, ou melhor, relembrar isso, como tantas outras vezes, aqui com meu velho amigo que produz cinzas, e que ao fim de cada um me cobra pela sua companhia um dia de vida da mala onde ficam guardados todos eles, os dias, sabe se lá por quem, Deus ou o diabo?
Eu não sei com certeza o que desencadeia as nossas memórias, até mesmo aquelas que hoje não causam mais tanto efeito, mas que no dia do tal acontecido eram tudo que tínhamos, era o que a gente era, simples e complexo como um bordado na seda. Sei que remexendo essas faíscas de vida tenho a sensação de que não vivi nem o esboço do que programei para esse ato de sobrevivência no mundo chamado caos. Sabe de uma coisa eu gostava mesmo era de seduzir, desde muito sempre me comportei de forma provocante, que nem aquelas pessoas, perfeitas de externo nos pôsteres das revistas, com seus olhares provocantes que borbulham feito o fervor da água do chá que se tornou o meu único prazer diário, fora é claro a sessão de masturbação matutina, que exala aquele gozo que arde de tão só. Como dizia, eu gostava de seduzir, de provocar, de interpretar, e no que fiz a vida toda isso me foi de grande utilidade, foi um daqueles talentos que a gente trás do útero e que a gente aperfeiçoa com o tempo, com a prática, com as noites de saltos altos e roupas curtas, faça frio, faça calor.
Não me lembro bem a primeira vez que me propus, só me lembro da preparação no espelho, do que iria dizer, como pegaria no copo de whisky caso fosse oferecido, de como mostraria os dentes de uma forma devagar sem formar aquele vinco de baba entre um lábio e outro, como trotaria pelo chão cruzando as pernas, como usaria a mobilha do quarto feito um fuzileiro usa o solo para se abrigar na batalha, ou uma leoa que se camufla na savana para o bote mortal, bem naquele espaço abaixo do pescoço onde ninguém é igual a ninguém, aliás abaixo do pescoço ninguém é igual a ninguém, todo mundo tem nem que seja uma cicatriz que te mostra a dor de ser gente de carne.
Sei que era uma dessas noites comuns, com grande quantidade de estrelas no céu que eu sabia que estavam lá, mas não podia ver pois estavam encobertas pelas luzes dos carros que se iam na avenida larga, e que se a gente apertasse os olhos assim como quem se esforça para ver alguma coisa que está longe víamos um borrão vermelho e amarelo das lanternas, pareciam até um rio de luzes. Era outono eu acho; não gosto muito do outono tenho a impressão que é uma estação sem personalidade, só uma previa de inverno, uma só... Na cabeça uma peruca mal penteada, mas foi o que consegui tão rapidamente, nos olhos bem saltados um contorno negro, e o batom vermelho sangue, no coração uma palpitação sem ordem que ameaçava falhar, e o riso sem o vinco de baba entre um lábio e outro.
Ah quem me dera se aquele dia fosse somente aquilo, só um desatino de quem gosta do perigo. E assim se foram vários anos, e assim vieram os copos de whisky, os cigarros no bolso da saia de veludo, as calcinhas de renda, as perucas, as mesas dos bares, os olhares que esmigalhavam corações que já sofriam de um sentimento rude, a saudade, o desprezo, o medo, a desordem.
Dançar no salão vermelho sempre me trazia um orgasmo interno, ali eu estava acima de todos eles, pobres trapos. As esperanças deles foram embora com seus corações partidos, as minhas foram se esvaindo a conta gotas junto com meus cabelos no ralo do banheiro, vieram a galope com as manchas nas mãos, com as rugas do pescoço, com a catarata das vistas, com o amarelado dos dentes e sobretudo com os fins de noite só na cama grande, que sempre esperou acolher mais de um corpo, e agora de que me servem essas lembranças todas? Eu só queria que o meu amigo que fabrica cinzas me cobrasse logo de uma vez a divida que há muito tempo tenho com ele, não me importaria desde que eu continuasse com o meu batom vermelho sangue.