sábado, 28 de abril de 2012

Ser Alexandra




Tenho acompanhado Alexandra há muito tempo, sempre observando, sempre escondido. Ainda me lembro a primeira vez que a vi, estava sentando na calçada de minha casa; o dia estava frio, tinha acabado de chover e o sol ainda estava entre as nuvens; pequenos raios escapavam e pareciam ser atraídos pela sua pele morena, eles a iluminavam assim como um holofote de teatro, e ela lógico, era a estrela principal. Alexandra passou por mim com um pequeno sorriso que esticava os lábios carnudos, me senti como se tivesse encontrado a minha vida naquela tarde fria de domingo.  A cada dia vivido me sentia mais ligado a ela sempre a observando, acompanhando suas peripécias de menina moça, sempre a procura de experiências, a busca incessante do novo, do desconhecido. Não consigo contar às vezes que de longe, a vi debruçada sobre os joelhos e podia ouvir o seu choro baixinho, ali ela parecia ser tão frágil, tão humana, tão menina... A complexa moçoila logo se transformou em uma linda mulher. Ao oposto do choro interno, ela tinha também uma belíssima gargalhada, alta e espalhafatosa, tão dela parece que foi composta como uma música unicamente para ela. Alexandra sempre foi cercada de gente, alguns ela considerou importantes, por um tempo, outros talvez para a vida toda. Contorcia-me de vontade de tocá-la, de conversar com ela, aquelas pessoas não sabia o privilégio que tinham de conviver com ela. Cada lágrima de Alexandra também era minha lágrima, chorávamos juntos a distancia, pelas perdas que passaram por sua vida e creio que não foram poucas, entretanto sei que a ajudaram de alguma forma. A juventude parece ser material construtor de sua vida, bem sei que quando o tempo esvoaçar sobre seu corpo não tocará seu espírito, ela sempre será jovem de coração, sempre será aquela menina esguia que vi descer a rua. Uma coisa que me chama muito minha atenção em relação a ela é a sua sensualidade, o jeito que meche as mãos, o jeito que fala às vezes desajeitada, o pouquinho de cada um que ela absorve. Gosto do rosto dela. Gosto quando ela se veste toda invocada por que vai conhecer mais um que será seu amor por mais essa noite, costumo ficar esperando ela sair de casa e fotografo com meu olhar cada segundo enquanto o vento esvoaça seus cabelos tingidos na tentativa de obter um vermelho; gosto quando ela se pinta, pinta a boca bem marcada de batom escarlate; emana libertinagem de mulher. Lembrei-me de vê-la a beira mar vendo as ondas lamberem a praia e ela parecia se comunicar com as águas por telepatia, estava ela imóvel observando o sol descendo lentamente até tocar o mar e por um segundo acredito ter ouvido Alexandra sussurrar sozinha – Há algo de maior no sol e no mar... Deus se faz presente aqui - Alexandra usufruiu de varias paixões ou talvez as paixões tenham usufruído do seu espírito para se tornarem concretas. Essa ânsia de se sentir amada, desejada, feliz; deu a vida dela vários amores; amores casuais, amores de uma noite, amores de olhares e alguns deles amores para a vida toda. Estes sentimentos que em um dia pareciam ser tão maravilhosos, tão lindos, mágicos e no outro faziam descer dos olhos grandes de Alexandra lágrimas quentes que formavam caminho pelo seu rosto e chegavam à boca forçando-a sentir o sabor da desilusão. Apesar de tudo ela sempre tinha alguém, desde aquele homem interessantíssimo, inteligente que conheceu na balada e logo se entrelaçaram ferozmente nos lençóis de uma cama de motel, até aquele cara carinhoso e cheio de expectativa a quem ela jurou amor eterno, ela sempre jurava achando que essa seria a ultima vez. Sempre havia alguém por quem, no momento, valia à pena se arriscar. Recordei-me repentinamente de Alexandra brincando com suas bonecas, doce meninice. Logo aquele ato tão infantil daria espaço às descobertas da puberdade. Logo estaria ela com seus lábios colados a de um garoto, e mais tarde certa do que queria, aos celebres 16 anos, perderia em forma de sangue o que restava de sua inocência sexual. As amizades de Alexandra como todo o resto de sua vida foram cheias de idas e vindas, tivera muitos amigos uns a traíram por seus próprios prazeres, porém os outros, muitos, varreram qualquer vestígio dessa poeira podre para o esquecimento. O despertar do frágil coração de Alexandra para o amor foi mais que importante para definir a Alexandra que conheço hoje, me arrisco em dizer que esse talvez tenha sido o único, e sempre esperado por todos, amor verdadeiro. Eu a observava sempre alegre e sorridente embriagada no mais saboroso dos vinhos; parecia ter transcendido para outra dimensão. Eu apesar de saber que de onde vinha toda aquela alegria, que era como um rio que brotava daquele rapaz e banhava todo o coração de Alexandra, me sentia feliz por que ela estava feliz, esse foi o primeiro, não soube lidar com a fragilidade de cristal de Alexandra; desperdiçou o seu puro amor. Ela então prometeu a se mesma, para sempre estar longe dos dolorosos sentimentos humanos, mas felizmente ela é humana demais pra resistir a sua própria humanidade. E eu continuo aqui a observar a menina que hoje como mulher continua a descer a rua e passar por mim todos os dias sem saber que, aqui em mim, reside a sua única e verdadeira felicidade. Eu sei que Alexandra pensa que nunca encontrará o homem da sua vida, mas ele está aqui, esperando ansioso o dia de se apresentar a ela, e viverem o que a própria vida guardou pra nós o tempo todo. O tempo... Ele nos fará feliz eu prometo a ti Alexandra.

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