As vezes entre um
click e outro do relógio enquanto o mundo inteiro parece sofrer de mudez aguda
em um daqueles espaços de tempo que se pararmos e observarmos conseguimos ouvir
o som de nossa própria respiração, coisa que quase sempre não nos atentamos,
mas ela está sempre lá. Ressalva de quando levamos algum susto daqueles que
deixam os pés mais leves como quando se desce bem rápido da montanha russa, ou
como quando recebemos a noticia de que seu artista favorito foi mais uma vitima
de seus próprios ais e por consequência morreu de overdose. O fato é que nesses
espaços de tempo sempre passam atrocidades pelas nossas mentes, sempre em
formação.
Lembro-me alguns
anos atrás, quando descobria meu corpo e dos que lá estavam comigo, alguns
pêlos que não pediam licença para aparecer em lugares que não eram tão notados
anteriormente e confesso que em algumas vezes causavam, os pêlos, algum tipo de
desconforto. Já não compartilhava meu total equilíbrio, mas os dias se iam tão
lentos quanto às folhas que caiam das arvores do jardim mal cuidado da nossa
casa de paredes grossas, que mantinham a frieza do ar feito uma caixa de
isopor. Estranho, mas não tão estranho assim, pensar nisso, ou melhor,
relembrar isso, como tantas outras vezes, aqui com meu velho amigo que produz
cinzas, e que ao fim de cada um me cobra pela sua companhia um dia de vida da
mala onde ficam guardados todos eles, os dias, sabe se lá por quem, Deus ou o
diabo?
Eu não sei com
certeza o que desencadeia as nossas memórias, até mesmo aquelas que hoje não causam
mais tanto efeito, mas que no dia do tal acontecido eram tudo que tínhamos, era
o que a gente era, simples e complexo como um bordado na seda. Sei que
remexendo essas faíscas de vida tenho a sensação de que não vivi nem o esboço
do que programei para esse ato de sobrevivência no mundo chamado caos. Sabe de
uma coisa eu gostava mesmo era de seduzir, desde muito sempre me comportei de
forma provocante, que nem aquelas pessoas, perfeitas de externo nos pôsteres
das revistas, com seus olhares provocantes que borbulham feito o fervor da água
do chá que se tornou o meu único prazer diário, fora é claro a sessão de
masturbação matutina, que exala aquele gozo que arde de tão só. Como dizia, eu
gostava de seduzir, de provocar, de interpretar, e no que fiz a vida toda isso
me foi de grande utilidade, foi um daqueles talentos que a gente trás do útero
e que a gente aperfeiçoa com o tempo, com a prática, com as noites de saltos
altos e roupas curtas, faça frio, faça calor.
Não me lembro bem
a primeira vez que me propus, só me lembro da preparação no espelho, do que
iria dizer, como pegaria no copo de whisky caso fosse oferecido, de como
mostraria os dentes de uma forma devagar sem formar aquele vinco de baba entre
um lábio e outro, como trotaria pelo chão cruzando as pernas, como usaria a
mobilha do quarto feito um fuzileiro usa o solo para se abrigar na batalha, ou
uma leoa que se camufla na savana para o bote mortal, bem naquele espaço abaixo
do pescoço onde ninguém é igual a ninguém, aliás abaixo do pescoço ninguém é
igual a ninguém, todo mundo tem nem que seja uma cicatriz que te mostra a dor
de ser gente de carne.
Sei que era uma
dessas noites comuns, com grande quantidade de estrelas no céu que eu sabia que
estavam lá, mas não podia ver pois estavam encobertas pelas luzes dos carros
que se iam na avenida larga, e que se a gente apertasse os olhos assim como
quem se esforça para ver alguma coisa que está longe víamos um borrão vermelho
e amarelo das lanternas, pareciam até um rio de luzes. Era outono eu acho; não
gosto muito do outono tenho a impressão que é uma estação sem personalidade, só
uma previa de inverno, uma só... Na cabeça uma peruca mal penteada, mas foi o
que consegui tão rapidamente, nos olhos bem saltados um contorno negro, e o
batom vermelho sangue, no coração uma palpitação sem ordem que ameaçava falhar,
e o riso sem o vinco de baba entre um lábio e outro.
Ah quem me dera se aquele dia fosse
somente aquilo, só um desatino de quem gosta do perigo. E assim se foram vários
anos, e assim vieram os copos de whisky, os cigarros no bolso da saia de
veludo, as calcinhas de renda, as perucas, as mesas dos bares, os olhares que
esmigalhavam corações que já sofriam de um sentimento rude, a saudade, o
desprezo, o medo, a desordem.
Dançar no salão vermelho
sempre me trazia um orgasmo interno, ali eu estava acima de todos eles, pobres
trapos. As esperanças deles foram embora com seus corações partidos, as minhas
foram se esvaindo a conta gotas junto com meus cabelos no ralo do banheiro,
vieram a galope com as manchas nas mãos, com as rugas do pescoço, com a
catarata das vistas, com o amarelado dos dentes e sobretudo com os fins de
noite só na cama grande, que sempre esperou acolher mais de um corpo, e agora
de que me servem essas lembranças todas? Eu só queria que o meu amigo que
fabrica cinzas me cobrasse logo de uma vez a divida que há muito tempo tenho
com ele, não me importaria desde que eu continuasse com o meu batom vermelho
sangue.

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