Nasceu em um desses dias que ficam no meio, entre um
feriado daqueles inventados por quem precisa de alguma forma deixar sua digital
torta no tempo e um fim de semana. Nesses dias geralmente as poucas pessoas que
andam nas ruas tem olhos tristes e em contato com o chão, mais a frente quando
ele soubesse olhar o mundo, iria ver que existe uma norma para tudo, até mesmo
onde se diz que não existe norma, feito um mosaico de pedras coloridas, que
olhando muito de cima pode significar alguma coisa ou olhado muito de perto
signifique alguma coisa, mas que estando no meio – onde ele estaria - sendo uma
dessas pedras, que contra sua vontade foi grudada na esteira que se movimenta
em todos os sentidos.
Nasceu da forma que todos os outros nascem, levando
um susto com o ar que entrava invasivo pelo pulmão virgem, aos berros, como se
pressentisse o quão desagradável é andar pelo mundo ou quanto fabuloso isso
pode ser, afinal também iria ver e ouvir o choro de felicidade. O tempo corria
rápido para os que estavam acostumados com ele, e enquanto uns caiam outros se
levantavam, como viu alguns anos depois, e nesse momento já havia visto e
ouvido muitos com suas certezas, que eram duras, umas bem fantasiosas como
esperar um homem que morreu há mais de dois mil anos que voltaria para
extinguir o caos e peneirar a paz como açúcar refinado, ele já sabia que açúcar
refinado adoça e mata lentamente; outras tão ásperas quanto à lambida de um
gato, como aqueles que viam na ciência dos homens a explicação para toda a
carcaça que crescia ao redor deles a cada volta que o mundo dava ao redor de si
mesmo.
Tinha oito anos cronológicos e alguns desenhos
pendurados na parede, dois botões azul e vermelho nos bolsos e nem um vidro nos
olhos, e um balanço de madeira que ele mesmo fez com cordas amarelas e um
pedaço da goiabeira que foi devorada quase que totalmente por larvas. Isso era
tudo que acreditava ser seu nesse momento. Os dias no balanço, que às vezes
eram dias do meio, como o que ele nasceu, eram os de olhar o céu e, sobretudo
as nuvens que se transformavam tão rapidamente em coisas que ele não conhecia
outras já havia visto perambulando pelo mundo.
Não tinha nada nem ninguém além dele, às vezes ouvia
as pessoas que sempre estavam falando, e falavam muito, sem chegar nunca a nem
uma conclusão, via as frases que saiam de suas bocas que nunca se cansavam,
músculos que trabalhavam talvez mais que qualquer um outro, elas tinham cores
variadas e se dissolviam no vento como as nuvens que ele observava nos dias do
meio, e que essas baforadas soltas por seres de gelatina verde quando apontadas
para ele queria quase sempre mostrar fumaça como madeira.
Os que lá de cima, da altura implacável de suas
pernas estavam não viam é que ele morava longe. Ele era sem forma, nem redondo,
nem quadrado, nem espinhoso, talvez fosse parecido com uma batata, mas ouvira
falar que não se constroem castelos com batatas, ou pelo menos não com batatas
inteiras.
Um dia conheceu um ser que compartilhava do caos e
da ordem, que lhe ofertou trocar a fumaça das certezas que ele guardava sem
saber nos pulmões que não eram mais virgens, por alguns sonhos brilhantes que
seguidos de uma promessa, de que se bem plantados na terra fofa, e regado às
primeiras horas do dia, cresceria até onde quisesse ir. Ele o fez, cuspiu tudo
em uma bacia de latão, e respirou fundo, com uma das mãos pegou os pontos
brilhantes, eles realmente eram muito brilhantes, às vezes até meio
insuportáveis para ele que não tinha vidro nos olhos.
Apertou os sonhos brilhantes contra o peito, feito
um bebê que precisa de cuidados, e correu o mais rápido que pode, até sujar os
sapatos no barro do chão que há alguns meses não sentia a frieza da chuva
levantando uma poeira fina que sempre fica grudada nas meias brancas de algodão
puro. Embaixo do balanço, no vão formado pelos pés que amassavam a terra,
quando a volta do balanço foi muito alta e aparecia aquele frio na barriga, e
os olhos se esbugalhavam. O ar saia rápido pelo nariz e pela boca, e eles
brilhavam feito fragmentos de espelho no sol, eram realmente fascinantes. Cavou
o chão com as mãos e os enterrou delicadamente, como alguém que se despede de
quem foi embora.
Esperou até o vento passar pela fresta da janela
fazendo pequenos assovios que se misturavam harmonicamente com o cantar dos
passarinhos que acordavam cedo, ou talvez nem dormissem, era hora de regar como
a promessa que lhe havia dito. Ele com as mãos pequenas e ainda com o pijama de
bolinhas vermelhas corria até o chão do balanço onde os brilhantes estavam
enterrados, e brilhavam até mesmo debaixo da terra.
Lembrava que não poderia derramar mais do que cinco
gotas de água morna sobre eles. E assim fez, dia após dia. Sentava em seguida
no balanço sem por os pés no chão para não amassa-los, e esperava, esperava,
esperava...
A terra mais uma vez dando voltas ao redor de si
mesma, e repetia isso por trezentos e sessenta e cinco dias, e ele todos os
dias estava lá. O vento assoviando na janela, os passarinhos que cantavam não
se sabe para quem, e ele com as cinco gotas no montinho de terra.
As pernas dele cresceram e ficaram tão altas e
difíceis de domar quanto às dos seres que baforavam certezas sobre ele, até que
ele não conseguiu mais ficar com elas suspensas no ar, sem tocar o repouso dos
sonhos brilhantes. Ele um dia sem perceber que nele já haviam cabelos brancos e
vidros nos olhos, tocou levemente a terra embaixo do balanço.
Viu nesse instante eles se apagarem, devagar, assim
como vagalumes que vão embora e sou devorados pela noite faminta. Nesse momento
eles começaram a brotar do chão com uma rapidez assustadora e subiam suas ramas
pelas suas pernas, passando pela barriga, pelo peito, chegando aos cabelos.
Antes que ele pudesse gritar, quem sabe alguém ouvisse, ele se tornou com
balanço e tudo, um só, plantado para sempre ali mesmo onde estava, alguns falam
que chegou a produzir frutos, vermelhos e azuis feito os botões que ainda tinha
nos bolsos, até um dia como a goiabeira que virou balanço, ser devorado por
larvas famintas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário