domingo, 18 de outubro de 2015

Brilhantes



Nasceu em um desses dias que ficam no meio, entre um feriado daqueles inventados por quem precisa de alguma forma deixar sua digital torta no tempo e um fim de semana. Nesses dias geralmente as poucas pessoas que andam nas ruas tem olhos tristes e em contato com o chão, mais a frente quando ele soubesse olhar o mundo, iria ver que existe uma norma para tudo, até mesmo onde se diz que não existe norma, feito um mosaico de pedras coloridas, que olhando muito de cima pode significar alguma coisa ou olhado muito de perto signifique alguma coisa, mas que estando no meio – onde ele estaria - sendo uma dessas pedras, que contra sua vontade foi grudada na esteira que se movimenta em todos os sentidos.
Nasceu da forma que todos os outros nascem, levando um susto com o ar que entrava invasivo pelo pulmão virgem, aos berros, como se pressentisse o quão desagradável é andar pelo mundo ou quanto fabuloso isso pode ser, afinal também iria ver e ouvir o choro de felicidade. O tempo corria rápido para os que estavam acostumados com ele, e enquanto uns caiam outros se levantavam, como viu alguns anos depois, e nesse momento já havia visto e ouvido muitos com suas certezas, que eram duras, umas bem fantasiosas como esperar um homem que morreu há mais de dois mil anos que voltaria para extinguir o caos e peneirar a paz como açúcar refinado, ele já sabia que açúcar refinado adoça e mata lentamente; outras tão ásperas quanto à lambida de um gato, como aqueles que viam na ciência dos homens a explicação para toda a carcaça que crescia ao redor deles a cada volta que o mundo dava ao redor de si mesmo.
Tinha oito anos cronológicos e alguns desenhos pendurados na parede, dois botões azul e vermelho nos bolsos e nem um vidro nos olhos, e um balanço de madeira que ele mesmo fez com cordas amarelas e um pedaço da goiabeira que foi devorada quase que totalmente por larvas. Isso era tudo que acreditava ser seu nesse momento. Os dias no balanço, que às vezes eram dias do meio, como o que ele nasceu, eram os de olhar o céu e, sobretudo as nuvens que se transformavam tão rapidamente em coisas que ele não conhecia outras já havia visto perambulando pelo mundo.
Não tinha nada nem ninguém além dele, às vezes ouvia as pessoas que sempre estavam falando, e falavam muito, sem chegar nunca a nem uma conclusão, via as frases que saiam de suas bocas que nunca se cansavam, músculos que trabalhavam talvez mais que qualquer um outro, elas tinham cores variadas e se dissolviam no vento como as nuvens que ele observava nos dias do meio, e que essas baforadas soltas por seres de gelatina verde quando apontadas para ele queria quase sempre mostrar fumaça como madeira.
Os que lá de cima, da altura implacável de suas pernas estavam não viam é que ele morava longe. Ele era sem forma, nem redondo, nem quadrado, nem espinhoso, talvez fosse parecido com uma batata, mas ouvira falar que não se constroem castelos com batatas, ou pelo menos não com batatas inteiras.
Um dia conheceu um ser que compartilhava do caos e da ordem, que lhe ofertou trocar a fumaça das certezas que ele guardava sem saber nos pulmões que não eram mais virgens, por alguns sonhos brilhantes que seguidos de uma promessa, de que se bem plantados na terra fofa, e regado às primeiras horas do dia, cresceria até onde quisesse ir. Ele o fez, cuspiu tudo em uma bacia de latão, e respirou fundo, com uma das mãos pegou os pontos brilhantes, eles realmente eram muito brilhantes, às vezes até meio insuportáveis para ele que não tinha vidro nos olhos.
Apertou os sonhos brilhantes contra o peito, feito um bebê que precisa de cuidados, e correu o mais rápido que pode, até sujar os sapatos no barro do chão que há alguns meses não sentia a frieza da chuva levantando uma poeira fina que sempre fica grudada nas meias brancas de algodão puro. Embaixo do balanço, no vão formado pelos pés que amassavam a terra, quando a volta do balanço foi muito alta e aparecia aquele frio na barriga, e os olhos se esbugalhavam. O ar saia rápido pelo nariz e pela boca, e eles brilhavam feito fragmentos de espelho no sol, eram realmente fascinantes. Cavou o chão com as mãos e os enterrou delicadamente, como alguém que se despede de quem foi embora.
Esperou até o vento passar pela fresta da janela fazendo pequenos assovios que se misturavam harmonicamente com o cantar dos passarinhos que acordavam cedo, ou talvez nem dormissem, era hora de regar como a promessa que lhe havia dito. Ele com as mãos pequenas e ainda com o pijama de bolinhas vermelhas corria até o chão do balanço onde os brilhantes estavam enterrados, e brilhavam até mesmo debaixo da terra.
Lembrava que não poderia derramar mais do que cinco gotas de água morna sobre eles. E assim fez, dia após dia. Sentava em seguida no balanço sem por os pés no chão para não amassa-los, e esperava, esperava, esperava...
A terra mais uma vez dando voltas ao redor de si mesma, e repetia isso por trezentos e sessenta e cinco dias, e ele todos os dias estava lá. O vento assoviando na janela, os passarinhos que cantavam não se sabe para quem, e ele com as cinco gotas no montinho de terra.
As pernas dele cresceram e ficaram tão altas e difíceis de domar quanto às dos seres que baforavam certezas sobre ele, até que ele não conseguiu mais ficar com elas suspensas no ar, sem tocar o repouso dos sonhos brilhantes. Ele um dia sem perceber que nele já haviam cabelos brancos e vidros nos olhos, tocou levemente a terra embaixo do balanço.
Viu nesse instante eles se apagarem, devagar, assim como vagalumes que vão embora e sou devorados pela noite faminta. Nesse momento eles começaram a brotar do chão com uma rapidez assustadora e subiam suas ramas pelas suas pernas, passando pela barriga, pelo peito, chegando aos cabelos. Antes que ele pudesse gritar, quem sabe alguém ouvisse, ele se tornou com balanço e tudo, um só, plantado para sempre ali mesmo onde estava, alguns falam que chegou a produzir frutos, vermelhos e azuis feito os botões que ainda tinha nos bolsos, até um dia como a goiabeira que virou balanço, ser devorado por larvas famintas.









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